Quando a d�vida em reais pressiona o d�lar

Quando a d�vida em reais pressiona o d�lar

O perfil da dívida pública brasileira se deteriorou nos últimos anos. Em junho, 51,2% da dívida mobiliária federal interna estava atrelada à Selic, ante cerca de 40% no fim de 2022, enquanto a participação dos prefixados caiu de aproximadamente 28% para 21,8%. Os investidores evitam travar taxas de longo prazo diante do risco de rápida defasagem. Essa composição não apenas reflete a perda de credibilidade fiscal: também a retroalimenta. Quando a maior parte do passivo paga a Selic, uma política monetária contracionista encarece o serviço da dívida, alimenta a percepção de risco fiscal e reduz sua própria eficácia. O que quase não aparece nesse debate é uma segunda implicação: um país nessas condições precisa de mais reservas internacionais do que outro com um perfil de dívida mais diversificado. A conclusão parece contraintuitiva, já que a dívida pública brasileira praticamente não tem exposição cambial e o setor público é, na verdade, credor líquido em moeda estrangeira. Há pelo menos dois canais pelos quais a estrutura da dívida amplia a necessidade de reservas. Um dos canais de transmissão da política monetária é a apreciação cambial provocada pela alta dos juros. Mas, quando essa alta agrava uma trajetória de dívida já percebida como insustentável, os investidores passam a exigir um prêmio maior para manter ativos em reais, diante do risco de inflação futura ou de alguma forma de reestruturação. O efeito pode, então, se inverter: em vez de se apreciar, a moeda se deprecia. Nesse cenário, um volume maior de reservas dá ao Banco Central mais capacidade para conter disrupções no mercado cambial. O segundo canal é o mais relevante, embora menos discutido. O risco está no brasileiro com poupança em fundos DI, CDBs e outros instrumentos referenciados à Selic, que pode dolarizar parte dela numa crise de confiança fiscal. A indexação à taxa básica não apenas eleva o rendimento desses ativos quando o BC aperta a política monetária, como também preserva melhor seu valor em momentos de estresse. Se essa poupança estivesse aplicada em títulos prefixados, a abertura da curva de juros imporia perdas marcadas a mercado e reduziria o volume de recursos disponível para buscar proteção cambial. Com as LFTs, esse efeito riqueza é muito menor: embora possa haver algum deságio na venda e não exista garantia de preservação do poder de compra, sua baixa sensibilidade às taxas de mercado faz com que o valor nominal da poupança seja bem mais preservado em momentos de estresse. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Essa lógica encontra respaldo, ainda que indireto, na métrica de adequação de reservas do FMI. Ao contrário dos indicadores tradicionais, concentrados nas importações e na dívida externa de curto prazo, a metodologia também considera a moeda ampla como uma fonte potencial de pressão sobre as reservas —uma forma de capturar o risco de que residentes convertam ativos domésticos em moeda estrangeira. Reservas e intervenções do BC apenas compram tempo; não substituem o ajuste fiscal. A expansão do gasto e a trajetória insustentável da dívida estão na raiz dos juros altos e do risco cambial. O ajuste fiscal é, portanto, incontornável. Sem ele, a manutenção dos juros elevados acabará provocando uma crise de crédito, com aumento da inadimplência e retração da atividade. O atual perfil da dívida é mais um fator que agrava esse quadro: piora a dinâmica fiscal, reduz a eficácia da política monetária e, ao preservar a liquidez disponível para a dolarização, amplia a pressão sobre o câmbio. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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