Na porta de cada moradia, adesivos com números de setor, lote e domicílio foram afixados nas duas ocupações que estão na avenida Rio Branco há 15 anos. A sinalização foi feita pela Prefeitura de São Paulo em outubro, durante processo de cadastramento de cerca de 135 famílias, de acordo com estimativa de movimentos de moradia. Dias depois, na terça-feira (20), a gestão Ricardo Nunes (MDB) publicou edital de contratação de obra que transformará esses espaços na praça "Esplanada do Rock". Os demais imóveis incluídos no projeto foram recentemente demolidos, nas imediações da rua do Boticário, do largo do Paissandu e da avenida Rio Branco, na região central. Moradores ouvidos pela reportagem manifestaram, contudo, temor de encaminhamento para apartamentos distantes do centro ou pagamento de auxílio-aluguel (de R$ 400) por tempo indefinido. Além disso, os movimentos responsáveis pelas ocupações relataram não ter sido informados sobre o projeto para o local. Desse modo, souberam que será uma praça por meio do contato da Folha. Em nota, a Secretaria Municipal de Habitação respondeu que realiza o cadastramento e a identificação dos residentes na área e que, somente após a conclusão desse procedimento, será possível indicar o total de famílias. O atendimento será primeiramente por meio de auxílio-aluguel, com posterior destinação para moradia. Por sua vez, a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento e a São Paulo Urbanismo disseram que a nova praça será complementar ao largo do Paissandu, ampliando as áreas verdes e os espaços de lazer e convivência. Também indicaram que o local estará na confluência das duas linhas de VLE (Veículo Leve Elétrico) planejadas para o entorno, que incluirão mais intervenções urbanísticas. A licitação é voltada à elaboração do projeto final e à execução da obra, com resultado em 16 de novembro e contrato de 18 meses. O custo estimado é de R$ 9,5 milhões. O nome inicialmente indicado para o espaço era "praça do Boticário", em referência à rua vizinha. Em nota, a prefeitura afirmou que a nova denominação é um reconhecimento à identidade cultural da Galeria do Rock, localizada nas proximidades. Disse, contudo, que não é definitiva. O projeto preliminar foi elaborado com o aditamento do contrato da prefeitura de desenvolvimento de estudos para as linhas de veículo leve (Bonde São Paulo) para o centro. A mudança foi oficializada em abril, com acréscimo de R$ 216,5 mil. A justificativa técnica apresentada pela SP Urbanismo —empresa municipal responsável pela proposta— é que a esplanada exercerá papel estratégico para a redistribuição de passageiros do VLE. Desse modo, atenderá à demanda por locais de passagem e permanência. Outro ponto destacado os imóveis pertencem à prefeitura, com desapropriações anteriores. A gestão também afirma que a praça contribuirá para melhorias no microclima, na arborização e na drenagem do entorno, assim como poderá receber atividades culturais de pequeno porte. Além disso, a SP Urbanismo diz que o largo do Paissandu tem configuração especial e função de conexão entre fluxos. Desse modo, apresentaria "poucas condições adequadas de permanência". O projeto da esplanada abrange cerca de 5.200 m², o qual inclui intervenções em vias e calçadas. A parte da praça em si terá 2.292 m², com jardins, parquinho infantil, iluminação cênica e fontes. Como comparação, o largo tem 8.500 m². A mudança inclui, ainda, a transformação da rua do Boticário em via compartilhada, a fim de priorizar o tráfego de pedestres e "acalmar" o de veículos. Essa área é alvo há anos de projetos municipais nunca executados. A gestão Nunes fez consulta pública em 2022 e reuniões para erguer um prédio para estudantes, por exemplo, como parte da PPP (Parceria Público-Privada) Núcleo Paiçandu Cultural. Antes disso, a gestão Gilberto Kassab (PSD) pretendia implantar um circo-escola na mesma área. Decisão judicial que determinou a continuidade das famílias nas ocupações impediu a obra. Movimentos defendem prédio popular em vez de praça As ocupações abrangem três imóveis de cerca de três pavimentos na Rio Branco, dos quais dois funcionavam anteriormente como hotel e outro era o do antigo Cine América (ou Cine Arizona). Hoje, os espaços pertencem à prefeitura após desapropriações. Na prática, as construções são divididas em Ocupação Rio Branco 47 —ligada ao MSTC (Movimento Sem-Teto do Centro) —e Ocupação Rio Branco 53, do MMCR (Movimento de Moradia Central e Regional). Fundadora do MSTC, Carmen Silva considerou um "absurdo" o projeto da praça. Ela defende a construção de prédio habitacional com 600 unidades no local. Também está preocupada a coordenadora da Rio Branco 53, Jomarina Fonseca, 69. Ela considera desnecessária uma praça tão próxima do largo —em vez de aprimorá-lo— e defende a saída das famílias diretamente para moradia definitiva, sem passar pelo auxílio-aluguel. Na ocupação, as famílias se dividem entre antigos quartos do hotel e moradias de um cômodo construídas na laje. Como os espaços são pequenos, parte dos moradores precisa compartilhar banheiros e secae as roupas em varais nos corredores, entre outras adaptações. Há a cobrança de contribuição mensal de R$ 250, além do custo de energia. Entre os mais antigos, está a aposentada Maria Benedita Oliveira, 72, a dona Benê. Ela vive em um antigo pequeno quarto de hotel, com cama de solteiro, armário, geladeira, mesa e outros pertences comprados ao longo de quase 15 anos. "A gente fica preocupada, não tem como", diz sobre a provável saída. Outra das residentes é a estudante Gabriela Queiroz, 24. Para ela, morar no centro trouxe oportunidades, como o cursinho pré-vestibular para si e as atividades extracurriculares para a filha, que faz balé, judô e capoeira. "Na comunidade, eu não conseguiria." Por outro lado, Gabriela considera que mesmo uma ocupação organizada não é um local ideal para se viver, seja pelo tamanho diminuto das habitações para uma mãe com criança, seja pela incerteza da permanência. "Não gostaria de ir para longe, aqui tem a nossa vida." Para a aposentada Zenilda Farias Costa, 65, há um convívio de comunidade com os vizinhos, mais do que no espaço alugado que deixou há 15 anos no extremo norte da cidade. "Querendo ou não, aqui construí minha história."
Prefeitura de SP faz demoli��es e vai esvaziar ocupa��es para obra de 'Esplanada do Rock' no centro
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