Qual Keynes?

Qual Keynes?

No artigo "A microeconomia de Lula" (17/10), publicado nesta Folha, o colunista Samuel Pessôa sugere que alguém ensine a Lula um outro Keynes. Mas Lula parece ter entendido o essencial do economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946) melhor que seu crítico: é o gasto que move a economia. O princípio da demanda efetiva, que Pessôa reconhece na fala do presidente –embora faça dele uma caricatura–, sustenta que a renda e o produto são determinados pelo gasto e que nenhum mecanismo leva naturalmente uma economia capitalista ao pleno emprego. Disso decorre algo que o colunista parece ignorar: a própria capacidade produtiva responde à demanda. A pergunta relevante não é apenas se há máquinas paradas hoje, mas também em quais setores e o que faz a economia ampliar sua capacidade amanhã. Lidos por inteiro, os artigos de 1937 que Pessôa cita dizem algo bem diferente. Keynes de fato via pouca vantagem em um novo estímulo geral no período. Mas pedia que o país evitasse o dinheiro caro "como ao fogo do inferno" e defendia dirigir a demanda às áreas deprimidas. No artigo de março, o mesmo de onde Pessôa tira sua definição de inflação, Keynes concluiu que os empréstimos do governo para o rearmamento não precisavam ser inflacionários, desde que houvesse planejamento. O problema, para ele, não era tanto de excesso de demanda agregada quanto de demanda mal distribuída. Preocupações demasiadas com um boom hipotético, advertia, seriam o caminho para tornar a depressão inevitável. A definição de inflação que Pessôa reproduz retoma a do capítulo 21 da "Teoria Geral", que distingue a inflação propriamente dita, quando a demanda adicional já não eleva o produto das altas de preços anteriores a esse ponto, provocadas por gargalos setoriais. Confundir as duas é justamente o erro que Keynes queria evitar. É verdade que a desocupação está em 5,3% e que a indústria opera com 83,2% da capacidade. Mas a subutilização da força de trabalho atinge 15 milhões de pessoas, e 37,5% dos ocupados estão na informalidade. Faltam postos de trabalho adequados, não mão de obra.Ademais, a demanda já perde fôlego. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, e o Copom atribuiu o último corte da Selic à desaceleração. Tampouco a inflação, de 4,58% em 12 meses, pouco acima do teto da meta, tem perfil de excesso de demanda. Em setembro, a energia elétrica respondeu sozinha por quase 40% do IPCA, e as projeções para 2026 saltaram de 3,95% para 4,9% com a guerra no Oriente Médio. O que mais moveu os preços foram petróleo e energia. Se o grau de utilização da capacidade está elevado, a razão principal é o baixo investimento: 16,1% do PIB no segundo trimestre, contra cerca de 20% no fim de 2013. Juros reais perto de 9% só agravam esse quadro.Uma política econômica inspirada em Keynes combinaria juros baixos e estáveis, investimento público planejado e gasto dirigido a setores estratégicos, enfrentando gargalos como energia, alimentos e logística. A contenção que Keynes admitia no auge do ciclo vinha de impostos e do adiamento planejado de obras, nunca de juros elevados ou da redução pura e simples dos gastos. Combater choques de custo com juros altos, culpando o gasto público, é que não está em parte alguma desses textos. Conta-se que Keynes, acusado de mudar de posição, respondeu: "Quando os fatos mudam, eu mudo de opinião. E o senhor, o que faz?". A pergunta, agora, é para Pessôa. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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