Nos sinais de trânsito de Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro, o sinal vermelho era uma oportunidade para vender doces e conseguir algum dinheiro. Para os meninos e meninas que passavam horas entre os carros, porém, a rotina nas ruas também revelava as dificuldades enfrentadas por suas famílias. Ao se aproximarem desses adolescentes, profissionais da rede municipal de saúde descobriram que muitas mães não conseguiam trabalhar fora de casa e enfrentavam dificuldades até para comprar alimentos. A tentativa de oferecer uma alternativa a essas mulheres deu origem ao Mães de Renda, projeto que reúne oficinas de produção artesanal de sabão e uma rede de apoio para famílias em situação de vulnerabilidade social. A iniciativa começou a tomar forma em 2022, a partir do trabalho de profissionais do CAPSi II (Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil) Pequeno Hans, que passaram a conversar com adolescentes que vendiam doces nos semáforos da região. Alguns desconfiavam da abordagem, por medo de serem encaminhados a instituições de acolhimento. Outros pediram que a equipe procurasse suas mães. As visitas domiciliares revelaram dificuldades que iam além do trabalho dos filhos nas ruas. Entre as profissionais envolvidas estavam Vânia Maria do Nascimento Sena, 63, então agente territorial do CAPSi, e Mariana Alves de Oliveira, 43, agente comunitária de saúde da Clínica da Família Padre John Cribbin. "Uma das mães reclamava que não tinha dinheiro para o pão, que não tinha dinheiro para a passagem", diz Vânia. Gestora ambiental e fundadora da ONG Lata Doida, Vânia já produzia sabão a partir de óleo de cozinha usado e levou a atividade para o grupo. Mariana conseguiu autorização para que os encontros fossem realizados na clínica, em Realengo. Criado no segundo semestre de 2022, o Mães de Renda passou a reunir mulheres quinzenalmente para produzir sabão, sabonetes de glicerina e outros produtos artesanais. Hoje aposentada do serviço público, Vânia continua participando das oficinas. Segundo ela, duas participantes passaram a fabricar sabão de forma independente. Para outras, a atividade representa uma economia nas despesas de casa ou a possibilidade de ganhos ocasionais. Parte da produção é distribuída entre as mulheres, enquanto as vendas coletivas ajudam a comprar materiais para os encontros. Mas a iniciativa também se tornou um espaço de convivência e acolhimento para mulheres que dedicam boa parte do tempo aos cuidados dos filhos. "Tem muita gente dentro da comunidade que não se sente visto", afirma Mariana. Para ela, a possibilidade de encontrar outras mulheres e compartilhar experiências faz diferença na rotina das participantes. Uma das mães que encontraram apoio no projeto foi Aira Morais da Silva Sousa, 48, moradora de Realengo e mãe de seis filhos. Ela deixou de trabalhar fora de casa para se dedicar aos cuidados da família, especialmente de uma das crianças, que é autista. Um de seus filhos, Mateus, começou a vender doces nos sinais com a irmã mais velha. Ele tinha 13 anos e permaneceu cerca de quatro meses na atividade, até ser abordado por agentes da prefeitura. O adolescente deixou as ruas após o episódio e passou a ser acompanhado pelo CAPSi. Encaminhado para uma formação profissional na Petrobras, concluiu o curso no ano passado. Hoje, aos 18 anos, está no Exército e continua estudando, segundo a mãe. A irmã Aline Maria, 27, começou a vender doces aos 17 e ainda depende da atividade para obter renda, embora esteja temporariamente afastada. Aira diz que já tentou convencê-la a procurar um emprego formal. "Ela fala: ‘Não, acho tão bom trabalhar ali, eu ganho meu dinheirinho ali, ninguém manda em mim’", conta. Aira também passou a frequentar as oficinas, onde aprendeu a produzir sabão e encontrou outras mulheres com quem dividir as dificuldades do cotidiano. Ela leva óleo usado para os encontros, utiliza os produtos em casa e, quando possível, também vende. "O sabão é maravilhoso. Quem compra pede mais, porque é muito bom", conta. A trajetória dos irmãos expõe um dos desafios enfrentados pelo projeto: oferecer oportunidades que possam substituir o dinheiro obtido nas ruas, muitas vezes necessário para despesas imediatas da família. O trabalho com os adolescentes ocorre em paralelo. Além do acolhimento no CAPSi, a equipe articula encaminhamentos para programas de aprendizagem profissional. Um levantamento apresentado pelo projeto em 2025 registra três aprovações em programa de Jovem Aprendiz e redução de 18 para 10 horas na média diária de exposição às ruas entre adolescentes acompanhados. Os dados não permitem atribuir o resultado exclusivamente às oficinas, que integram uma rede mais ampla de atendimento. Mariana afirma que a falta de vagas escolares e a dificuldade de conciliar os estudos com a necessidade de dinheiro continuam entre os principais obstáculos. "Tem uns que vão para a escola e, depois do horário, vão para o sinal. Agora, tem uns que ficam tão envolvidos no sinal que, às vezes, para voltar para a escola fica difícil", relata. O Mães de Renda também passou a acolher mulheres cujos filhos não trabalham nas ruas. É o caso de Jaqueline Regiane de Oliveira, 45, mãe de dois meninos, de 8 e 9 anos. Uma das primeiras participantes, ela conheceu as oficinas por intermédio das agentes comunitárias. Anos depois, conseguiu uma vaga na limpeza da própria Clínica da Família, onde trabalha há quase dois anos. Jaqueline aprendeu a fazer sabonetes de glicerina e passou a levar ingredientes encontrados perto de casa, como capim-limão e erva-doce. Hoje, participa dos encontros sempre que consegue conciliar os horários com o emprego. "Não é só pelo lado financeiro. Claro, aprender é sempre bom. Amanhã ou depois posso usar", diz. "É terapêutico, é bom você rir, você brinca, você aprende."
Projeto apoia m�es para enfrentar trabalho infantil nos sinais do Rio
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