A poucos dias do primeiro domingo (8) do Enem, a redação, etapa mais temida da prova, costuma funcionar como fiel da balança na disputa por uma vaga. A nota da produção textual é o maior peso individual da avaliação no Sisu, e uma boa pontuação pode fazer a diferença para o estudante chegar ao curso desejado. A Folha ouviu professores de cursinhos para entender o que, na avaliação deles, pode levar uma redação a alcançar a nota máxima no Enem. Para mostrar os caminhos possíveis, os educadores analisaram produções próprias e explicaram os elementos que consideram decisivos para a construção de um texto de alto desempenho. Eles tiveram liberdade para escolher entre uma possível aposta para esta edição ou um tema já cobrado pelo exame. Uma nota na casa dos 900 pontos, combinada a um bom desempenho nas questões objetivas, já pode colocar o estudante na disputa por uma série de cursos. Ainda assim, a cada edição, milhares de candidatos perseguem a pontuação máxima como uma espécie de prêmio pelo esforço de preparação para a prova. Por isso, no universo dos vestibulares, a nota mil da redação do Enem ganhou status de símbolo de excelência. Para chegar aos mil pontos, o candidato precisa obter a pontuação máxima nas cinco competências avaliadas na redação. Cada uma delas contempla um aspecto específico da produção textual. A primeira competência diz respeito ao domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa. Entram nessa avaliação aspectos como ortografia, acentuação, concordância, regência, crase, pontuação e escolha vocabular. Na segunda, os corretores analisam se o candidato compreendeu a proposta e desenvolveu o tema dentro da estrutura dissertativo-argumentativa. Também entra nessa etapa o repertório sociocultural mobilizado pelo estudante, que precisa ser pertinente ao tema e contribuir para a construção da argumentação. A terceira competência avalia a organização das ideias e o projeto de texto. O candidato deve selecionar, relacionar e interpretar informações, fatos e argumentos de maneira coerente para sustentar a tese apresentada. A quarta trata da coesão, ou seja, da maneira como as diferentes partes do texto são articuladas. São considerados recursos como conectivos, operadores argumentativos e mecanismos de referenciação usados para estabelecer relações entre períodos e parágrafos. A quinta competência avalia a proposta de intervenção apresentada pelo candidato para enfrentar o problema discutido no texto. Para alcançar a pontuação máxima, a proposta precisa estar relacionada ao tema e articulada à argumentação desenvolvida ao longo da redação. A correção é feita de forma independente por dois avaliadores. Cada um atribui de 0 a 200 pontos para cada uma das cinco competências, e a nota final corresponde à média das pontuações dos dois corretores. Quando há discrepância superior a 100 pontos na nota final ou diferença maior que 80 pontos em uma das competências, a redação passa por uma terceira correção. Se a divergência persistir, o texto é encaminhado para uma banca formada por três avaliadores. A seguir, veja as redações analisadas pelos professores e os caminhos apontados por eles para chegar à nota máxima Confira as redações Sousa Nunes, professor do Grupo Educacional Farias Brito Tema: A importância da democratização do acesso à leitura no Brasil Antônio Cândido, autor de "Formação da Literatura Brasileira", reconhece quão importante é o ato de ler para a constituição da cidadania, a ponto de estabelecer a literatura como direito humano. No entanto, no Brasil, essa prerrogativa ainda não é desfrutada de forma plena pelos cidadãos brasileiros, sobretudo pelos mais vulneráveis socioeconomicamente. Em face disso, é justo e necessário buscar meios para que essa minoria tenha o acesso à leitura, a fim de que alcance tanto a igualdade de oportunidades culturais quanto a autonomia intelectual. Assim, ampliar o acesso aos livros e fortalecer a formação de leitores é crucial para a construção de uma sociedade mais justa e participativa. De início, cumpre salientar que a democratização do acesso aos livros é