Estamos na semana do Jerez, uma bebida que já foi adorada pelo mundo inteiro, caiu no ostracismo e virou coisa de vovozinho inglês e que agora é preferida de hipsters e enófilos mais nerds. Mas por que eles amam tanto esse vinho que nem parece vinho? Tenho muitos palpites e começo pela incrível variedade da bebida feita na região da Andaluzia, sul da Espanha. Se o mundo do vinho é um universo, o Jerez é uma galáxia inteira, ao abranger mil estilos, que vão do mais seco e salino ao mais doce e xaropento. Não me entenda mal, os doces, seja o cream, mais suave na doçura, ou Pedro Ximénez, mais intenso, podem fazer as vezes até de calda de sorvete —e, nessa skin, são bons demais. Quer uma comprovação? No restaurante Caco, em São Paulo, peça o tiramissu da casa, feito com uma nata levíssima no lugar do mascarpone, com o Gonzalez Byass Solera 1847 Cream. É de chorar. Aliás, todos eles, servidos do jeito certo, com a comida certa, são maravilhosos. Há um tipo de Jerez para cada comida. Especialmente para aquelas que não combinam com nada ou que atrapalham a performance de 99% dos vinhos. Tapas com ovo? Anchovas supersalgadas? Azeitonas? Todas vão bem com Fino ou Manzanilla, sequinhos e levíssimos. E o melhor: como eles costumam trazer uma nota salina, você vai pensar que está à beira-mar. Tem um prato de queijos diante de si e depois vai partir para algo mais substancioso, como um frangão ou um pato? Vá de amontillado, uma espécie de fino envelhecido que ganha notas amendoadas e de caramelo e deve ser servido frio. Um degrau acima na escala de potência está o oloroso, par perfeito para carnes mais gordinhas, como a de cordeiro. Aliás, esta é uma dupla que poderíamos ver mais por aqui. Oloroso orna também com queijos curados, cogumelos, diferentes tipos de castanhas e até sobremesa. A primeira vez que tive contato com Jerez foi em um menu omakasê, o menu-confiança japonês, cada etapa harmonizada com um estilo diferente. Ficou provada para sempre, para mim, a versatilidade desse vinho e sua complexidade, pois mudava na taça a cada gole, mostrando nuances e informações sensoriais inesperadas. É também excelente ingrediente para coquetéis e, já que falei em omakasê, lembrei do bamboo, drinque que leva jerez seco e foi criado no Japão —vai ainda vermute e bitters—, além do muito amado por brasileiros negroni de Jerez. Mas, sendo vinho de nicho, fortificado (mais alcoólico) e produzido num único lugar do mundo, começa, em termos de preço, em um degrau mais alto do que os vinhos tranquilos que temos no mercado. Isso afasta um pouco o bebedor, bem como seu exotismo misterioso para os iniciantes, que podem não compreender as notas amendoadas do nariz aliadas à secura na boca (nos estilos mais comuns). O pensamento é: "Ué, mas não é uma bebida doce?". A esses noviços fica a dica de começar pedindo uma tacinha num bar ou restaurante, antes de adquirir uma garrafa inteira. De 2 a 8 de novembro, a Semana do Jerez, iniciativa de divulgação desse estilo de vinho pelo conselho espanhol, conta com programação em diferentes partes do mundo e oferece ótimas oportunidades para uma estreia. Na programação estão degustações, aulas, jantares e outros eventos, tudo no site da Sherry Week. Em São Paulo, entre os destaques, estão masterclasses e degustações nos bares Huevos de Oro, Picco, Sede 261, Teto e Bar dos Cravos, além do restaurante Jiquitaia e de promoções na importadora Zahil e na Botiga Pirineus. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Vai uma taça? Para quem gostou da ideia e quer levar uma garrafa para casa, o Gonzalez Byass Tio Pepe Fino En Rama (R$ 254 na La Pastina) é um não filtrado bem interessante. Um fino clássico é o Emilio Lustau Solera Reserva Puerto Fino (R$ 224 na Ravin). O Barbadillo Oloroso Sherry (R$ 174 na World Wine) tem um ótimo preço e o Amontillado Napoleon (R$ 505 na Mistral) um vinho de guarda com muita complexidade. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Por que os nerds do vinho amam tanto o Jerez?
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.