� poss�vel ficar milion�rio investindo apenas em renda fixa?

� poss�vel ficar milion�rio investindo apenas em renda fixa?

Você consegue imaginar um investimento que multiplique seu patrimônio por mais de dez vezes em 20 anos? Parece um resultado reservado a quem acertou na escolha de uma ação extraordinária. Entretanto, foi exatamente o que aconteceu com uma carteira de títulos públicos brasileiros indexados à inflação. Nesse período, o IMA-B 5+ acumulou um retorno equivalente a 10,5 vezes o capital inicial, praticamente o dobro das 5,3 vezes proporcionadas pelo Ibovespa. Para entender a dimensão dessa diferença, R$ 100 mil investidos há 20 anos teriam se transformado em aproximadamente R$ 1,05 milhão acompanhando o IMA-B 5+, contra R$ 530 mil no Ibovespa. E não estamos falando de uma aposta em uma empresa específica, mas de um índice que acompanha títulos públicos federais. Os números contrariam a ideia de que, para enriquecer, é necessário investir em ações e aceitar riscos cada vez maiores. Os resultados não se limitaram aos títulos públicos de vencimentos mais longos. Nos últimos 20 anos, o CDI apresentou retorno anualizado de 10,1%, enquanto o IRF-M, índice de títulos públicos prefixados, rendeu 11,2%. Os títulos indexados à inflação, representados pelo IMA-B, acumularam 12,1% ao ano. Já o IMA-B 5+, que acompanha títulos públicos indexados à inflação com vencimentos superiores a cinco anos, alcançou 12,5% anuais. A comparação com investimentos considerados mais arriscados é reveladora. No mesmo período, o Ibovespa rendeu 8,7% ao ano, o índice de ações de pequenas empresas ficou em 6,9%, o ouro apresentou 9,7% e o dólar, 4,3%. Entre os índices de ações analisados, o melhor desempenho foi o de dividendos, com 13,2% anuais. Mesmo assim, superou o IMA-B 5+ por apenas 0,7 ponto percentual ao ano. Essa diferença merece atenção. Durante duas décadas, o investidor que acompanhou o índice de dividendos precisou conviver com as oscilações e os riscos do mercado acionário para obter um retorno equivalente anual apenas pouco superior ao de uma carteira de títulos públicos de longo prazo. Ou seja, um prêmio pelo risco muito reduzido. Não estou dizendo que a renda fixa seja completamente livre de riscos. Já abordamos sobre esses riscos em artigo recente desta série. O IMA-B 5+ também pode apresentar perdas expressivas quando os juros sobem, embora a natureza de seus riscos seja diferente daquela das ações. Outros índices de renda fixa também proporcionaram multiplicações expressivas do patrimônio. Em 20 anos, R$ 100 mil teriam se transformado em aproximadamente R$ 685 mil acompanhando o CDI, R$ 836 mil no IRF-M e R$ 982 mil no IMA-B. No índice de dividendos, que apresentou o melhor desempenho entre as alternativas de índices de ações mais acompanhados, o patrimônio chegaria a R$ 1,19 milhão. Lembro que esses retornos de índices já consideram dividendos. Ressalto que esses resultados representam índices que acompanham carteiras de títulos, e não a rentabilidade garantida de uma aplicação individual. Para reproduzir seu desempenho, seria necessário manter uma estratégia compatível com suas regras de composição. Comprar um único Tesouro IPCA+ e carregá-lo até o vencimento não produz necessariamente o mesmo resultado de acompanhar o IMA-B 5+ durante 20 anos. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Agora, vamos inverter a pergunta. Quanto seria necessário investir há duas décadas para alcançar hoje um patrimônio de R$ 5 milhões, ou seja, o equivalente a US$ 1 milhão? Utilizando os retornos históricos, seriam necessários aproximadamente R$ 730 mil no CDI, R$ 598 mil no IRF-M, R$ 509 mil no IMA-B ou R$ 474 mil no IMA-B 5+. Esses valores representam resultados nominais e brutos, antes de impostos e custos, que reduziriam o patrimônio efetivamente recebido. Mas quem não possuía centenas de milhares de reais também poderia construir riqueza com disciplina. Considere alguém que começasse do zero e investisse R$ 5.000 por mês, corrigindo os aportes pela inflação. Com uma rentabilidade real equivalente à do IMAB acima de 6,1% ao ano, alcançaria aproximadamente R$ 5 milhões em poder de compra atual depois de 30 anos. Nesse caso, o resultado dependeria menos de encontrar investimentos extraordinários e mais da capacidade de poupar continuamente e reinvestir os rendimentos. Essa distinção entre valores nominais e reais é fundamental. R$ 5 milhões hoje não compram o mesmo que comprariam há 20 anos. O verdadeiro enriquecimento ocorre quando o patrimônio cresce acima da inflação, aumentando a quantidade de bens e serviços que o investidor consegue adquirir. Por isso, juros elevados só representam uma oportunidade efetiva quando proporcionam ganhos reais depois dos impostos e custos. Por que a renda fixa brasileira conseguiu apresentar retornos tão competitivos? Parte da explicação está no histórico de juros reais elevados do país. Para financiar sua dívida, o governo frequentemente precisou oferecer remunerações superiores às observadas em economias desenvolvidas. Isso criou oportunidades importantes para investidores dispostos a manter seus recursos aplicados por períodos longos. Não acredito que seja arrojado imaginar que os próximos 20 anos repetirão os resultados anteriores. Mas há riscos na premissa e o ideal é ser mais conservador na projeção. As taxas de juros podem cair, a inflação pode mudar e os preços dos títulos públicos podem oscilar significativamente. A conclusão também não é que investir em ações seja desnecessário. É sabido que empresas podem proporcionar ganhos extraordinários. O que os números mostram é que assumir mais risco no passado brasileiro, na maioria dos casos, não garantiu receber mais rentabilidade, mesmo em horizontes bastante longos. No Brasil, enriquecer com renda fixa não foi uma exceção. Foi e continua sendo uma possibilidade concreta para quem sabe aproveitar os juros elevados e permanece investido por tempo suficiente. A lição não é que devemos abandonar as ações, mas que construir riqueza não exige necessariamente concentrar nossos investimentos nos ativos considerados mais arriscados. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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