fundamental para se promover a igualdade cultural e social no país. A necessidade dessa medida pode ser compreendida à luz da obra "A distinção: crítica social do julgamento", do sociólogo Pierre Bourdieu, segundo a qual a apropriação dos bens culturais está relacionada às condições de aquisição do chamado capital cultural, que no Brasil é distribuído desigualmente entre os grupos sociais. Para ampliar esse capital, faz-se preciso que se invista em bibliotecas públicas, em acervos escolares e em projetos comunitários de leitura, sobretudo em espaços historicamente privados de equipamentos culturais. Nesse sentido, a disponibilização de obras literárias diversificadas, seja por meios digitais, como se faz pela plataforma MEC Livros, amplia as possibilidades de participação na vida intelectual e reduz a influência da renda familiar sobre o acesso ao conhecimento. Tais ações devem ser orientadas para que diferentes sujeitos possam reconhecer-se como participantes legítimos da cultura escrita. Logo, expandir territorialmente os espaços de leitura é indispensável para transformar uma prerrogativa socialmente concentrada em oportunidade efetivamente compartilhada. Além disso, destaque-se a relevância da democratização da leitura como via decisiva para o desenvolvimento da autonomia intelectual e da consciência crítica. É nesse sentido que avulta o pensamento de Paulo Freire, segundo o qual a leitura do mundo precede a leitura da palavra, isto é, o aprendizado da leitura não deve afastar-se da realidade dos indivíduos, mas fundar-se em suas experiências concretas. Nesse aspecto, devem-se valorizar atividades educativas nas quais professores e mediadores estimulem a interpretação, o diálogo e a liberdade de escolha, visando a que a leitura ultrapasse os limites da obrigação escolar, tornando-se prática para a compreensão crítica do mundo. Ilustra bem essa ideia a trajetória de Carolina Maria de Jesus, autora de "Quarto de despejo", para quem o ato de ler funciona como potência emancipadora, uma vez que sua escrita converteu a experiência da exclusão em testemunho literário e reflexão social. Por meio dessa prática leitora, que aproxima os livros da realidade dos estudantes, enriquecem-se seus repertórios e amplia-se sua bagagem cultural. Por conseguinte, é relevante investir na mediação continuada do ato de ler em favor da formação de sujeitos capazes de interpretar criticamente a realidade em seu derredor e participar conscientemente da vida coletiva. Portanto, fazer do acesso à leitura uma realidade democrática revela-se indispensável para se promover a igualdade cultural e a formação de cidadãos autônomos no Brasil. Para tanto, o Ministério da Educação, em articulação com prefeituras, deve ampliar e modernizar bibliotecas públicas, especialmente em regiões carentes, mediante financiamento permanente, diversificação dos acervos e implantação de unidades itinerantes, com o fim de universalizar as oportunidades de acesso aos livros e a leitura efetiva. Ademais, o Ministério da Cultura, em parceria com universidades e redes escolares, deve instituir programas continuados de formação de mediadores, por meio de oficinas docentes, clubes de leitura e encontros literários, com atenção às particularidades culturais de cada comunidade, para consolidar hábitos leitores e estimular o pensamento crítico. Desse modo, a prerrogativa defendida pelo autor de "Formação da Literatura Brasileira" conseguirá materializar-se em toda a sociedade brasileira, de modo que a leitura seja, simultaneamente, expressão de dignidade humana e instrumento de participação democrática. EXPLICAÇÃO A redação nota 1.000 sobre a democratização da leitura no Brasil defende que ampliar o acesso aos livros e formar leitores são os caminhos para reduzir a desigualdade cultural, segundo o professor Sousa Nunes. Os dois eixos aparecem na introdução e são desenvolvidos, um em cada parágrafo, até a conclusão. De acordo com o professor, o texto abre com Antônio Cândido, para quem a literatura é um direito humano. No primeiro desenvolvimento, recorre ao conceito de capital cultural, do