Esta é a edição da Euro Radar, a newsletter da Folha sobre a Europa. Quer recebê-la todas as quintas no seu email? Inscreva-se abaixo: Euro Radar Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris Os números desta quarta-feira (7) dizem por que a França ocupa o centro das atenções nos mercados: o juro do título de dez anos voltou a se aproximar de 4,9%, perto da máxima desde 2002 que havia marcado o início do mês, enquanto o spread sobre o Bund alemão, que na semana passada superou 1,5 ponto percentual pela primeira vez desde a crise do euro, recuou para cerca de 1,4. O Orçamento de 2027, apresentado em 1º de outubro, prevê 43 bilhões de euros em medidas para derrubar o déficit a 5% do PIB (Produto Interno Bruto) depois dos 5,4% deste ano, e começa a ser debatido em plenário na próxima terça (13). Os números não convenceram o mercado. Um problema que não é só francês Esse foco em Paris esconde algo maior: a pressão sobre os juros atinge vários países e tem origem, em boa parte, fora da França. O rendimento do título americano de 30 anos chegou nesta quarta-feira a 5,73%, o maior nível desde 2002, em meio às preocupações com o endividamento público e à persistência de uma economia ainda forte. No Reino Unido, onde o custo do serviço da dívida está entre os mais altos do G7, o papel de 30 anos tocou 6,04%, recorde em 28 anos. A raiz comum é conhecida e precede a crise francesa. A guerra no Irã mantém o petróleo perto de US$ 100 o barril, os bancos centrais subiram juros para conter a inflação e os déficits seguem inchados desde a pandemia. Kristalina Georgieva, diretora-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), aproveitou uma passagem por Singapura nesta semana para pedir contenção de gastos e lembrar que Itália, Portugal e Irlanda, e não só a França, estão especialmente expostos ao movimento. No mercado, a frase que circula é que a França pode ser a bola da vez, mas não será a última. Onde a conta fiscal encontra a política O que distingue Paris é a coincidência entre a conta fiscal e a conta política, que raramente vencem no mesmo dia. Os juros da dívida vão custar ao Estado 74,5 bilhões de euros em 2027, mais do que os 65,5 bilhões reservados à Educação, cujo subfinanciamento é exatamente o que empurra os estudantes às ruas, em protestos que se repetem há dias. O presidente do Banco da França, Emmanuel Moulin, já descartou qualquer socorro do Banco Central Europeu (BCE), enquanto a ultradireitista Marine Le Pen, líder da Reunião Nacional, cobra essa intervenção sem explicar como e o esquerdista Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa, chega a falar em cancelar parte da dívida. Tudo isso a seis meses de uma eleição presidencial em que Emmanuel Macron, impedido pela Constituição de buscar um terceiro mandato seguido, deixará ao sucessor uma herança fiscal pesada e um país já em ebulição. Frase da Semana A guerra na Ucrânia é uma catástrofe de direitos humanos que cresce e se intensifica a cada semana, causando sofrimento inconcebível aos civis e ameaçando um desastre ainda maior em toda a região. O que dizem dois séculos de dívida francesa Enquanto o mercado vende a França, o instituto de pesquisa do Deutsche Bank recua à era napoleônica para dimensionar o tombo. Num estudo assinado por Jim Reid e Henry Allen, o banco calcula que os títulos franceses de dez anos atravessam a pior década de retorno nominal desde 1803. O momento é de estresse: na semana passada, o spread entre os papéis franceses e os alemães de dez anos teve a maior ampliação semanal da série da Bloomberg, que remonta à reunificação alemã, em 1990, e o diferencial chegou ao nível mais alto desde 2012, auge da crise do euro. O próprio relatório ressalva, porém, que esse spread só é alto pelos padrões da era do euro: nos anos 1970 e 1980, as duas curvas chegavam a ficar vários pontos percentuais distantes. O problema de fundo é antigo e estrutural. A França não registra superávit orçamentário desde 1974, e o déficit esteve abaixo de 3% do PIB pela última vez em 2001. Com meio século de déficits persistentes, a dívida bruta chegou a 116% do PIB em 2025 e se aproxima da italiana. É preciso calma nessa hora A conclusão, no entanto, não é de pânico. Pelo modelo dos estrategistas de