Depois de cerca de um ano de discussão, o governo prepara a regulamentação do Redata, o regime especial de tributação criado para atrair investimentos em data centers. A lei foi sancionada em 15 de setembro (Lei 15.504/2026), mas a definição do que conta como energia de "baixa emissão" ficou para regulamentação posterior. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha A indústria de data centers é talvez o principal vetor de crescimento do consumo de eletricidade e alimenta aspirações de retomada da demanda. No mundo, esse consumo deve mais que dobrar, de 415 TWh em 2024 para 945 TWh em 2030 —mais do que Alemanha e França consomem juntas hoje. No Brasil, o MME (Ministério de Minas e Energia) já contabiliza 38 GW em pedidos de conexão, cerca de um sexto de toda a capacidade instalada do país. Criar regras adequadas é a diferença entre abocanhar uma boa fatia desses investimentos e perdê-los para a região. Pessoas e empresas querem essas tecnologias e seus benefícios, dos ganhos de produtividade às tarefas cotidianas. É uma tendência irreversível: alguém prefere voltar a usar o Google sem IA? Mas, ao redor do mundo, os data centers já revivem o Nimby —not in my backyard, ou "no meu quintal, não". As motivações da recusa são duas. A primeira é a discussão sobre quem paga a conta de uma expansão acelerada do sistema, com exigências elevadas de confiabilidade. A segunda vem das comunidades, que sentem a pressão sobre recursos como água e terra. O Fórum Econômico Mundial registra que 43% dos data centers do mundo já operam em regiões com estresse hídrico, e que a oposição local travou ou cancelou dezenas de bilhões de dólares em projetos nos EUA e na Europa nos últimos dois anos. Nos Estados Unidos, onde tarifas para grandes cargas são muitas vezes negociadas bilateralmente, o receio de custos socializados se justifica. Aqui, com regulação federal, a transparência existe. Mas essas preocupações não precisam se traduzir em recusa ao investimento. Ao contrário: podem subsidiar uma adaptação acelerada da regulação. Com os incentivos certos, os investidores podem adaptar projetos para que essas megacargas passem de problema a solução. Há dois vetores dessa transformação: como a entrada dos data centers afeta o sistema elétrico e como eles se relacionam com os demais sistemas a que se conectam —água, minerais e terra. No sistema elétrico, o projeto pode transformar essas cargas em instrumentos de flexibilidade. Relatório recente do Nicholas Institute, da Universidade Duke, soma-se a análises anteriores ao modelar os investimentos em geração nos EUA na próxima década. Basta que os data centers possam modular a carga em cerca de 1% das horas do ano —as de pico— para reduzir em 10% a 15% a necessidade de novas térmicas a gás de ciclo combinado. Com mais flexibilidade, a economia para o sistema vai de US$ 40 bilhões a US$ 150 bilhões em uma década, a nova capacidade se desloca para as renováveis, e a tarifa cai para todos os consumidores, não só para os data centers. É uma forma moderna de resposta da demanda, componente essencial dos recursos energéticos distribuídos que estão na base da descentralização do setor elétrico. No Brasil, o ganho pode ser ainda maior, porque o problema é o inverso: sobra energia renovável no meio do dia. Segundo o ONS (Observador Nacional do Sistema Elétrico), se entrarem em operação todas as usinas eólicas e solares que já assinaram contrato de uso da transmissão, os cortes de geração podem superar, em média, 10% da produção eólica e 20% da solar até 2029, concentrados entre 9h e 16h. Um data center flexível, que desloque carga para essas horas, aproveita essa energia e permite adiar investimentos em geração e em rede. No nexo com os demais recursos, o relatório do Fórum Econômico Mundial mostra como adaptar projetos para dar resiliência e escala a uma indústria que é bem-vinda. O ponto central é que energia, água, minerais e terra formam um sistema só: otimizar um recurso isoladamente costuma transferir o problema para outro. O consumo de água dos data centers no mundo deve chegar a 450 milhões de galões por dia em 2030 —as necessidades diárias de cerca de 5 milhões de pessoas. A receita do Fórum: instalar-se dentro dos limites hídricos e sociais do local, perto de energia limpa, com resfriamento em circuito fechado e métricas que meçam o impacto no sistema, e não só a eficiência do prédio. Os incentivos certos dependem de flexibilidade na própria regulação. O regulador tem poder para estabelecer regras que identifiquem e incentivem os investimentos que queremos — a pergunta não é se pode, mas como. O próprio ONS recomenda regular o acesso de grandes consumidores com regras semelhantes às dos geradores, justamente para que novas cargas ajudem a reduzir esses cortes. De modo concreto, podemos recorrer ao conceito de best in class: dar preferência na fila de conexão a quem adapta o projeto para ajudar a transição, prestando serviços de flexibilidade, instalando-se onde sobra energia limpa e respeitando os limites de água. A portaria que vai definir "baixa emissão" no Redata é a oportunidade de começar. Em vez de apenas acomodar uma nova megacarga, podemos usar a regulação para atrair primeiro quem ajuda a resolver os problemas que sua própria chegada cria. Best in class. Alguém duvida? LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Preocupa��es com data centers n�o precisam se traduzir em recusa ao investimento
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