sociólogo Pierre Bourdieu, para explicar por que o acesso aos livros varia entre os grupos sociais, e defende bibliotecas e projetos de leitura nas regiões mais vulneráveis. No segundo, mobiliza Paulo Freire e Carolina Maria de Jesus para tratar da leitura como ferramenta de autonomia e reflexão crítica. Na conclusão, o candidato propõe que o Ministério da Educação amplie e modernize as bibliotecas e que o Ministério da Cultura crie programas de formação de mediadores de leitura. Para Nunes, cada referência e cada proposta se liga ao problema discutido, o que garante a nota máxima. Sidinéia Azevedo, professora de redação do Bernoulli Educação Tema: Desafios para o uso ético da inteligência artificial no ambiente escolar No romance distópico "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, a tecnologia é empregada de maneira desmedida para condicionar o pensamento humano e substituir a autonomia crítica pelo automatismo técnico. Fora da ficção, a rápida inserção de ferramentas de inteligência artificial no ambiente pedagógico aproxima-se desse alerta de alienação, uma vez que o uso sem diretrizes éticas compromete o verdadeiro aprendizado e a integridade acadêmica, o que se revela como desafios para o uso ético da inteligência artificial no ambiente escolar. Nesse cenário, essa problemática se consolida devido tanto à omissão do Estado na regulamentação e na capacitação digital das redes de ensino quanto à passividade das instituições escolares em orientar os estudantes sobre o uso consciente dessas tecnologias. Desse modo, torna-se imperativo analisar a inércia administrativa e a atitude omissa das escolas para garantir uma integração tecnológica responsável na educação. Diante desse contexto, cumpre pontuar que o Estado falha quando não estabelece diretrizes claras e não oferece capacitação técnica para o uso da inteligência artificial nas salas de aula. Essa lacuna, que é resultado de um descaso crônico do poder público, reflete o conceito de "fratura da cidadania", formulado pelo sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, para quem o cidadão tem a escolarização assegurada pela lei, porém, quando o Estado não oferece uma formação digital plena, priva os indivíduos do exercício consciente de seus direitos no espaço escolar, o que se concretiza quando os profissionais de educação não recebem o suporte necessário para lidar de forma segura com as novas tecnologias. Como resultado dessa irresponsabilidade, professores sentem-se desamparados para avaliar a autoria dos trabalhos e para combater maus usos, como o plágio automatizado e a dependência cognitiva. Torna-se evidente, assim, que a ineficácia do poder público perpetua a vulnerabilidade do sistema de ensino ao deixar o ecossistema educacional sem balizas éticas consolidadas. Ademais, é preciso destacar a postura passiva das instituições escolares frente à capacitação de educadores com o propósito de gerenciar situações que envolvem uso antiético de tecnologia. Essa negligência pedagógica decorre do alinhamento da gestão ao imediatismo contemporâneo, o que dialoga com a teoria da "modernidade líquida", de Zygmunt Bauman, segundo a qual a busca por facilidades e soluções rápidas sobrepõe-se ao compromisso com processos reflexivos e consistentes de aprendizagem. Consequentemente, os alunos utilizam a inteligência artificial para terceirizar o raciocínio e burlar tarefas, sem compreender os limites da integridade acadêmica como proposto pelo teórico. É o que se observa quando estudantes empregam geradores de texto para cumprir prazos de redações e pesquisas sem realizar qualquer checagem de fatos ou reflexão autoral. Logo, é preocupante como a inércia da gestão escolar contribui diretamente para a formação de indivíduos dependentes do automatismo tecnológico e desprovidos de senso crítico. Infere-se, portanto, a necessidade de medidas efetivas para mitigar os obstáculos ao uso ético da inteligência artificial na educação. Com esse propósito, o Ministério da Educação, em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, deve criar o "Guia Nacional