Todos os dias, empresas escolhem onde direcionar seus melhores talentos e recursos. Nas economias mais dinâmicas, eles são alocados em pesquisa, criação de novos produtos, aperfeiçoamento de processos e ganhos de produtividade. Desenvolver uma nova tecnologia exige tempo, capital e riscos elevados. Obter proteção estatal para preservar mercados, porém, pode ser muito mais barato e oferecer retornos mais previsíveis. Quando essa lógica deixa de ser exceção e se torna regra, a inovação deixa de ser o principal caminho para o sucesso empresarial. É nesse momento que o capitalismo começa a mudar de natureza. O progresso econômico depende da renovação permanente da economia. Novas empresas desafiam as líderes, novas tecnologias tornam antigas soluções obsoletas e novos empreendedores substituem aqueles que perderam a capacidade de inovar e competir. O capitalismo não prospera apesar dessa instabilidade, mas justamente por causa dela. Seu dinamismo repousa na certeza de que nenhuma empresa permanece líder para sempre. Joseph Schumpeter chamou esse processo de destruição criativa. O problema surge quando preservar vantagens passa a ser mais lucrativo do que conquistá-las. Em muitos aspectos, o ambiente institucional brasileiro criou exatamente esse conjunto de incentivos. Ao longo de décadas, construímos um sistema em que frequentemente é mais racional disputar favores do Estado do que conquistar consumidores. Benefícios tributários, regimes especiais, crédito subsidiado e barreiras regulatórias fizeram da influência política parte da estratégia competitiva de inúmeras empresas. Philippe Aghion, Nobel de Economia em 2025, mostra que, à medida que empresas consolidam sua liderança de mercado, sua intensidade inovadora tende a diminuir, enquanto cresce o investimento em influência política. A lógica é simples: quando proteger posições já conquistadas oferece retornos maiores do que desenvolver novos produtos e mercados, capital, talento e esforço empresarial migram da inovação para a preservação de posições já estabelecidas. Esse é o verdadeiro custo do capitalismo de privilégios. Ao tornar a influência política mais rentável do que a inovação, o sistema altera os incentivos que orientam as decisões empresariais. Recursos deixam de ser alocados onde geram maior produtividade e passam a ser empregados na preservação de rendas existentes. A destruição criativa perde força, menos empresas entram e se desafiam; como consequência, a produtividade desacelera. Talvez o efeito mais nocivo dessa mudança seja invisível. Não está apenas nas empresas que deixam de inovar, mas nas inovações que jamais chegam a existir. O problema brasileiro nunca foi a existência de empresários influentes. Toda democracia precisa ouvir empresas, trabalhadores e organizações da sociedade civil. O problema é termos criado um ambiente institucional em que, para muitas empresas, investir em influência política pode oferecer retornos maiores do que investir em pesquisa e inovação. Talvez a pergunta mais importante para medir a qualidade do capitalismo brasileiro seja simples. Onde estão os maiores retornos? Em criar algo novo ou em impedir que outro o faça? Quando a influência rende mais do que a inovação, o capitalismo não deixa de existir, apenas deixa de cumprir sua principal função, transformar concorrência em produtividade. O verdadeiro teste de uma economia de mercado não está no número de grandes grupos que ela preserva, mas na quantidade de novos competidores que ela permite surgir. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Quando inovar deixa de valer a pena
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