Poucos conhecem a vis�o po�tica da escrita de Jay-Z, diz o produtor Rick Rubin

Poucos conhecem a vis�o po�tica da escrita de Jay-Z, diz o produtor Rick Rubin

Quem conhece o produtor musical Rick Rubin pelo trabalho em discos de Red Hot Chili Peppers, Johnny Cash, System of a Down, Slayer e The Strokes, entre centenas de nomes importantes do rock, pop, rap e country, certamente se surpreendeu com sua habilidade como entrevistador na minissérie "McCartney 3, 2, 1!", disponível no Disney+, em que ele conversa com o ex-Beatle sobre sua carreira e preferências musicais. Rubin, 63, parece ter gostado da brincadeira e agora volta à carga com outra exploração sobre o trabalho de um nome importante da música pop: "Jay-Z em 8", série em oito episódios, na Mubi, em que Rubin entrevista o rapper Jay-Z sobre sua vida e carreira. "As pessoas pensam em Jay-Z como um grande homem de negócios ou como um bilionário, mas poucos conhecem a profundidade e visão poética da escrita dele", afirma Rubin à reportagem, por email. Rodada em preto e branco, a série esmiúça toda a carreira musical de Jay-Z, que comenta e explica as motivações por trás de suas canções mais famosas, detalha amizades e trabalhos com artistas como Tupac, Biggie Smalls e outros, e revela como a sua vida inspirou letras como "Meet the Parents", "What More Can I Say" e "Brooklyn's Finest". Jay-Z conta ainda, por exemplo, que se arrepende de ter escolhido "Change Clothes" como música de trabalho do LP "The Black Album" em vez de "Encore". Tudo isso num formato simples —apenas Rick Rubin e Jay-Z sentados numa sala, conversando e ouvindo música, sem inserções de cenas de arquivo ou depoimentos de outras pessoas. A única ferramenta que Rubin utiliza para ilustrar a conversa são trechos de letras do artista. Rubin já trabalhou com grandes nomes do rap, como Public Enemy, LL Cool J, Run-DMC e Beastie Boys, e é capaz de falar do gênero com a propriedade de um especialista. Mesmo assim, ao longo da série, demonstra surpresa com várias das histórias de Jay-Z, como ele afirma em entrevista à Folha. Por que você decidiu realizar essa exploração profunda sobre o trabalho de Jay-Z? Como a música dele te impacta? Fiz uma série com Paul McCartney, "McCartney 3,2,1!" [a série está na Disney+], em que analisamos Paul como músico. Por mais óbvio que possa parecer, poucos livros ou filmes sobre os Beatles são focados na musicalidade da banda. Os trabalhos tendem a ser sobre o processo de composição ou sobre a Beatlemania, então olhar para Paul apenas como um músico jogou uma luz diferente sobre ele. Depois dessa experiência tão reveladora, pensei 'quem é um artista que não é sempre analisado pelo que faz criativamente?' Jay-Z foi a primeira pessoa que me veio à mente. As pessoas pensam em Jay-Z como um grande homem de negócios ou como um bilionário, mas poucos conhecem a profundidade e visão poética da escrita dele. O propósito de "Jay-Z em 8" é explorar a complexidade desse artista e aprender mais não só sobre ele, mas sobre o hip-hop em geral. Fiquei comovido pelo que foi revelado e descoberto durante o processo. No salão em que gravamos, eu era basicamente a única plateia, mas agora todos poderão compartilhar a experiência. Durante suas conversas com Jay-Z, você menciona que a maioria das pessoas não entende ou não sabe apreciar o hip-hop. Como um produtor que trabalhou bastante com alguns dos nomes mais importantes do gênero, poderia explicar o que as pessoas não estão captando? A maioria das pessoas ouve música num nível superficial: a batida, o ritmo, as rimas, o gancho. O que é pouco usual sobre rap é a complexidade e o volume das letras. Uma canção pop típica tem quatro linhas nos versos e quatro linhas no refrão. Usualmente, uma canção pop tem três versos, às vezes dois, e o refrão se repete. Isso talvez dê um total de 16 linhas numa canção. O rap pode ter o dobro ou o triplo disso. O volume de informação contida numa canção de hip-hop é muito, muito maior do que numa canção pop. Apenas os fãs mais obsessivos de hip-hop captam toda a complexidade, os duplos sentidos e metáforas que passam batidos por um ouvinte casual. Há tanta coisa contida nas letras de Jay-Z que até fãs dele estão dizendo que aprenderam coisas novas ao vê-lo comentando os próprios versos. Quais as maiores qualidades de Jay-Z como produtor? Ele é um mestre da escrita. Tanto o conteúdo das letras como as palavras que ele usa para descrever esse conteúdo são completamente únicos. Como você dividiu os oito episódios? Havia alguma ordem planejada para a conversa? Por que a série tem um ritmo muito fluido, parece um papo de dois amigos conversando? As conversas foram longas e sem roteiro. Não havia nenhuma consideração sobre como elas seriam divididas em um formato apresentável. Assim que a filmagem terminou, tivemos a ideia de dividi-la em seis episódios, como fizemos com McCartney, mas o material era muito denso, os episódios eram mais longos, e ficou difícil fazer caber toda aquela informação em seis episódios. Quando diminuímos um pouco a duração dos episódios, acabamos com oito episódios. Esse é o trabalho de um produtor musical: encontrar o formato que melhor serve ao material. Houve alguma revelação em especial de Jay-Z que lhe surpreendeu? Você pareceu bastante emocionado com a descrição dele para o reencontro com o pai que o havia abandonado. Jay-Z dividiu tanta informação pessoal que é difícil computar tudo. A série me deu uma compreensão totalmente nova sobre sua vida, seu trabalho e suas habilidades e, por meio das histórias que ele contou, me proporcionou uma nova admiração e compreensão do hip-hop. Durante sua carreira, você teve a chance de conhecer e trabalhar com alguns dos grandes, de Neil Young a Jay-Z, de Paul McCartney a Johnny Cash. Há alguma característica em comum a todos esses artistas, além do óbvio talento musical? Talvez a primeira coisa que eu possa apontar seja a ética de trabalho. Todos eles tinham uma ética de trabalho que ia da saudável à obsessiva. Eles se sentiam compelidos a dividir sua música acima de muitas outras coisas em suas vidas. A vida na estrada é muito difícil, e todos esses artistas escolheram deixar os confortos de suas casas para dividir sua música com plateias. Nós vemos isso do ponto de vista do fã como uma celebração, mas para o artista é exaustivo viajar todo dia de país para país. Li seu livro "O Ato Criativo: Uma Forma de Ser" e gostei bastante. Mas quando veremos a série "Rick Rubin em 8", com uma exploração do seu trabalho como produtor? Muito obrigado. Nunca pensei nisso, mas, se existisse uma maneira de isso acontecer sem a minha participação, eu certamente ficaria curioso para assistir e tentar entender como as coisas aconteceram. Se alguém se dispuser a fazer, eu topo.

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