de Ética e IA na Educação" por meio da elaboração de diretrizes pedagógicas e ofertar cursos de formação continuada para educadores sobre mediação digital e checagem de dados. Paralelamente, as instituições escolares, como escolas e faculdades, por meio da intervenção de seus conselhos pedagógicos, devem reformular os Projetos Político-Pedagógicos (PPPs) com a intenção de incluir oficinas práticas de letramento algorítmico e avaliações que valorizem o processo reflexivo do aluno a fim de empregar a IA honestamente. Com essas ações, o Brasil poderá distanciar-se do cenário de alienação alertado por Huxley e consolidar a tecnologia como meio de emancipação intelectual. EXPLICAÇÃO A redação sobre os desafios para o uso ético da inteligência artificial no ambiente escolar atende ao tema de forma completa, segundo a professora Sidinéia Azevedo. De acordo com ela, o texto não trata apenas da IA na educação, mas das dificuldades para usá-la com ética. A introdução já apresenta a tese e antecipa os dois eixos do desenvolvimento: a omissão do Estado e a passividade das instituições de ensino. Para a professora, a escolha de "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, funciona como repertório por estabelecer relação direta com o uso da tecnologia e com a perda de autonomia. Nos dois parágrafos de desenvolvimento, cada argumento parte de uma ideia central e avança com relações de causa e consequência. As referências a Boaventura de Sousa Santos e Zygmunt Bauman, afirma, são relacionadas aos argumentos e aprofundadas, em vez de aparecerem como citações soltas. Sidinéia avalia ainda que a organização do texto contribui para a progressão das ideias, com conectivos variados entre períodos e parágrafos. Na conclusão, a proposta retoma os dois problemas apontados na tese e indica agentes, ações e meios para enfrentá-los. Tema: "Desafios para o combate ao vício em jogos de azar no Brasil" Na obra "O Jogador", do escritor russo Fiódor Dostoiévski, a narrativa explora a ruína psicológica e a ruína financeira do protagonista Aleksei Ivánovitch, tragado pela dependência compulsiva da roleta nos cassinos. Fora da ficção, a conjuntura brasileira contemporânea espelha o drama da literatura ao evidenciar graves desafios para o combate ao vício em jogos de azar no Brasil. Nesse cenário, a proliferação incontrolável de plataformas digitais de apostas submete a população a um círculo silencioso de destruição patrimonial e mental, agravado tanto pela omissão estatal na fiscalização dessas ferramentas virtuais quanto pela fragilidade econômica, que acelera o endividamento familiar. Dessa forma, torna-se premente analisar esses entraves a fim de conter o avanço do transtorno do jogo no país. Diante desse contexto, fica evidente que a incipiente atuação governamental no controle das apostas virtuais perpetua a vulnerabilidade da população diante dessa atividade. Essa preocupante realidade é resultado da ausência de uma fiscalização contínua e rigorosa sobre as plataformas operantes no país, que decorre do desinteresse histórico do Poder Público em priorizar a proteção coletiva frente ao crescimento acelerado desse mercado sedutor e perigoso. Sobre isso, o filósofo Thomas Hobbes, em sua obra "Leviatã", pondera que o Estado deve assegurar a proteção dos cidadãos — premissa violada no Brasil quando a falta de regulação expõe a sociedade a práticas abusivas, à dependência financeira e a quadros intensos de ansiedade. A falha das autoridades públicas no ordenamento dos jogos, o que contraria o proposto por Hobbes, é materializada a partir dos dados alarmantes revelados pelo Ministério da Saúde de que mais de um milhão de brasileiros são vítimas de ludopatia, vício em apostas. Dessa forma, a ineficiência do aparato governamental faz com que ele não assuma o seu papel de resguardar a integridade social e de conter o avanço desenfreado desse cenário. Ademais, a utilização dos jogos de azar como uma promessa ilusória de ascensão financeira evidencia as mazelas da desigualdade socioeconômica no país. Essa dinâmica ocorre porque a escassez de recursos e