Quem já construiu ou reformou uma casa provavelmente conhece um erro que só aparece depois que a obra termina: a falta de tomadas. Na planta, duas tomadas na sala parecem suficientes. Depois chegam a televisão, o roteador, as luminárias, os carregadores e tantos outros aparelhos. A solução começa com uma extensão. Depois vem o conhecido adaptador para ligar vários aparelhos na mesma tomada. Se o problema crescer, talvez seja necessário chamar novamente o eletricista, quebrar a parede e refazer parte da instalação. O que poderia ter sido previsto durante a obra vira remendo, custa mais e ainda pode aumentar os riscos. Com nosso patrimônio, frequentemente fazemos algo parecido. Primeiro pensamos em ter. Queremos comprar imóveis, construir um negócio, investir no Brasil e no exterior e constituir uma família. Somente depois que boa parte disso já existe surge a pergunta: como esse patrimônio será transferido para a próxima geração, ou seja perpetuado? Talvez a ordem devesse ser outra. Deveríamos começar a pensar na sucessão quando começamos a imaginar o que queremos ter, e não apenas depois que já temos. Isso não significa que alguém aos 30 ou 35 anos precise criar uma holding, fazer doações ou decidir como dividirá um patrimônio que nem sequer construiu. Planejar cedo não significa tomar todas as decisões cedo, significa fazer as escolhas de hoje considerando onde pretendemos chegar amanhã. Imagine alguém com 35 anos que deseja formar uma carteira de imóveis para complementar a aposentadoria. Compra o primeiro apartamento por R$ 1 milhão no próprio nome. Alguns anos depois, compra o segundo, o terceiro, e assim por diante. Aos 55 anos, possui cinco imóveis que, juntos, valem R$ 8 milhões. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Somente então começa a pensar na sucessão e conclui, após analisar a situação, que gostaria de organizar parte desse patrimônio em uma estrutura societária. O problema é que os imóveis já estão comprados e em seu nome. Transferi-los posteriormente pode exigir avaliações, registros, honorários, impostos e outras despesas. Aquilo que poderia ter sido considerado antes da primeira compra agora exige uma reorganização de um patrimônio maior. Não significa que ele necessariamente deveria ter comprado o primeiro apartamento por meio de uma empresa. Talvez a melhor decisão naquela época fosse justamente adquiri-lo em seu próprio nome. A diferença é ter feito essa escolha depois de se perguntar: se eu realmente chegar aos cinco imóveis que pretendo ter, como gostaria que esse patrimônio estivesse organizado? Planejamento não significa escolher a estrutura mais sofisticada, mas evitar que o futuro seja ignorado nas decisões do presente. Estruturar bem desde o início não elimina mudanças futuras. A legislação muda, o patrimônio cresce e nossos planos se transformam. Mas adiar pode ter dois custos. O primeiro é ter de desfazer e refazer algo que poderia ter sido planejado de outra forma desde o começo. O segundo é descobrir que aquilo que poderíamos ter feito antes ficou mais caro, mais difícil ou simplesmente deixou de ser possível. O mesmo raciocínio vale para decisões familiares, como casamento e filhos. Quando outras pessoas passam a depender financeiramente de nós, as consequências de deixar o planejamento para depois também aumentam. Algumas soluções podem simplesmente ficar mais caras ou até deixar de estar disponíveis. Uma proteção contratada hoje, por exemplo, pode custar muito mais no futuro ou até se tornar inviável caso uma mudança na saúde dificulte ou impeça sua contratação. Por isso, talvez a pergunta "qual é o momento certo de planejar sua sucessão?" esteja mal formulada. Não existe uma idade mágica nem um valor mínimo de patrimônio. Talvez o melhor momento para pensar na sucessão não seja quando você já tem patrimônio para deixar, mas quando começa a planejar o patrimônio e a família que pretende ter. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Nesta semana, esta coluna será dedicada à sucessão. Vamos discutir desde o custo de receber uma herança até doações, holdings, investimentos no exterior, previdência e seguros. Mais do que conhecer cada instrumento, vamos tentar entender qual problema cada um deles pode resolver. Não precisamos instalar tomadas em todas as paredes imaginando cada aparelho que compraremos nas próximas décadas. É impossível prever tudo. Mas algumas necessidades futuras já conseguimos enxergar. Com o patrimônio acontece o mesmo. Algumas decisões custam muito menos quando ainda estão na planta. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio-fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Qual � o momento certo de planejar sua sucess�o?
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