A Prefeitura de Bauru, no interior de São Paulo, tem usado policiais para tirar pessoas em situação de rua que moravam em vagões de trens inativos na região central da cidade. A justificativa, segundo o município, foi a de que esses espaços servem de esconderijo e depósito de fios e metais furtados nas imediações. "Vamos insistir na nossa política de ajudar quem precisa, mas também garantir a segurança com o apoio das forças públicas", disse em julho a prefeita Suéllen Rosim (PSD) em seu Instagram. Ela costuma acompanhar as ações pessoalmente. "Quem não tem ficha limpa vai ter que se enquadrar. Furta na região central e vem se esconder aqui [nos vagões]". No vídeo para as redes, a prefeita disse que é preciso separar pessoas em situação de vulnerabilidade de quem comete crimes —como tráfico de drogas, furtos e roubos. "Viver em vagões improvisados não é uma opção." A operção teve a participação das polícias Civil e Militar e já foi realizada duas vezes, em 27 de julho e 13 de agosto. Novas ações ainda podem acontecer. No primeiro dia, de 43 pessoas abordadas, 20 foram levadas ao Centro Pop (espaço para acolhimento a moradores em situação de rua), 4 para casas de passagem e 5 para o Caps (Centro de Atenção Psicossocial). Outras 8 retornaram aos seus municípios de origem com passagens oferecidas pela prefeitura e 2 foram encaminhadas para o pronto-socorro. Já na operação de agosto, de 13 abordados, 2 foram levados para o Centro Pop, 2 voltaram para suas cidades e outros 2 receberam atendimento em unidades de saúde. Vereadores da oposição criticaram a ação. "É típico de uma gestão que trata o morador em situação de rua como criminoso", diz Estela Almagro (PT). Ela definiu a ação como "assepsia social" e "higienista". O vereador José Roberto Martins Segalla (União Brasil) disse que "não pode ser apenas uma ação isolada para render vídeo nas redes sociais" e que "Bauru precisa de trabalho social permanente e fiscalização dos receptadores de material furtado". Questionada sobre as críticas dos vereadores, a prefeitura não se manifestou. Vice-presidente da Câmara de Vereadores e integrante da base da prefeita, Cabo Helinho (PL) considera a operação "um sucesso". "Exatamente por ter continuidade, não ser isolada", justifica. "E por atuar em diferentes frentes como segurança, parte social e zeladoria". Segundo a prefeitura, na ação de julho, 67 lonas instaladas por desconhecidos foram retiradas de vagões que vinham sendo ocupados. A Defensoria Pública do Estado de São Paulo, por meio da unidade de Bauru, diz que "caso sejam identificadas situações de violação de direitos ou circunstâncias que demandem sua intervenção, avaliará, no âmbito de suas atribuições, a adoção das medidas extrajudiciais ou judiciais que se mostrarem necessárias". Na tarde do dia 19 de agosto, a reportagem esteve nas imediações dos vagões inativos. Viu algumas pessoas andando no local e atirando pedras. "Para algumas ações nós fomos convidados, mas para essas especificamente, não", diz o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) em Bauru, Thiago Tezani. "Normalmente a gente participa através da nossa Comissão de Direitos Humanos e Segurança Pública, mas não estávamos lá". Procurada, a Secretaria de Segurança Pública estadual não respondeu sobre a participação das polícias Civil e Militar nas operações. A Rumo, empresa responsável pelos vagões do trecho, começou no início do mês a desmontagem de cerca de 300 vagões para limpar a área, conforme acordo com a prefeitura. O trabalho deve ir até o fim do ano. "Após o desmonte, os materiais são transformados em sucata metálica e encaminhados para reaproveitamento em diferentes aplicações", diz a empresa por nota. A prefeita acompanhou ação de desmontagem. "Vão acabar os esconderijos de bandidos que usavam os vagões abandonados de trem para se esconder", disse ela na ocasião. Ações com foco nas pessoas em situação de rua já ocorreram em outras cidades brasileiras. Em Florianópolis (SC), o prefeito Topázio Neto (PSD) publicou um vídeo em suas redes sociais no qual afirma que a cidade não quer ser "depósito de pessoas em situação de rua" e que um posto do município instalado na rodoviária "já devolveu mais de 500 pessoas" para suas cidades de origem em 2025. Em Sorocaba (SP), a gestão Rodrigo Manga, chegou a anunciar a criação de barreiras humanitárias para impedir que usuários de drogas que viviam na capital paulista migrem para lá.
Prefeitura usa policiais para remover moradores de rua de vag�es abandonados em Bauru (SP)
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