a perda do poder de compra levam parcelas vulneráveis da população a enxergar nas apostas uma alternativa rápida de complementação orçamentária. Entretanto, essa busca desesperada ignora que o sistema de apostas é estruturado para perpetuar a concentração de renda, transformando a vulnerabilidade dos apostadores em lucro certo para as plataformas e para bancas de apostas. Sob essa ótica, o conceito de "falsa consciência", formulado por Karl Marx, para quem as ideias dominantes em uma sociedade capitalista mascaram as relações reais de exploração e dominação, reflete como os indivíduos acometidos pela dificuldade econômica assimilam percepções distorcidas da realidade que mascaram a exploração de suas próprias necessidades financeiras ao comprometer o orçamento com apostas. Assim, enquanto o vício for encarado como um atalho econômico pelas classes menos favorecidas, a fragilidade social continuará a ser instrumentalizada em benefício da indústria do jogo. Fica evidente, portanto, que prejuízo financeiro e sofrimento emocional, agravados pela ausência de regulamentação estatal desses ambientes digitais e pela vulnerabilidade financeira, precisam ser combatidos. Para tanto, medidas são essenciais a fim de mitigar os impactos nocivos dos jogos de azar no tecido social brasileiro. Logo, cabe ao Ministério da Fazenda, em parceria com o Ministério da Saúde — órgãos responsáveis pela regulação econômica e pelo bem-estar público no país —, intensificar a fiscalização e a regulamentação sobre as plataformas de apostas virtuais. Essa medida deve ser realizada mediante a imposição de limites diários para apostas por CPF e a criação de um cadastro nacional de bloqueio voluntário e compulsório para apostadores em situação de ludopatia. Com isso, objetiva-se conter o ciclo de endividamento familiar e proteger a integridade financeira e mental dos cidadãos, garantindo que o Estado cumpra o papel de proteção social defendido por Hobbes, superando a vulnerabilidade explorada no mercado financeiro atual. EXPLICAÇÃO A redação desenvolve o tema de maneira completa ao discutir os desafios para combater o vício em jogos de azar, e não apenas o crescimento das apostas, de acordo com a professora. Desde a introdução, afirma Azevedo, o texto apresenta os principais responsáveis e consequências do problema e indica o caminho da argumentação. Segundo a docente, o repertório de "O Jogador", de Fiódor Dostoiévski, é ligado diretamente ao tema ao traçar um paralelo entre a dependência retratada na obra e o cenário brasileiro. Nos parágrafos seguintes, os argumentos são organizados a partir de ideias centrais e desenvolvidos com causa e consequência. Thomas Hobbes e Karl Marx não ficam isolados, diz ela, pois são explicados e usados para aprofundar a discussão sobre a responsabilidade do Estado e a vulnerabilidade econômica dos apostadores. A professora ainda mostra a progressão entre as ideias e o uso de mecanismos de coesão variados. Na conclusão, a proposta retoma os problemas discutidos e apresenta medidas específicas, com agentes e meios de execução, o que, para ela, deixa a intervenção articulada à argumentação. Professores do cursinho Redação Nota 1000 Tema: Desafios para combater o apagão de professores no Brasil Em janeiro de 2025, o governo federal lançou um programa chamado Pé-de-Meia Licenciaturas, no âmbito do Programa Mais Professores para o Brasil, cujo objetivo é fomentar o interesse de jovens estudantes em cursos presenciais de licenciatura. A medida tem como pano de fundo a iminência de um possível apagão de professores no país, o que poderá prejudicar tanto a oferta como a qualidade do ensino. Nesse cenário, apesar de os educadores serem considerados o fator intraescolar de maior impacto na aprendizagem, conforme aponta uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, a desvalorização da carreira docente e a falta de reconhecimento social da profissão escancaram um problema estrutural na educação brasileira. Em primeira análise, no Brasil, há uma explícita desvalorização da carreira docente, a qual se materializa, na prática, por