A mobilização da juventude foi decisiva para a vitória do presidente Lula. Nas ruas e nas redes sociais, a geração se levantou em defesa da democracia e da soberania e se somou a jovens de diferentes partes do mundo, da França ao Nepal, da Sérvia a Madagascar, que vêm se mobilizando —muitas vezes de forma difusa— por novas perspectivas de futuro e sentem que perderam o protagonismo sobre a própria vida. Muitos desses jovens desejam viver das profissões criativas. Em junho de 2022, publiquei nesta Folha o artigo "Cultura para o desenvolvimento". Defendia que o Brasil precisava transformar sua potência cultural em instrumento de desenvolvimento econômico e social. Quatro anos depois, observamos avanços importantes. O Ministério da Cultura e a Secretaria de Economia Criativa foram recriados, o governo federal instituiu o programa Brasil Criativo e o presidente Lula (PT) mencionou a economia criativa no discurso da sua histórica reeleição. Mas ainda existe um descompasso. O Brasil é uma potência cultural inequívoca, sem que essa força tenha sido incorporada a uma estratégia à altura de sua dimensão.A economia criativa representa 3,59% do PIB brasileiro e reúne mais de 7 milhões de trabalhadores, entre formais e informais. Não existe proporcionalidade dos incentivos e instrumentos de apoio em relação ao peso econômico do setor. Falta formação criativa para os jovens e crédito para quem vive de projetos e quer empreender. Falta um mapa nacional dos territórios criativos e das vocações de cada região e um calendário cultural integrado, conectando municípios, estados e União. Falta transformar iniciativas culturais de governo em política de Estado, com continuidade e orçamento previsível. E falta articulação política, pois o setor segue fragmentado e sem uma voz institucional. A revolução tecnológica ampliou o acesso às ferramentas de criação, produção e circulação, aproximando milhões de jovens de atividades antes dependentes de estruturas e recursos menos acessíveis. A criatividade passou a ocupar um lugar mais importante na economia e na vida das pessoas, formando um campo crescente de trabalho, renda e empreendedorismo. Essa realidade exige atualizar a política cultural brasileira. Não se trata de abandonar conquistas nem de reduzir o apoio às linguagens artísticas tradicionais, mas de ampliar as políticas públicas, reconhecer novas formas de produzir e trabalhar e acompanhar as mudanças nos hábitos culturais do povo. É possível colocar a criatividade no centro da política de desenvolvimento da nação, como já fizeram vários países —do pioneirismo do Reino Unido ao celebrado caso da Coreia do Sul, transformando suas indústrias criativas em instrumentos de desenvolvimento e soft power. A economia criativa pode ocupar um lugar de destaque na estratégia de neoindustrialização do Brasil, baseada em inovação, conhecimento, tecnologia e sustentabilidade. Tem baixa emissão de carbono e mobiliza ativos brasileiros como diversidade e capacidade de produzir experiências e símbolos. Vivemos também um ciclo raro de valorização internacional do Brasil, da nossa cultura, estética, música e vocação para o encontro e o engajamento, no mundo físico e digital. Essa imagem acaba de ganhar a linda nova camada de um país que reafirmou sua democracia e freou o avanço da extrema direita. Temos hoje melhores condições de aproveitar essa oportunidade histórica com a combinação de uma nova geração em busca de protagonismo, uma economia que precisa encontrar novos caminhos e um país cuja força cultural é reconhecida mundialmente. Fazer dessa potência um projeto de país é uma chance concreta de criar condições para que a geração que se mobilizou em defesa da democracia recupere o protagonismo sobre a própria vida e construa uma nova perspectiva de futuro. Um futuro criativo. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Por um futuro criativo
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