A reunião do Comitê de Política Monetária desta quarta-feira (4) ocorre sob condições ainda mais difíceis que as usuais, geralmente nada simples. Além de incertezas econômicas, o colegiado, composto pela cúpula do Banco Central, está sob forte pressão do governo Luiz Inácio Lula da Silva e do PT. De um lado, a deterioração recente e aguda das expectativas para a inflação e para variáveis que pesam na formação de preços —como a cotação do dólar— recomenda cautela e permanência dos juros em 13,75% ao ano. De outro, a atividade econômica segue em desaceleração, com risco de piora com as incertezas atuais, o que mantém viva a possibilidade de mais um corte de 0,25 ponto percentual. A reeleição de Lula para um quarto mandato foi acompanhada de correções violentas dos mercados: disparada do dólar, elevação dos juros futuros e desabamento das ações. Na pesquisa semanal do BC realizada na sexta-feira (30), a mediana das projeções para o IPCA de 2027 subiu de 4,34% para 4,76%, e para o de 2028, de 3,75% para 4%; da mesma forma, espera-se uma taxa Selic mais elevada no final deste ano (13,5%) e do próximo (12,5%), e dólar a R$ 5,34 em dezembro, em vez de R$ 5,05. Pode-se até achar que o movimento dos investidores foi apressado, mas petistas e interlocutores próximos ao presidente não contribuem ao tratar a necessidade de ajuste nas contas públicas como cobrança indevida. Além disso, reaparecem no debate propostas de atalhos miraculosos para a queda dos juros e nomes heterodoxos para o BC. A ideia de reduzir a Selic na canetada e utilizar as reservas em dólar do BC para conter a depreciação cambial resultante tem sido o exemplo mais recorrente. Reservas constituem seguro externo, não recurso de liquidez permanente. Utilizá-las para sustentar uma política monetária expansionista em meio a um grave desequilíbrio fiscal seria fazer o governo retornar à histórica posição de devedor internacional que tantos danos impôs ao país. Até o momento, Lula não endossou publicamente as teses mais temerárias. Mas tampouco sinalizou que vai desautorizar apelos por uma guinada populista na política monetária. O mesmo vale para as contas públicas —não parece haver pressa do mandatário para a definição do próximo ministro da Fazenda. Diante desse quadro, a postura mais conservadora seria o Copom manter os juros na reunião. Mesmo que o comitê opte por um último corte de 0,25 ponto, o comunicado possivelmente deixará indicada uma pausa à frente. O caminho sustentável para juros menores continua a ser o compromisso com a estabilização da dívida pública. Se o governo sinalizar com clareza essa direção, o espaço para o abrandamento monetário se restabelecerá com rapidez. O oposto —tolerar mais inflação— transferirá o custo para a população, sobretudo a de menor renda. editoriais@grupofolha.com.br
Pressionado, BC tomar� decis�o dif�cil sobre juros
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