baixos salários em comparação à remuneração de outros cargos de ensino superior, condições de trabalho inadequadas, com cargas horárias elevadas, e sobrecarga, pela extensão do trabalho para o ambiente doméstico. Em "A Pedagogia da Autonomia", Paulo Freire defendia que o professor precisa produzir reflexão crítica contínua sobre a sua prática, uma vez que a sua importância no processo educativo é inegável. Todavia, a realidade do exercício de ensino, em que o professor, por vezes, precisa dobrar a sua quantidade de horas trabalhadas, ficando sem tempo de qualidade para viver e para realizar um efetivo planejamento de aulas, expõe uma contradição em relação ao que defendia o autor. Logo, vê-se que, embora a atuação docente seja relevante, tal constatação não é suficiente para garantir o reconhecimento concreto da profissão. Em segunda análise, a falta de valorização social desse ofício acarreta um desinteresse pelo magistério. Na realidade brasileira atual, além de haver menor procura entre os jovens pelos cursos de licenciatura por falta de perspectiva de crescimento profissional, tem sido possível observar também uma dificuldade de permanência de quem trabalha nesse setor. Acerca disso, sabe-se que há, no imaginário popular, a romantização da profissão, segundo a qual o professor leciona por amor e vocação, tal como se vê na trajetória de John Keating em "A Sociedade dos Poetas Mortos". No entanto, esse discurso é instrumentalizado economicamente por gestores, para desviar o necessário debate sobre o direito profissional para o campo do dever moral, impedindo que políticas públicas efetivas sejam implementadas em prol da melhoria das condições de trabalho, tão necessária para a formação e retenção de novos educadores. Portanto, essas problemáticas são significativas e, se não avaliadas, agravarão um cenário já preocupante no país. Diante disso, cabe ao Ministério da Educação, em parceria com estados e municípios, ampliar as políticas de valorização docente, por meio do estabelecimento de planos de carreira, que incluam remuneração justa e competitiva em relação às demais profissões, formação continuada e ações de prevenção à sobrecarga profissional. Com a aplicação de tais medidas, será possível tornar essa carreira mais atrativa, garantindo não somente a permanência dos professores na área como também propiciando que eles atuem de maneira consciente e motivada, tal como defendia Paulo Freire. Com isso, as perspectivas negativas que permeiam a escolha e a atuação dos profissionais poderão ser gradualmente mitigadas, permitindo que se vislumbre um Brasil cuja população reconhece o poder transformador da educação. EXPLICAÇÃO O texto nota 1.000 sobre os desafios para combater o apagão de professores no Brasil defende que a desvalorização da carreira docente e a falta de reconhecimento social da profissão formam um problema estrutural da educação, segundo os professores. Como ponto de partida, a redação usa o programa Pé-de-Meia Licenciaturas, lançado pelo governo federal em janeiro de 2025. De acordo com os docentes, o texto atinge a pontuação máxima por reunir três repertórios legítimos e de áreas diferentes, todos ligados ao tema: o educador Paulo Freire, o professor John Keating, do filme "Sociedade dos Poetas Mortos", e o programa do governo. Ele destaca também o projeto de texto claro, em que o prometido na introdução é desenvolvido até o fim, e o uso de conectivos variados entre parágrafos e períodos. Segundo os professores, a proposta de intervenção traz os cinco elementos exigidos pela prova: agente, ação, meio, finalidade e detalhamento. Daniela Toffoli, professora de Redação do Curso Anglo e Colégio Anglo São Paulo Tema (Enem 2025): "Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira". Na animação infantil "UP: Altas Aventuras", é retratada a condição solitária de um idoso aposentado que, ao perder a esposa, encontra-se deprimido e sem nenhuma atividade para realizar. Nesse contexto, no Brasil, a exclusão dos idosos é evidente por causa da escassez de políticas públicas relacionadas à saúde e ao