PT lan�a conte�do para evang�licos: 'Por que votamos em Lula?'

PT lan�a conte�do para evang�licos: 'Por que votamos em Lula?'

"Por que votamos em Lula?" Começa assim uma das peças que a campanha do presidente Lula (PT) preparou especialmente para o público evangélico. Acontece que o problema é justamente este: essa fatia do eleitorado vem se afastando do PT e, desde 2018, cristalizou uma rejeição ao partido que garante ao adversário 7 em cada 10 votos evangélicos no segundo turno. Os números se confirmaram com Jair Bolsonaro (PL) e, segundo pesquisas eleitorais recentes, têm tudo para se repetir com seu primogênito, Flávio (PL). O material, elaborado por um núcleo escalado pelo time lulista, é mais uma tentativa de dissipar esse azedume com o presidente, que tem mantido a média nas pesquisas de 3 em cada 10 eleitores crentes votando nele. A maioria nos templos é mulher, negra e de classe baixa, um perfil que tende a escolher Lula. A identidade religiosa dessa eleitora média, no entanto, pode enfraquecer a simpatia por ele. Se for evangélica, a probabilidade de torcer o nariz é maior. Um dos panfletos produzidos usa as passagens bíblicas Provérbios 29:2 ("quando os justos governam, o povo se alegra") e João 13:34 ("amem uns aos outros") para defender a eleição como exercício de amor ao próximo. Reforça que o voto é "livre, consciente, responsável e secreto", e não deve ser feito "por imposição de outros, seja pastor, liderança ou conhecido". Diz ainda: "Na hora de digitar na urna eletrônica, somente você e Deus sabem sua escolha". Um direito que deve ser exercido "com consciência e em oração", tendo em mente "você, sua família e o Brasil". São frases com destinatário claro. O PT teme a sua impopularidade entre as lideranças evangélicas, diferentemente de ciclos eleitorais passados, quando teve ao seu lado nomes de voltagem pentecostal, como o bispo Edir Macedo e o pastor Silas Malafaia. O texto tenta servir de antídoto contra líderes que, na avaliação do partido, podem constranger fiéis que decidirem votar para reeleger o presidente. Segundo Luís Sabanay, reverendo presbiteriano e coordenador do Nept (Núcleo de Evangélicos do PT), 2022 deixou um aprendizado. Naquele pleito, a mensagem petista aos evangélicos era "você não está sozinho". A ideia era acolher o irmão "que apoiava Lula e enfrentava pressão para votar em Bolsonaro", diz Sabanay. O conteúdo confeccionado para 2026 seria um passo além. "Agora, ele dá visibilidade a esses apoiadores e apresenta as razões que orientam sua escolha, estimulando o diálogo entre os próprios evangélicos." O pastor lembra que, quatro anos atrás, pesquisas chegaram a sinalizar uma performance ainda mais desastrosa para Lula. "Na reta final, a vantagem de Bolsonaro entre os evangélicos caiu de 38 para 30 pontos percentuais." Se celebra um tombo que, apesar de feio, foi menor do que poderia ser em 2022, o PT também reconhece que já foi mais benquisto por esse eleitorado. Evangélicos deram margens generosas a Lula no segundo turno de 2002 (63%) e 2006 (65%), segundo dados agregados pelo Estudo Eleitoral Brasileiro, da Unicamp. Sabanay reconhece que o cenário atual é um tanto desafiador para o presidente. Um alento: se não sumiu do mapa, a pauta de costumes, calcanhar de Aquiles do PT entre eleitores conservadores, está menos em evidência do que nas duas eleições anteriores. Daí a aposta em "questões concretas que afetam a vida das famílias", afirma o reverendo. As imagens falam por si. Um dos panfletos traz uma estrada bifurcada. Se você for pela via à esquerda, encontra flores, uma família feliz, um posto do SUS e o tempo ensolarado. Se opta pela direita, depara-se com uma tempestade de raios, um prédio onde a palavra "vacinação" está riscada, uma placa onde se lê "fila do osso" e uma multidão desassistida. Há um segundo conteúdo, intitulado "Como será o futuro do nosso país?". A ideia aqui é conectar versículos bíblicos a políticas públicas e conquistas sociais atribuídas ao governo Lula. Exemplo: reproduz Timóteo 5:18 ("o trabalhador é digno do seu salário") para respaldar a valorização salarial e o fim da escala 6x1. O material estará disponível nos próximos dias nos comitês eleitorais da campanha, em seis formatos: um folder, duas filipetas e três adesivos. A meta é imprimir pelo menos dez milhões de cópias de todos eles somados, segundo Sabanay. O coordenador do Nept diz que faz parte da estratégia estabelecer "diálogo constante com as mais de 60 candidaturas evangélicas do PT", sem contar os nomes lançados por legendas aliadas. A deputada Benedita da Silva, que tenta migrar para o Senado, é o quadro mais vistoso. Seu suplente, o cantor gospel Kléber Lucas, cantou com a primeira-dama Janja no ato de lançamento da chapa Lula-Geraldo Alckmin. É a terceira vez que o núcleo petista tenta lançar uma espécie de manifesto para o povo crente. A primeira foi em 2002. Na ocasião, a vitoriosa campanha de Lula produziu um folheto que chamou de Carta aos Evangélicos —espécie de versão religiosa da Carta ao Povo Brasileiro, o famoso documento que ofereceu para serenar os ânimos do mercado, temeroso com uma vitória sua. Em 2022, a equipe lulista fez algo parecido, sob o mote "é tempo de esperança, o Brasil tem jeito - o que os evangélicos realmente querem para o Brasil". O sociólogo Alexandre Landim, doutor pela Universidade Federal do Ceará e autor de "O Deus das Urnas: Evangélicos e Católicos em Eleições Presidenciais no Brasil", tem dúvidas sobre a eficácia desse gesto. A indisposição com o PT vem sendo gestada desde a campanha presidencial de Collor em 1989, lembra. A relação com a base evangélica melhorou nos anos 2000, com a perspectiva de triunfo petista nas urnas e a trégua estabelecida com algumas das grandes igrejas, como a Universal. O relacionamento azedou de novo nos últimos anos, e é nesse contexto que aparecer fazendo juras de amor ao segmento na véspera da eleição, segundo Landim, pode soar oportunista. "O que falta ao partido é oferecer um espaço que as igrejas evangélicas têm oferecido. Um trabalho de base, de participação, nas comunidades." A teologia da prosperidade, popular em muitos templos, é outro empecilho. O eleitor evangélico é menos inclinado a associar eventual melhoria de vida a políticas públicas e ações do governo. "O sucesso cai na lógica do esforço individual", afirma o sociólogo. E não adianta lançar panfleto em cima da hora "porque vai soar falso", diz. "Pode ter um efeito contrário, inclusive, de afastar o eleitor religioso." Ocorreu com José Serra (PSDB) em 2010. Para o acadêmico, o tucano exagerou na construção da persona religiosa, como na distribuição de santinhos que diziam "Jesus é a verdade e a justiça". Então veio à tona um aborto que sua esposa teria feito. "Ele foi desmoralizado e perdeu votos."

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