juros do banco alemão, que pondera o saldo em conta-corrente e o saldo orçamentário, dando mais peso aos anos recentes, os títulos franceses aparecem hoje baratos em relação aos fundamentos. Numa comparação com várias variáveis macroeconômicas, a França surge como o soberano europeu mais barato. Segundo o relatório, boa parte da liquidação dos últimos dias vem do desmonte de operações de carry trade (quando o investidor toma dinheiro emprestado onde os juros são baixos para aplicar onde rendem mais, lucrando com a diferença —uma aposta que azeda quando o mercado fica volátil), montadas na expectativa de um mercado bem menos volátil do que o que se viu. Os autores admitem que o quadro é desafiador e que os gráficos de longo prazo preocupam, mas apontam o componente técnico da venda como parte relevante da explicação. Nervos de aço em Pequim Nesta quinta (8) e sexta (9), o comissário de Comércio da União Europeia (UE), Maroš Šefčovič, visita Pequim para co-presidir a segunda reunião do Conselho de Comércio e Investimento entre os dois lados, num momento em que as tensões comerciais chegam ao ponto mais alto em anos. Ele viaja com um objetivo claro: arrancar da China o compromisso de conter suas exportações e de prorrogar a trégua sobre as terras raras. O respaldo político veio na segunda (5), quando França e Alemanha, as duas maiores economias do bloco, pediram em carta à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, poderes para, no limite, cortar o acesso de terceiros ao mercado único em caso de guerra comercial —sem citar a China, mas tendo Pequim como alvo. A mudança de tom de Berlim, que por anos temeu contrariar seu principal mercado exportador, é o dado político mais relevante, num pano de fundo de desequilíbrio que a própria União trata como quase existencial: o superávit chinês de bens com o bloco ronda 360 bilhões de euros ao ano, e só no segundo trimestre de 2026 o déficit europeu chegou a 103 bilhões. Vontade não é poder Querer, porém, não basta. Num painel do centro de estudos Carnegie Europe, os analistas convergiram num diagnóstico incômodo: a União sempre teve os instrumentos, a começar pelo tamanho do mercado único, mas lhe faltou a credibilidade de usá-los em conjunto, com os 27 países dispostos a repartir o custo de uma eventual retaliação chinesa. E Pequim tem uma carta difícil de responder: controla mais de 90% das terras raras refinadas do mundo, insumo essencial da indústria europeia, e como abrir uma mina ou uma refinaria leva anos, o bloco não teria como substituí-la a tempo de um confronto. O encontro desta semana, nesse sentido, é menos um desfecho do que o primeiro de uma longa sucessão de testes de nervos. No Radar O que monitorar até a próxima quarta-feira (14) 8 e 9 de outubro — China Maros Sefcovic, comissário de Comércio da União Europeia, está em Pequim para a segunda reunião do Conselho de Comércio e Investimento com a China, em busca de compromissos sobre exportações, acesso ao mercado chinês e terras raras. 13 de outubro — Assembleia Nacional, Paris Começa em plenário o exame da primeira parte do Orçamento de 2027, depois da análise de mais de 1.700 emendas na Comissão de Finanças. É o primeiro grande teste político do texto num Parlamento fragmentado, com voto solene sobre o conjunto do projeto previsto para 17 de novembro. 12 a 18 de outubro — Bangcoc - Reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, que reúnem ministros das Finanças, presidentes de bancos centrais e outros dirigentes para discutir a economia mundial, a estabilidade financeira e o crescimento. Fora da Pauta Gustave Fayet. Collectionneur – Créateur, na Fundação Louis Vuitton (Paris, de 9 de outubro a 8 de março de 2027) A Fundação Louis Vuitton resgata uma figura esquecida da arte moderna. Gustave Fayet (1865-1925) foi dos primeiros a colecionar Van Gogh, a expor Picasso e a reunir em casa, aqui em Paris, um "museu Gauguin". A mostra junta, pela primeira vez em um século, mais de 250 obras de sua coleção dispersa —dez Van Gogh, 78 Gauguin, 86 Redon, além de Cézanne e Matisse— e 374 criações do próprio Fayet, ceramista e criador de tapetes.
Protestos atingem Fran�a, mas causa deles est� em toda a Europa
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