"Você tem corpinho de modelo!" Estava no parquinho fazendo exercícios quando uma desconhecida gritou duas vezes: "Você tem corpinho de modelo!" Lógico que adorei. Não me contive e fiz a burrice de perguntar: "Quantos anos você acha que eu tenho?". Tirando o foco do meu corpo, e olhando atentamente para o meu rosto, ela respondeu: "69". Meu "corpinho de modelo" foi aprovado com louvor. O RG estampado no meu rosto recebeu a nota zero. Foi um choque. Aos 49 anos me davam 39. Aos 59, no máximo 49. Até recentemente, mulheres que conheço na farmácia, no supermercado, em palestras diziam que eu parecia ter, no máximo, 55 anos. Confesso: adorava ouvir isso. Mas 69? Foi a primeira vez. Até pouco tempo diziam que eu parecia ter 55. De repente, passei a ter cara de 69? O mais contraditório é que já critiquei inúmeras vezes esse tipo de "elogio" que mendigamos ao perguntar "quantos anos você acha que eu tenho?". Já escrevi também sobre a felicidade fake quando as pessoas mentem para nos agradar. Caí na mesma armadilha. Ao mesmo tempo em que a desconhecida elogiou meu "corpinho de modelo" ela disse com sinceridade a idade que aparento ter. Todas Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres Não sofri muito com os 49, nem com os 59, mas os 69 doeram muito. Por quê? Eu estava me escondendo atrás desses elogios mentirosos, contagiada pelos estigmas e preconceitos de uma sociedade velhofóbica. Aos 39, quando a dermatologista recomendou que eu fizesse dezenas de procedimentos invasivos para não ficar "velha e feia", tive muito medo de estar perdendo o bonde da possibilidade de ser forever young. Apesar do medo, nunca fiz nada do que ela recomendou. Aos 49, pensava nos próximos livros, no novo amor, no reconhecimento e no que ainda iria construir. Aos 59, comecei a inventar a minha bela velhice. Hoje, na minha bela velhice, nunca escrevi tanto. Nunca li nem pesquisei tanto. Nunca trabalhei tanto. Nunca tive tantos projetos. Nunca cuidei tanto da minha saúde. Nunca recebi tanto amor e reconhecimento. Nunca amei tanto. Nunca me senti tão dona de mim. Antes eu perguntava: "O que ainda vou fazer?"; agora me pergunto: "O que vai ficar de mim?" Esta é a pergunta que fico ruminando obsessivamente nas minhas noites de insônia. Continuo escrevendo, pesquisando, trabalhando, cuidando da saúde, amando, rindo, brincando, chorando e fazendo exercícios. Mas, agora, surgiu uma palavra que nunca ocupou tanto espaço na minha vida: legado. Como saborear a bela velhice e, paradoxalmente, sofrer porque pareço ter 69 anos? Como é possível viver uma fase de tantas descobertas e projetos e, ao mesmo tempo, sentir vergonha da idade estampada na etiqueta? Como posso estar vivendo a fase mais produtiva, mais amorosa e mais autônoma da minha vida e, mesmo assim, ter medo e vergonha de envelhecer? Minha mãe morreu aos 62 anos, meu pai, aos 68, e meu irmão do meio, aos 50. Minha melhor amiga recebeu o diagnóstico de Alzheimer aos 67. Os 69 sempre me pareceram uma idade quase impossível de alcançar. Conseguir chegar aos 69 com saúde física e mental tem um significado simbólico enorme. A desconhecida não me chamou de velha, nem de feia ou de acabada. A primeira frase que ouvi foi: "Você tem corpinho de modelo!" O que mais doeu não foi parecer ter 69 anos. Foi sentir, pela primeira vez, o peso da etiqueta de velha. Há décadas eu denuncio a velhofobia presente nos discursos, comportamentos e valores de mulheres e homens de diferentes idades. O mais difícil está sendo combater a velhofobia que mora dentro de mim. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Por que os 69 anos provocam tanto medo e vergonha?
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