O envelhecimento da população é uma das principais transformações demográficas do século. O fenômeno começou nos países de alta renda, associado sobretudo ao aumento da expectativa de vida, à queda da fecundidade e aos avanços da medicina. Hoje, porém, este fenômeno ocorre em praticamente todo o planeta e avança em ritmo especialmente acelerado nos países de renda baixa e média. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada seis pessoas no mundo terá 60 anos ou mais até 2030. Em 2050, serão mais de 2 bilhões de pessoas nesta faixa etária, o equivalente a 22% da população mundial, quase o dobro dos 12% de hoje. O Brasil acompanha essa tendência, mas existe uma particularidade por aqui: a transição demográfica ocorre de forma muito mais rápida do que aconteceu nos países desenvolvidos. Desde a segunda metade do século 20, a redução da mortalidade foi acompanhada por uma forte queda no número de filhos por família, alterando progressivamente a estrutura etária brasileira. Em 1980, apenas 4% dos brasileiros tinham 65 anos ou mais. Em 2022, eram 22,2 milhões de pessoas, ou 10,9% da população. Somente entre 2010 e 2022, esse contingente cresceu 57,4%, enquanto a parcela de crianças de até 14 anos teve uma redução de 24,1% para 19,8%. A idade média dos brasileiros passou de 29 para 35 anos no mesmo período. Na cidade de São Paulo, a transformação é ainda mais evidente. O Censo 2022 registrou mais de 2 milhões de moradores com 60 anos ou mais, o equivalente a 17,7% do total de moradores da capital. Em 12 anos, a população idosa cresceu 51% e já supera proporcionalmente tanto as crianças quanto os jovens de 15 a 24 anos. As mulheres são maioria: cerca de 1,21 milhão, diante de 814 mil homens. Ainda em São Paulo, os dados mostram que o envelhecimento também tem forte dimensão territorial. Distritos mais antigos e com melhor infraestrutura, como Alto de Pinheiros, Consolação, Jardim Paulista, Moema, Pinheiros, Vila Mariana e Perdizes, apresentam índices de envelhecimento elevados. Em outras palavras, as pessoas vivem mais nesses locais, como mostra o Mapa da Desigualdade de São Paulo. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha A idade média ao morrer chega a 82 anos em Alto de Pinheiros e a 81 anos em Moema, Jardim Paulista e Pinheiros. Longe dali, na Cidade Tiradentes, esse indicador é de 62 anos. Em outros distritos, como Brasilândia, Jardim Ângela e Grajaú, as pessoas vivem, em média, até os 63 anos. A diferença entre alguns distritos chega a 20 anos. Ou seja, envelhecer bem em São Paulo tem relação direta com o CEP - depende do lugar onde as pessoas moram. Essa enorme desigualdade tem múltiplas causas. Mortalidade infantil, condições precárias de saneamento e taxas elevadas de homicídio explicam, em parte, porque se vive menos em determinados distritos da capital. Por isso, as soluções também passam por uma abordagem que envolva diferentes áreas de atuação do poder público. De modo geral, o avanço desse processo exige adaptar a cidade. Saúde, assistência social, mobilidade, habitação e desenho dos espaços públicos precisarão responder a uma população com necessidades diferentes. Entre os principais desafios estão o cuidado de doenças crônicas, a acessibilidade, a proteção contra a violência e o abandono, a inclusão digital e o enfrentamento do isolamento social. A própria OMS destaca que o envelhecimento populacional demanda mudanças em áreas como saúde, cuidados de longa duração, transporte, moradia e planejamento urbano. São Paulo já dispõe de políticas voltadas a essa faixa etária, como Centros-Dia e Núcleos de Convivência, atendimento especializado de defesa de direitos, ações de saúde e o Programa Acompanhante de Idosos, destinado a pessoas em situação de fragilidade e vulnerabilidade. Há ainda iniciativas de cultura, esporte e convivência voltadas ao envelhecimento ativo. O desafio, no entanto, é enorme. Há 20 anos, a diferença da idade média ao morrer nos distritos mais ricos e mais pobres da cidade é a mesma. Diante da velocidade da transformação demográfica e dos problemas em várias áreas que a capital enfrenta, é preciso que as políticas públicas alcancem e atendam os territórios onde a vulnerabilidade é maior. Mais do que uma política específica para idosos, essa questão exige repensar a própria cidade. Afinal, uma São Paulo boa para os idosos é uma São Paulo boa para todas as pessoas. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Quando aumentam os idosos e diminuem as crian�as, mudam os desafios da cidade
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