Procura-se lateral; � preciso ser b�pede

Procura-se lateral; � preciso ser b�pede

Se você, querido leitor, querida leitora, tem o sonho de ver o filho com a camisa da seleção brasileira em uma Copa do Mundo, anime-se. Esse sonho pode ser mais realizável do que você imaginava. "Ah, mas ele não joga tão bem assim", você pode estar pensando. Isso não é mais um problema, não seja tão exigente com o jovem (ou seja, siga o rigor do mister Carlo Ancelotti). Em primeiro lugar, ele precisa estar agora com 15, 16 anos, no máximo. Assim, chegará a tenra idade de 19, 20 primaveras para a Copa de 2030 —sim, já estamos pensando no próximo Mundial, a carência é grave. Mas o caminho não é tão simples. Se ele for um ótimo atacante, veloz, driblador, finalizar com as duas pernas, unir a habilidade de Garrincha com o arranque de Usain Bolt, não serve. Não queremos mais atacantes. Temos muitos. Sim, ele teria um ótimo salário, carreira na Europa e titularidade garantida no Sunderland, mas não iria para a Copa. No entanto, se ele se dispuser a jogar de lateral, aí, sim, a Copa está muito, muito próxima. Se quiser ser lateral-direito, então, pode mandar fazer o passaporte. "Ah, mas ele é canhoto." Não tem problema. Estamos vivendo sob a maldição dos laterais —a do direito é mais assustadora. É uma cobrança divina (dos deuses do futebol) após anos e anos com os melhores laterais do mundo pululando em terras brasilis. Tivemos em 1994 Jorginho, passamos para Cafu, Daniel Alves e terminamos em Danilo —o lateral de 2022, não o de 2026, valha-me, Senhor. Do lado esquerdo, então, era um deboche: Branco, Leonardo, Roberto Carlos, Roberto Carlos, Roberto Carlos, Júnior e Marcelo. Dava até vontade de rir quando víamos os laterais dos outros amiguinhos. Mas a graça acabou. Poderíamos inclusive retroceder mais no tempo, mas isso só aumentaria o desespero. Na Copa de 2026, Ancelotti (que não foi demitido por justa causa até a conclusão desta coluna) convocou Wesley, o moço que era cornetado no Flamengo. E quando Wesley, o cornetado, machucou-se, ele colocou no lugar um volante que praticamente não usou. É como se ele tivesse escolhido ficar com um convocado a menos. Para o dito novo ciclo, Ancelotti (ainda empregado neste parágrafo) colocou de titular Matheuzinho, que não é nem o melhor Matheus do Corinthians. E contra a Austrália, Matheuzinho não brilhou. Ninguém brilhou. Mas os outros têm um salvo-conduto com Ancelotti (ainda empregado) que a posição de lateral não tem. Onde estão os olheiros da CBF? Cadê aquele lateral desconhecido que já deu sete assistências no Campeonato Búlgaro? Ou o filho de pai finlandês e mãe brasileira que tem atuado nas seleções de base do país nórdico apenas por mágoa?O fato é que, se o cheiroso Matheuzinho chegou à seleção (e lançou linha de perfume), é um belo sinal de que qualquer um pode chegar lá. "Ah, mas o meu filho prefere jogar squash e disputar a Olimpíada." Tem futebol na Olimpíada também. Para entrar no radar da seleção, ele só precisa ser bípede; depois, ter o chamado pulmão de atleta. Coordenação para tocar a bola é supervalorizada, Cafu nunca aprendeu a cruzar direito. E é preciso repartir a culpa com os principais times do país, responsáveis por deixar Ancelotti (que não foi chamado pelo RH da CBF até o momento) na mão. Quem é o lateral-direito do líder Flamengo? O uruguaio Guillermo Varela. E do vice-líder Palmeiras? O argentino Agustin Giay. Por essas e outras, Ancelotti foi atrás do lateral do 14º colocado. O lateral-direito da Copa de 2030 pode estar na sua casa, querido leitor, querida leitora. Acorda ele. E na próxima coluna, não perca: procura-se goleiro. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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