Quando ouviu de mentores do Sudeste que "professora não tem habilidades para gerenciar negócios" e que seu projeto não duraria três meses, a cearense Emanuelly de Oliveira Longo, a Manú, reagiu com a resiliência que os sertanejos aprendem a sobreviver no semiárido. "Tive a audácia de ir contra a opinião de quem achava que podia me rotular", recorda ela. Dez anos depois, a professora de 39 anos, mestre em Administração pela Universidade Federal do Ceará (UFC), não só provou que a profecia estava errada como construiu um método de inclusão produtiva voltado para a gestão de novos negócios. A Social Brasilis, negócio de impacto social fundado por ela em 2015, completou uma década como uma das principais pontes entre a população invisibilizada e a Indústria 4.0. A edutech já formou mais de 60 mil pessoas em 11 cidades de oito estados — do sertão cearense às comunidades quilombolas do Vale do Jequitinhonha (MG) e à Amazônia. E tem consagrado a trajetória de Manú, marcada pela ruptura de destinos pré-traçados. Mulher parda de traços indígenas, criada em Quixadá (CE), ela é neta de uma empregada doméstica analfabeta. Em uma família na qual a avó teve 13 filhos e mais de 20 netos, Manú foi a única a alcançar o ensino superior público e ostentar um título de pós-graduação. "Venho de uma realidade em que a resiliência é um imperativo de sobrevivência. O sertanejo nasce empreendendo soluções para desafios históricos, como a seca", diz. "Cresci sem ver pessoas como eu em altos patamares. O conceito de empreendedorismo era utópico para mim, a imagem do empreendedor nunca parecia comigo." Seu bioma emocional permanece fincado na caatinga. "Minha simbologia é a flor do mandacaru, aquela que se abre para anunciar as chuvas no sertão. Ela diz muito sobre o trabalho que eu faço." A fagulha do empreendedorismo social aconteceu cedo na vida de Manú. Aos 13 anos, integrou o programa Geração Muda Mundo, da Ashoka Brasil. Sem computador em casa, corria às lan houses de Quixadá para digitar seu plano de ação. Por um erro no orçamento, enviou uma proposta de R$ 495 em vez dos R$ 1.495 permitidos. Convocada a defender o projeto diante de uma banca em Fortaleza —em sua primeira viagem à capital—, foi desafiada sobre como erguer uma cooperativa de mulheres com menos de um terço do recurso. Manú comprometeu-se a captar os R$ 1.000 restantes no comércio local. Nascia o Brasilis, cooperativa que usava sementes nativas do semiárido para confeccionar biobijuterias. A iniciativa resgatava a autoestima de mulheres rurais e desmistificava o estigma da caatinga como terra morta. O projeto rendeu a Manú sua primeira viagem internacional: desembarcou em Boston para o summit da Ashoka Global, em 2008. Anos mais tarde, já graduada em Letras, o destino a colocou na sala de aula da Educação de Jovens e Adultos (EJA) do CEJA Monsenhor Hélio Campos, no bairro Cristo Redentor —a maior favela do Ceará. Deparar-se com turmas compostas por pessoas com analfabetismo total e funcional em meio ao discurso ufanista da revolução tecnológica produziu nela um choque de realidade. "Falava-se em inteligência artificial e inovação, mas a educação profissional estava estagnada há décadas. Questionava para quem seria essa nova economia se continuássemos excluindo a base? Se não qualificarmos essa massa, a automação vai varrer os postos operacionais e aprofundar o abismo social", avalia. Foi ali que nasceu uma releitura madura da experiência da adolescência de Manú. Ela brinca que o Social Brasilis começou com "zerocentos reais", sem capital de giro e longe do ecossistema de financiamento concentrado no Sudeste. Manú mostrou de novo os a resiliência sertaneja com os recursos disponíveis: produziu panfletos com fanzines xerocados de colagens manuais e desenhou o logotipo num programa simples de computador. Para viabilizar a gratuidade na ponta, desenhou um modelo B2B. A Social Brasilis financia suas operações vendendo programas de qualificação e impacto socioambiental para multinacionais como a ArcelorMittal Pecém. A edutech capacita moradores do entorno das fábricas para vagas formais e para a cadeia de fornecedores. A arquitetura pedagógica da Social Brasilis se fundamenta na aprendizagem significativa do método de Paulo Freire e na educação popular. "A pessoa só aprende o técnico se compreender a partir da sua visão de mundo. Fazemos um diagnóstico prévio do território para conectar a tecnologia e a educação financeira ao cotidiano do aluno em seu contexto", explica. Diante do baixo letramento digital, desenvolveu o Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) Babi, uma plataforma leve, sem estrangeirismos e com interface de rede social, combinada a pílulas de aprendizado via WhatsApp. No programa Juventudes STEAM, instala laboratórios de robótica em áreas isoladas. No Vale do Jequitinhonha (MG), são 13 unidades em comunidades rurais e quilombolas para conter o êxodo jovem. "A gente precisa ensinar essa população a gerir seus próprios negócios e o seu dinheiro, a comprar com seus vizinhos e fomentar uma transformação em seu território", afirma, diante do próprio poder multiplicador. "Peguei minha trajetória de mulher sertaneja, periférica e de poucos recursos, vinda de uma família desestruturada e que encontrou na educação uma ferramenta de transformação e apliquei em várias Manús que existem por aí", explica. "É uma transformação sistêmica em que um inspira o outro." A transformação ganha rostos como o de Cristiane Oliveira, mãe solo e ex-aluna da EJA no Cristo Redentor. Sem saber calcular porcentagens, Cris aprendeu com Manú a transformar um caderno velho em livro-caixa para precificar seus doces. Hoje, administra um portfólio digital e vende para empresas. Manú conta que boa parte do público atendido pela Social Brasilis é formado por mulheres "pobres, que são mães sem rede de apoio, periféricas e de favelas e sem perspectiva de inclusão no mercado formal de trabalho". Para quem começou ouvindo que não duraria três meses, o horizonte agora é a escala global, com projetos voltados a imigrantes e refugiados. "Se eu consegui criar um empreendimento social do zero a partir da maior favela do Ceará, qualquer mulher periférica também pode. A maior inspiração é ver a transformação acontecendo de baixo para cima." Social Brasilis em Números 60 mil pessoas capacitadas e impactadas em todo o Brasil ao longo de dez anos de atuação 320 ideias de negócios criadas em projetos desenvolvidos e acelerados no Nordeste 11 cidades tiveram formações em 2025, e 13 unidades de robótica criadas em áreas rurais 68% dos alunos registraram aumento direto de renda após os treinamentos da Social Brasilis
Professora cria edutech para levar ind�stria 4.0 ao sert�o e � periferia
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