lazer, vulnerabilizando-os física e psicologicamente. Assim, a criação de centros de convivência para idosos e a consolidação do acesso igualitário à saúde representam perspectivas com o objetivo de tornar o envelhecimento na sociedade brasileira digno e humanizado. Efetivamente, é necessário analisar como a criação de centros de convivência contribuirá para a pavimentação de um envelhecimento inclusivo no Brasil. Nesse viés, a filósofa francesa Simone de Beauvoir, na obra A Velhice, explica que os idosos encontram-se em uma fase da vida que exige cuidado e acolhimento; porém, a sociedade, marcada pela lógica de produção capitalista, marginaliza esses indivíduos por não visualizar mais nenhum potencial produtivo em suas vidas. Nessa conjuntura, seguindo os legados de Beauvoir, integrar os idosos, socialmente, em uma comunidade coletiva, é crucial para reverter tal marginalização, uma vez que o contato com outras pessoas da mesma faixa etária e a realização de atividades em grupo ajudaria esses cidadãos a manter uma rotina ativa com uma ampla rede de apoio, o que cessaria o sentimento de exclusão social. Logo, é fundamental que o governo brasileiro promova a criação de centros de convivência para idosos em toda a nação. Ademais, é importante compreender como o acesso igualitário ao sistema de saúde é capaz de promover um envelhecimento digno aos cidadãos brasileiros. Sob essa óptica, o filósofo Michel Foucault argumenta que aqueles que detêm o conhecimento da medicina e o controle de hospitais também controlam os corpos dos indivíduos, determinando aqueles que vão viver e aqueles que vão morrer. Nesse sentido, ao privar pessoas idosas e pobres a um serviço de saúde de qualidade, o Estado comprova a teoria de Foucault e impossibilita a inclusão plena desses indivíduos à sociedade, visto que um direito constitucional inalienável é negado a essa parcela da população. Destarte, a criação de políticas públicas para garantir o acesso igualitário ao sistema de saúde brasileiro é essencial à população idosa. Portanto, é imprescindível que medidas cabíveis sejam efetuadas para que as perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade sejam positivas. Para tanto, o Ministério da Saúde — órgão responsável por fiscalizar e promover políticas públicas relacionadas à saúde — deve ampliar os atendimentos à população idosa, por meio de investimentos em hospitais públicos e capacitação de médicos e enfermeiros, a fim de garantir um acesso inclusivo. Outrossim, o Ministério da Cidadania deve promover a criação de novos centros de convivência para idosos, mediante parcerias público-privadas. Dessa forma, os idosos não serão excluídos, e o envelhecimento no Brasil será digno e humanizado. EXPLICAÇÃO Uma das redações de destaque do Enem 2025, sobre as "perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira", chama a atenção pelo planejamento, segundo a professora Toffoli. Reunido na Cartilha do Participante do Inep, o texto defende que os idosos são excluídos pela falta de políticas públicas de saúde e lazer e que a saída passa por centros de convivência e por acesso igualitário à saúde. De acordo com a professora, o texto usa três repertórios de áreas diferentes, todos explicados e aplicados ao problema: a animação "Up – Altas Aventuras", a filósofa Simone de Beauvoir e o filósofo Michel Foucault. Ela afirma que a tese e os dois argumentos são anunciados já na introdução, desenvolvidos um por parágrafo e retomados na conclusão, que repete a expressão "digno e humanizado" para fechar o texto. A conclusão traz duas propostas, uma para cada problema discutido: o Ministério da Saúde deve aumentar o atendimento aos idosos, com investimento em hospitais públicos e capacitação de profissionais, e o Ministério da Cidadania deve criar centros de convivência por meio de parcerias público-privadas. Segundo a professora, essa correspondência evita lacunas argumentativas, já que nenhum problema levantado fica sem solução.
Professores mostram o que faz uma reda��o do Enem chegar � nota mil; veja exemplos
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