No próximo domingo (25), faremos uma escolha entre dois modos de pensar o futuro, a vida e o investimento. Uma psicanalista falando de economia e ajuste fiscal? Pode parecer estranho, mas desde Freud sabemos que dinheiro é, antes de tudo, um símbolo: carrega imaginários e atrai todo tipo de impulso. É quase um objeto mágico. Em primeiro lugar, dinheiro é segurança. Garante o presente: casa, comida, saúde, um conforto mínimo. E garante o futuro: poupança, família, aposentadoria, qualquer rede que nos ampare. Aqui já começa o debate, porque nem todos concordam sobre o que é o básico e, portanto, quais direitos devem ser financiados pelo grupo, isto é, pelo Estado. Quanto ao futuro, há quem tenha guardado o bastante para muitas voltas ao redor do Sol e ainda assim não se sinta seguro. Isso, aliás, pediria menos acúmulo e mais psicanálise. Em segundo lugar, dinheiro é amor. Todo filho, de pais juntos ou separados, conhece o jogo de trocar presentes por presença, cuidado ou atenção. Às vezes não conseguimos dar nada disso e depositamos um valor na conta. Às vezes recebemos tudo isso, mas o que se queria mesmo era dinheiro. O que dar e receber significa varia para cada um, e só um mergulho honesto mostra como o circuito libidinal do dinheiro funciona numa pessoa, numa família ou numa empresa. Em terceiro lugar, dinheiro é status. Vivemos tempos narcísicos: como precisamos ser algo para o olhar do outro, nos cobrimos de objetos que dizem quem somos. Em certos meios, vale a marca enorme e visível; em outros, o código cifrado que só a própria tribo decifra. Status é sempre relacional, e uma disputa: se o outro também tem, perde a graça; se tem mais, é desgraça. No fundo, buscamos subir numa hierarquia imaginária para obter mais segurança, mais amor e, curiosamente, mais dinheiro. E o ciclo se retroalimenta. Parece infantil querer dinheiro para se sentir amado, seguro e admirado? Parece e é. Desde o século 19, quando os valores imateriais perderam força e passamos a louvar fetiches materiais, fazemos qualquer coisa por dinheiro. É até título de filme e mantra de influenciador. Sim, dinheiro drena muita libido. Aos poucos, vamos relativizando a canônica moral do velho mandamento "Não roubarás" e tolerando pequenos desvios pelo cheiro bom do dinheiro. Fechávamos os olhos porque aquele comércio meio escuso comprou um palacete. Hoje o crime se profissionalizou e se globalizou: lava-se dinheiro onde der, pelo sistema financeiro formal e por rotas offshore. Já existem índices para rastrear esses fluxos, como o Financial Secrecy Index, que mede quanto sigilo cada país oferece ao dinheiro do mundo. E algo vem mudando: sigilo para negócios potencialmente escusos não é coisa só de ilha pequena. No ranking mais recente, os primeiros lugares estão nos maiores centros financeiros. Regras, fiscalização e rastreabilidade seriam a parte do Estado que nos protege do crime, mais ou menos organizado. Seriam ferramentas em declínio? Perdemos a vergonha —e a culpa— como operações básicas do recalque social. E parece que estamos dobrando a aposta. É nesta direção mesmo que queremos ir? Além disso, falar de dívida, juros e ajuste fiscal não é um debate técnico. É o cerne da política moderna capitalista: como arrecadar dinheiro de quem; como distribuir dinheiro a quem. Para dimensionar: o Estado paga perto de R$ 1 trilhão por ano em juros da dívida e deixa de arrecadar mais de R$ 600 bilhões em benefícios fiscais. Somados, são valores muito maiores que os R$ 300 bilhões pagos em benefícios sociais, aí incluídos os R$ 158 bilhões do Bolsa Família. Uma eleição é também a escolha de um modelo moral –o que pode e o que não pode– além de um modelo de gestão de forças –quem ganha, quem perde. Então, com quem você acha melhor ficar a chave do cofre? Tente pensar um pouco a longo prazo. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Pra quem dar a chave do cofre?
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