Promessa de caneta emagrecedora no SUS esbarra em falta de op��es para obesidade, e governo aciona Anvisa

Promessa de caneta emagrecedora no SUS esbarra em falta de op��es para obesidade, e governo aciona Anvisa

A promessa eleitoral do presidente Lula (PT) de levar ao SUS (Sistema Único de Saúde) o tratamento com canetas emagrecedoras ainda tem como obstáculo a falta de produtos contendo na bula a indicação de controle da obesidade. O mercado das canetas se expandiu em 2026 com a queda da patente da semaglutida, que pertencia à Novo Nordisk e é base do Ozempic e Wegovy, mas as novas drogas registradas neste ano, como as da EMS e da Hypera, são voltadas ao tratamento de diabetes. Os produtos têm sido usados fora da bula em pacientes com obesidade no mercado privado. As mesmas canetas, no entanto, podem ser barradas em uma licitação de medicamentos que exija o registro do produto para o emagrecimento. Apenas a dinamarquesa Novo Nordisk hoje tem a semaglutida registrada para obesidade. A falta de produtos ainda pode restringir a análise de preços do mercado feita pela Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde), órgão que emitirá parecer sobre a entrada ou não das canetas na rede pública. Essas lacunas foram expostas em pedido feito pelo Ministério da Saúde para que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) acelere a análise de registros de produtos para obesidade. O pedido foi aprovado no fim de outubro. Durante o ano, a agência autorizou a venda de 12 novos medicamentos contendo semaglutida, inclusive versões genéricas, que são ao menos 35% mais baratas. Mas todos têm indicação formal para o controle do diabetes. Para ampliar a bula, as empresas precisam apresentar novos estudos para a Anvisa e pedir uma alteração no registro dos produtos. O medicamento voltado para a obesidade exige dosagens maiores, o que torna a fabricação mais complexa. Ao acionar a Anvisa, o ministério disse que ainda é restrito o número de canetas de semaglutida para o controle de peso. A pasta afirmou que o aumento da oferta ganha especial relevância por causa do pedido para incorporar as drogas ao SUS. Em setembro, o presidente Lula transformou a oferta gratuita de canetas no SUS em promessa de campanha. Dias mais tarde, o ministro Alexandre Padilha (PT) pediu para a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde) avaliar a incorporação das canetas para obesidade. O órgão tem prazo de 180 dias, que pode ser prorrogado por mais 90, para apresentar um parecer. No pedido à comissão, o ministério apontou que a expansão do mercado fez os preços das canetas caírem até 70%. O cálculo não foi detalhado, mas inclui produtos que têm indicação apenas para diabetes. Também sem detalhar os valores, Padilha disse à Folha que pretende reservar R$ 1,5 bilhão por ano para fornecer a caneta a "milhões" de pacientes. A conta é vista com ceticismo por integrantes da indústria farmacêutica, pois exigiria altos descontos sobre os valores hoje praticados. A Conitec já rejeitou três vezes a entrada no SUS das canetas nos últimos anos. Em agosto de 2025, a comissão negou o pedido feito pela Novo Nordisk ao apontar que a oferta do Wegovy na rede pública custaria R$ 6,8 bilhões em cinco anos e atenderia algumas dezenas de milhares de pacientes. Ao pedir que a Anvisa acelere o registro de novas canetas, o ministério mencionou justamente que a análise da Conitec toma como referência os preços dos produtos regularizados. Ou seja, a maior oferta de canetas com aval para obesidade poderia favorecer um parecer positivo da comissão. Após o pedido do ministério, a agência decidiu que dará prioridade a todos os processos de registro e de alteração de bula de medicamentos à base de semaglutida que "já tenham tido autorização para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2, e que sejam destinados ao controle de peso" por seis meses. Dentro do processo, a Anvisa ponderou que havia apenas um pedido para registro de semaglutida para a obesidade. A agência também afirmou que a avaliação de nova indicação para a bula é mais simples. "Como os medicamentos a serem priorizados seriam aqueles que já possuem registro e documentação aprovada para a indicação de diabetes, boa parte da documentação referente à qualidade é aproveitada, e a parte de segurança e eficácia pode ser avaliada pela via abreviada, resultando em menor complexidade da análise técnica", apontou a agência. A Novo Nordisk também apresentou à Conitec uma nova proposta de incorporar a semaglutida. A farmacêutica mira público mais restrito: pacientes com obesidade e que já sofreram infarto. Estima que são cerca de 39 mil pessoas, ao custo de R$ 500 milhões a R$ 650 milhões por ano. Padilha afirmou à reportagem, em setembro, que o pleito da Novo pode ficar "superado" com a proposta do governo, que é mais ampla. Ele disse que, no plano do governo, poderiam ser beneficiados os pacientes da atenção primária que participam de programas voltados ao emagrecimento, não apenas em protocolos que são feitos com pacientes mais graves ou em hospitais. As canetas emagrecedoras são medicamentos agonistas de GLP-1, hormônio produzido naturalmente pelo corpo humano que atua no controle dos níveis de glicose no sangue e nos mecanismos de saciedade. São indicadas para tratamento de diabetes e obesidade. As principais marcas no mercado são compostas por semaglutida (Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk, além de marcas nacionais, como Ozivy, da EMS) e tirzepatida (Mounjaro, da Eli Lilly), esta última com atuação também no receptor do hormônio GIP. Há ainda gerações anteriores, como medicamentos contendo liraglutida. Cuide-se Ciência, hábitos e prevenção numa newsletter para a sua saúde e bem-estar

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