De forma inédita, a defesa nacional virou uma prioridade, ao menos no papel, da campanha à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na terça (25), Dia do Soldado, Lula falou sobre o tema em público pela quinta vez em apenas dois meses. O petista argumenta, com razão, que o mundo é um lugar mais perigoso com a proliferação de guerras em torno de recursos naturais e a presença de "malucos" —epíteto direcionado ao americano Donald Trump e suas ofensivas militares, inclusive na vizinhança. O que Lula não diz é como dar ao Brasil capacidade dissuasória mínima, algo que ele só arranhou em quase 12 anos no Planalto. A Estratégia Nacional de Defesa é um documento vazio. Estabelecer prioridades ante o cenário geopolítico atual, considerando a revolução em curso com drones e automação, é algo que não pode esperar a revisão quadrienal do diploma em 2028. A definição de programas sob o Ministério da Defesa, na prática, é uma competição entre os desejos de cada Força. Feita essa arrumação, resta enfrentar a estrutura da despesa militar. Como a Folha mostrou, dos R$ 133,3 bilhões gastos no ano passado, em valores corrigidos, 77,7% foram na área de pessoal. Outros 14% ficaram em custeio, e 8,25%, em investimentos. Um dos raros programas com ritmo de execução razoável, o de novas fragatas, deriva de uma gambiarra orçamentária em 2018. Em 2025, o governo articulou no Congresso Nacional a aprovação de manobra análoga, idealizada pela pasta da Defesa, prevendo R$ 30 bilhões para projetos em seis anos fora dos limites fiscais. Apesar de Lula propagandear o drible, de resto nefasto para o Tesouro, o dinheiro ainda não saiu. O padrão do gasto é semelhante ao de países da região, mas distante da realidade global. Nos EUA, que separam da conta os encargos com veteranos, os investimentos batem os 20% preconizados pela aliança militar Otan. O Brasil não precisa alcançar esse patamar. Mas poderia espelhar os americanos na profissionalização, pagando melhor para menos militares, por exemplo. O governo deve ter coragem para enfrentar o corporativismo e reformar a previdência das Forças, dado que 40% da despesa militar com pessoal é com inativos. Lula até propôs idade mínima de 55 anos para a aposentadoria, mas o projeto dormita no Congresso. Hoje os fardados deixam a ativa com 48 anos em média, um acinte mesmo consideradas as características da carreira. Sem enfrentar privilégios, não haverá dinheiro que baste. editoriais@grupofolha.com.br
� preciso dar um norte ao gasto militar do Brasil
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