No discurso da vitória, Lula celebrou o protagonismo das mulheres. Mais da metade do eleitorado, elas organizaram grupos, convenceram vizinhas e levaram mães e avós para votar. Sabem da importância do SUS, da escola pública e da assistência porque dependem desses serviços —e precisam buscar soluções quando eles falham. Em favelas, quilombos e aldeias, sustentam redes comunitárias, muitas vezes defendendo a vida das próprias forças do Estado. Essa experiência é um saber político. O presidente reeleito afirmou que "as mulheres serão tratadas com muito mais respeito pelas políticas públicas brasileiras". Ótimo, mas isso deveria ser o básico. A promessa de governar para as mulheres precisa vir acompanhada da coragem de governar com as mulheres.As denúncias sobre Daniel Vorcaro expuseram a face misógina do poder, com relatos de festas em que mulheres eram usadas como moeda para comprar acesso e influência junto a autoridades. É essa maneira de exercer poder que precisamos mudar. Queremos paridade de gênero e diversidade nos ministérios, incluindo Fazenda, segurança pública, infraestrutura e articulação política, com mulheres exercendo autoridade sobre recursos e decisões —há muitas preparadas para essas funções, inclusive entre as que não foram eleitas. O Ministério das Mulheres, por sua vez, precisa de orçamento e influência nas decisões das demais pastas. As indicações ao STF são uma oportunidade de ampliar a presença feminina e levar uma mulher negra à corte. Uma reforma política também deve garantir espaço nas direções partidárias, recursos para campanhas e condições para exercer mandatos, enfrentando a violência que afasta as mulheres da política.E a democracia não se esgota nos gabinetes ou no voto. Nas periferias, nas redes de mulheres e nos coletivos, comunidades já inventam soluções para problemas cotidianos, muitas vezes suprindo a ausência do Estado. Essa participação, no entanto, ainda encontra pouco espaço nas decisões públicas. Governar com as mulheres exige fortalecer conselhos, ampliar o orçamento participativo e criar condições para que essas experiências influenciem as políticas de governo.Há também uma barreira que atravessa a vida de milhões de mulheres: o tempo. Entre trabalhar e cuidar dos filhos, da casa e dos pais, participar da política exige um esforço que raramente é cobrado dos homens. A Política Nacional de Cuidados e o Plano Brasil que Cuida são avanços, mas precisam de orçamento e apoio federal a estados e municípios para ampliar creches, escolas em tempo integral e serviços para pessoas idosas e com deficiência. O cuidado é também infraestrutura democrática —e redistribuí-lo amplia as possibilidades de participação das mulheres. Como disse Michelle Bachelet, ex-presidente chilena, "quando uma mulher entra na política, muda a mulher. Quando muitas mulheres entram na política, muda a política". As mulheres já estão mudando o Brasil. Falta a política brasileira reconhecer e dar lugar. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Promessa de governar para as mulheres �, tamb�m, governar com as mulheres
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