Prefeitura de SP inicia demoli��o do Cruz da Esperan�a, na zona norte, ap�s batalha judicial

Prefeitura de SP inicia demoli��o do Cruz da Esperan�a, na zona norte, ap�s batalha judicial

Após quatro meses de disputa judicial, a Prefeitura de São Paulo iniciou nesta quarta-feira (29) a demolição do Espaço Cruz da Esperança, na Casa Verde, zona norte da capital. O imóvel, fundado em 1958 e conhecido por reunir samba, futebol de várzea, capoeira e manifestações de religiões de matriz africana, ocupava uma área destinada ao futuro parque Campo de Marte. Enquanto equipes retiravam móveis, instrumentos musicais, imagens religiosas e outros pertences da comunidade, máquinas começaram a demolir as primeiras estruturas do espaço. "Não temos noção do que vamos fazer. Estamos aqui perdendo. Perdemos o nosso espaço e não paramos para pensar no que vai ser", afirmou Fábio Henrique Januário de Almeida, um dos idealizadores da roda de samba e duas vezes presidente do Cruz da Esperança. A operação foi acompanhada por frequentadores, apoiadores e parlamentares. A vereadora Luna Zarattini (PT) classificou a ação como um ataque ao patrimônio cultural da cidade e afirmou que a Defensoria Pública da União determinou que a Prefeitura de São Paulo e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) dialogassem sobre o reconhecimento do Cruz da Esperança como patrimônio histórico e cultural. "Está ocorrendo agora a reintegração de posse do espaço Cruz da Esperança, e o que nos foi informado é que haverá também uma demolição. Estamos aqui nessa luta, nessa resistência, para mostrar que esse é mais um ataque à cultura, ao povo negro e às nossas expressões culturais", afirmou. A reportagem questionou a prefeitura por email sobre o assunto nesta quarta-feira, mas não obteve resposta até o horário de publicação desta reportagem. A disputa entre a prefeitura e o Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança começou em março, quando a 9ª Vara da Fazenda Pública determinou a reintegração de posse de uma área de quase 15 mil metros quadrados ocupada pela entidade no Campo de Marte. A administração municipal argumentou que a permanência do clube inviabilizava a implantação do futuro parque Campo de Marte, criado em 2024 para ampliar a oferta de lazer, esporte e convivência em uma região densamente urbanizada. Na ocasião, a Justiça entendeu que a ocupação era irregular e que a entidade não possuía direito sobre o terreno, determinando a desocupação imediata. Após recurso do Cruz da Esperança, o juiz Bruno Santos Montenegro reconsiderou parcialmente a decisão, revogou a demolição imediata e concedeu prazo de 60 dias para a saída da associação. O grêmio sustentou que não se tratava de uma invasão recente, mas de uma ocupação iniciada em 1958, com apoio da comunidade local. A gestão Ricardo Nunes (MDB), porém, recorreu. Em decisão publicada em maio, o Tribunal de Justiça de São Paulo voltou a determinar o cumprimento imediato da reintegração de posse, autorizando inclusive o uso de força policial, se necessário. Campos de várzea O Cruz da Esperança é o segundo espaço atingido pelo projeto do parque Campo de Marte. Em março deste ano, a prefeitura cumpriu a reintegração de posse da sede do Aliança da Casa Verde, um dos seis campos de futebol de várzea localizados na área prevista para o futuro parque municipal. Em 2025, a administração municipal afirmou que a concessionária vencedora da licitação para implantação do parque exigia o terreno "livre e desimpedido" e notificou a associação dos clubes do Campo de Marte para que as sedes fossem desocupadas, classificando as ocupações como irregulares. Diante da possibilidade de judicialização, foi negociada uma solução segundo a qual os clubes deixariam temporariamente as sedes, o terreno seria entregue à concessionária e, em até duas semanas, eles poderiam retornar ao local, permanecendo ali até a entrega dos novos campos, prevista para ocorrer em até 18 meses. Quatro dos cinco clubes aceitaram o acordo: Pitangueira, Baruel, Sade e Paulista. O Aliança da Casa Verde, que ocupava o local desde 2002 e não integrava a associação dos clubes nem possuía vínculo com a antiga proprietária da área, a Aeronáutica, foi o primeiro a ser removido. Na ocasião, a prefeitura afirmou que havia atividades comerciais irregulares e uma moradia na sede. Após a demolição, Soraya Marks, que vivia no imóvel havia cerca de 20 anos, passou a receber auxílio-aluguel de R$ 400. Na semana passada, ao anunciar a data prevista para a demolição, os organizadores afirmaram que a mobilização não foi suficiente para impedir a perda do espaço. "Infelizmente, nossa luta não foi suficiente para sensibilizar o prefeito Ricardo Nunes (MDB) juntamente com a concessionária, que não deu a devida importância à preservação da nossa história, da nossa cultura e da relevância do Cruz da Esperança para a comunidade", publicou o grupo nas redes sociais.

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