No meu feed, uma mulher com voz enjoada insiste em vender uma calça pantalona jabuticaba com pregas. Fico com a palavra "pregas" entalada na garganta e só consigo pensar no que José de Abreu diria a ela: você não vai lutar contra o fascismo? Trezentos vídeos sobre política depois, surge uma nutricionista com sotaque de infância nos Alpes franceses elencando alimentos ricos em FODMAPs (carboidratos fermentáveis pelas bactérias intestinais) que pioram o inchaço abdominal. Fico com "não me FOD" na cabeça: você não vai lutar pela democracia? A melhor forma de fazer um recém-nascido dormir, de cuidar de um idoso com demência, de descongelar pão, de desentupir vaso sanitário, de tratar uma queimadura, de investir dinheiro, de acabar com piolhos, de aplicar pasta térmica, de armazenar vídeos, de organizar malas de viagem. A melhor forma de fazer qualquer uma dessas coisas é, antes, lutando para que exista um país. No X, "jenna 100 por cento lulizada" diz que não estamos vivendo a tal "psicose política", e sim "uma lucidez feroz". Ela conclui: "psicose política é viajar no para-brisa de um caminhão". Concordo. Por mais obsessivos, histéricos, irritados e hiperfocados que estejamos, não somos nós a cantar o Hino Nacional e bater continência para pneu. Contudo, não há dúvidas de que enfrentamos uma nova condição no léxico das desordens psiquiátricas. Qual nome dar à minha mais completa incapacidade para trabalhar, encontrar amigos, ler literatura e dormir? Meus dedos, ao segurarem o celular, parecem galhos ressecados avançando por um açude de vídeos potáveis e intermitentes. Chega a me dar angústia quando amigos me chamam para comemorar seus filmes na Mostra Internacional de Cinema. Antes, é preciso que exista cinema. Meu namorado quis me beijar de língua ontem, e eu, indignada, quase subi na mesa de jantar, enrolada em uma bandeira, e cantei para ele o "Rap do Silva". Como alguém consegue beijar de língua esta semana? É selinho rápido e olhe lá! Há 20 dias acordo às 4h da manhã pensando em uma possível releitura para aquele mantra neoliberal desgraçado —cheguei em algo como "poste 387 memes enquanto eles dormem". Minha filha trouxe amigos para uma sessão de cinema com pipoca no fim de semana passado. Ficaram entre "Descendentes 2" e "Descendentes 3". Eu não tive dúvidas: meti um "Lula, o Filho do Brasil", dirigido por Fábio Barreto, com Glória Pires irretocável como Dona Lindu. Aguentaram uns 60% do filme; já achei melhor do que uma franquia americana que acompanha a vida dos filhos de heróis e vilões dos contos de fadas. De nepo baby vilão já basta o presidenciável com conexões com a milícia. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Ontem adormeci vendo pela terceira vez o excelente documentário "Entreatos", do João Moreira Salles, sobre os bastidores da campanha presidencial do Lula em 2002. Lá, o então candidato diz que gosta mesmo é de usar terno, e não roupa de operário. Fica aí essa frase para você que só acredita em político que fala com paixão sobre empreendedorismo. A onda de indignação e desespero que avassalou o campo democrático tornou suspenso (e ridículo) qualquer outro problema que não seja pressionar a Meta, a Globo, os jornais e nossos primos a não agirem como fascistas infames. Enquanto isso, tenho quase certeza de que estou há dias com pneumonia, mas não tenho saúde para me preocupar com isso. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Psicose pol�tica ou lucidez feroz?
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