Tem coisas que só a natureza humana faz pra você, e o autoengano certamente é uma dessas joias da coroa da evolução dos hominínios. Só mesmo tão sublime inovação cognitiva do Homo sapiens para transformar um sujeito normalmente inteligente e com elevados níveis de educação formal em alguém que fala como se tivesse esquecido o cérebro no banheiro do aeroporto. Para ilustrar esse princípio, sugiro a leitura da entrevista com o médico Claudio Lottenberg, feita por minha insigne colega Cláudia Collucci. É uma "masterclass" de autoengano. Pelo visto, um doutorado em oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina não é suficiente para que ele vislumbre que não dá para ser "técnico, médico" e ter uma gestão "baseada na qualidade da informação, que é a ciência" num eventual governo Flávio Bolsonaro. (Ele está cotado para ser ministro da Saúde da possível nova gestão, embora seu nome ainda não tenha sido anunciado oficialmente.) Depois de ler a entrevista, eu não arriscaria confiar a renovação da receita dos meus óculos multifocais (a idade já bateu aqui, infelizmente) a Lottenberg, porque o homem parece ser muito, muito ruim de diagnóstico. Declarou que o comportamento de Jair Bolsonaro na pandemia de Covid-19, atravancando a vacinação e promovendo curandeirismos, tem de ser relevado. "Nós fomos assolados por um fenômeno que a gente não imaginava que poderia acontecer", disse. "Nesses momentos, as pessoas nem sempre têm as melhores ferramentas para tomar decisões. Eu prefiro deixar isso como capítulo superado." Faltou combinar com os russos. Eis o erro crasso de diagnóstico: o negacionismo bolsonarista não foi falta de "ferramentas para tomar decisões", mas cálculo político, simplesmente copiando uma estratégia do grande ídolo internacional da direita desvairada brasileira –Donald Trump, é claro. Pior ainda, esse cálculo foi imediatamente transformado em marcador de identidade grupal. Compondo uma túnica inconsútil com outras formas de negacionismo, como o que diz que a mudança climática inexiste, a birra antivacinas hoje está matando gente usando sarampo como arma nos EUA, e muitos não recuam porque isso significaria ser desleal à "verdade" do grupo. As contas da fieira de absurdos continuarão a aumentar o colar enquanto Trump seguir sendo o modelo desse povo. Trata-se, é claro, de um nó muito mais complexo de enfrentar do que o pobre oftalmologista enxerga. Alguém já viu médico curar paciente depois de errar o diagnóstico de forma tão flagrante? As falas de Lottenberg, de quebra, transmitiram-me uma sensação desgraçada de "déjà vu". Ué, eu já tinha lido algo assim antes, não tinha? A resposta era óbvia. Trata-se, é claro, de uma paráfrase involuntária do mago Saruman, de "O Senhor dos Anéis", tentando convencer seu confrade Gandalf de que, veja bem, dá para ser "só técnico" com Sauron na presidência. "Um novo Poder se ergue. Contra ele os antigos aliados e políticas de nada nos servirão", argumenta Saruman. "Podemos unir-nos a esse Poder. Sua vitória é iminente; e os Sábios, como tu e eu, com paciência poderão afinal chegar a dirigir seus cursos, a controlá-los." A resposta de Gandalf ao autoengano (de Saruman e de Lottenberg) deveria ser a de qualquer brasileiro que ainda não tenha se transformado em invertebrado moral: "Bem, parece que as opções são submeter-me a Sauron ou a ti. Não escolho nenhuma delas". LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Poss�vel ministro da Sa�de n�o consegue enxergar o negacionismo
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