A atriz e diretora Grace Passô, responsável pela montagem da ópera "Porgy and Bess" no Theatro Municipal de São Paulo, em setembro do ano passado, criticou o posicionamento da atual gestão da instituição, comandada desde junho pelo Instituto Bacarelli, de não adaptar óperas para atender demandas de grupos minoritários nos espetáculos da forma como fez a gestora anterior, a Sustenidos. "Fiquei assustada com a associação de produções que foram feitas nos últimos tempos a uma ideia de identitarismo", diz ela, em entrevista no Festival de Gramado, onde apresentou seu primeiro longa-metragem como diretora, "Nosso Segredo". Neste ano, a Sustenidos deixou a gerência do Theatro Municipal após ter perdido a disputa pelo equipamento cultural para o Baccarelli. Antes disso, enfrentou uma longa crise com a Prefeitura de São Paulo, incluindo acusações de parlamentares da bancada conservadora de suposta doutrinação ideológica no teatro. A organização social priorizou diretrizes progressistas em seus espetáculos, envolvendo a busca por mais diversidade e a desconstrução da ópera, da música clássica e da dança contemporânea. Virou alvo de críticas, por exemplo, por espetáculos como "O Guarani", de Carlos Gomes, com um elenco indígena, que destoava, em diversos pontos, das intenções do autor e foi vista como militante por grupos mais à direita. "Nós não temos a intenção de ter nada político ou identitário assim nas nossas produções", disse Edilson Ventureli, diretor-executivo do Instituto Baccarelli, em junho, à Folha. "Nós queremos cumprir o que o compositor escreveu. O que não significa ser conservador, tradicionalista ou retrógrado." "É um resquício de uma noção muito colonial de cultura. São pessoas que têm saudade de um Brasil que não contava sua história verdadeira, que reverenciava uma ideia europeia de arte. Como se as belas artes fossem aquilo que consegue se aproximar da expressão europeia. Acho isso muito racista e demodê", afirma Passô. "É uma casa que deveria proteger a liberdade de expressões artísticas, mas está preocupada em limitar a ideia do que é ou não é uma ópera." A artista associa, ainda, a ideia de superioridade da música erudita a um preconceito burguês. "Uma ópera não é maior do que uma peça do Teatro de Contêiner, por exemplo", afirma. "Quem está na direção principal precisa repensar aquele teatro e entender que vários posicionamentos feitos são racistas e cheios de saudade de um Brasil colonial, no qual o pensamento negro, por exemplo, não tinha tomado tanta proporção como hoje." Passô, de 46 anos, tem uma longa trajetória no teatro e no cinema, e concebeu uma montagem de "Porgy and Bess", de George Gershwin, considerada a grande ópera americana e que prevê um elenco majoritariamente negro. Em sua versão, a diretora transpôs a realidade do sul dos Estados Unidos da década de 1930 para as periferias brasileiras de 2025, com referências no cenário e danças que remetiam ao break, ao funk, à capoeira, ao vogue e outros.
Posi��o atual do Theatro Municipal de S�o Paulo � racista, diz Grace Pass�
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