Ninguém nos ensinou a discutir e, menos ainda, a suportar o intervalo que vem depois. O silêncio é um espaço incômodo: sem palavras, ficamos sem sentido. E, como esse silêncio nasceu de uma briga, em que vocês dois se viram como oponentes, o movimento quase intuitivo é preenchê-lo ainda operando na lógica do ataque e da defesa. Acho interessante e simbólico que esta seja uma pergunta de um homem preocupado em respeitar o espaço de silêncio dela e, também, em validar o próprio incômodo diante dele. Discussões conjugais facilmente caem numa dinâmica de disputa de poder e razão e, em nome deles, muitos de nós já ultrapassamos todos os limites razoáveis. Perguntas como esta reforçam minha fé num amor possível, pois apresentam alguém que quer entender antes de ter razão. O nó da pergunta se dá no encadeamento lógico que simplifica comportamentos complexos e não excludentes: "quero entender para saber se tenho razão ou não". Tendemos a polarizar: ou "o meu incômodo é válido e, para isso, ela tem que estar errada, logo ela está fazendo tratamento de silêncio"; ou "ela precisa de um tempo para refletir e, como o espaço é dela, não tenho direito de ficar incomodado. Mas estou, logo o errado sou eu." Diante do impasse, patologizamos o comportamento do outro para culpá-lo e justificar nosso incômodo. "Tratamento de silêncio" aparece assim, com a mesma lógica em que se tacha o outro de narcisista ou "love bomber". Nomear dá contorno, significado e direção à ação do outro: ela está fazendo isso para me punir. Em tempos de diagnóstico de TikTok e polarização afetiva, não falta material público para nomear o privado. Assim, agindo no mesmo silêncio que nos machuca, damos ao silêncio um nome que encerra a dúvida e nos devolve a razão. Nos parece mais maduro pensar "sou uma pessoa aberta ao diálogo e ao conflito construtivo; já ela me destrói nesse silêncio" do que assumir "fico angustiado quando a gente briga, queria resolver logo. Não sei o que vai acontecer. Talvez ela também não." Encarar o silêncio como período de elaboração é mais angustiante porque não sabemos se as reflexões do outro estão nos aproximando ou nos afastando. Dá medo de que cada retirada de palavra seja o símbolo de um definhar de afeto. Dá medo de termos sido nós, com palavras afiadas, a ferir. É preciso sustentar essa angústia e respeitar os tempos de silêncio. No Raio X da Vida Afetiva, pesquisa que fiz com Camila Holpert com mais de mil brasileiros, o que adoece o amor brasileiro não é o conflito barulhento: é a ausência silenciosa. A falta de escuta é a vivência negativa mais prevalente, presente em 1 a cada 4; o tratamento de silêncio vem em segundo lugar, em 1 a cada 6. Me questiono se toda menção ao tratamento de silêncio é tratamento de silêncio ou a nossa forma de nomear uma dificuldade mútua de diálogo. Nós nos queixamos da falta de escuta, mas temos perguntado, pedido e nos vulnerabilizado cada vez menos. O que diferencia o silêncio da elaboração do tratamento de silêncio são as palavras que precedem, pedem e explicam esse silêncio, e as ações que o acompanham. O silêncio da elaboração anuncia a necessidade de espaço e cuida do vínculo, colocando um ponto e vírgula na verborragia emocional: "acho que a gente tá se machucando, vamos conversar sobre isso amanhã". Já o tratamento de silêncio escolhe punir, usando o silêncio como blindagem que exclui e ataca. Para não dar a entender que está tudo bem, a pessoa magoada hostiliza a outra em todos os campos da vida: se faz distante, responde monossilábica, não sai do celular. E, quando perguntada se "está acontecendo alguma coisa", responde com o desmentido do psicanalista húngaro Sándor Ferenczi —a invalidação do sentimento compartilhado: "não foi nada", "só estou cansado". Surge uma muralha de neutralidade que fecha as portas para novos diálogos e deixa o outro de fora, com toda a angústia e nenhuma força para uma reaproximação. Afinal, é do desmentido, e não do fato em si, que o trauma se origina, o que nos faz duvidar da nossa percepção e de nós mesmos. Para saber o que o silêncio dela significa, em vez de se corroer em suposições, pergunte sem atacar. Espelhar o silêncio e chamá-lo de tratamento de silêncio é estar mais defendido do que compreensivo. Arrisque-se: "Podemos voltar a falar daquele assunto ou você ainda precisa de um tempo?" Confesse que está mexido e inseguro. Peça colo, convide para um vinho. Gosto da perspectiva do psicólogo John Gottman e seus "bids de conexão": mesmo com um tema ainda por digerir, é importante que o casal siga fazendo pequenos gestos de cuidado com o vínculo. Trazer o vinho que vocês gostam. Querer se afastar do embate sobre um tema não significa se afastar do companheiro em tudo. Não é porque existe um assunto difícil que toda a relação precisa ficar difícil. Respeitar o espaço dela e nomear o próprio incômodo podem acontecer juntos. Perguntar é o avesso do desmentido: devolve ao outro o direito de dizer o que sente e a você o de dizer o quanto dói. O silêncio que elabora aguenta essa pergunta. O que pune existe justamente para não ter que ouvi-la. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? 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Quando brigamos, ela se fecha por dias. Devo respeitar o espa�o ou � tratamento de sil�ncio?
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