Por que o fim de outubro � t�o sobrenatural para tantas culturas pelo mundo?

Por que o fim de outubro � t�o sobrenatural para tantas culturas pelo mundo?

Halloween, dia de Todos os Santos, dia de Finados e dia de los Muertos. Todas essas datas acontecem na mesma época, muito próximas umas das outras, entre 31 de outubro e 2 de novembro. Aqui no Brasil, somos acostumados a olhar para esse momento com um tom de tristeza. É uma época de silêncio, de sentir saudade, de ir à missa e de visitar os túmulos nos cemitérios com calma. Mas, ao dar um giro pelo mundo, é possível ver que esse período concentra costumes bem diferentes e que, em vários lugares, falar sobre a morte é motivo de festa. Por que isso acontece? Tudo começou há centenas de anos com os celtas, um povo antigo que vivia nas regiões onde hoje ficam a Irlanda, a Inglaterra e a Escócia. Eles tinham um festival chamado Samhain para marcar o fim das colheitas de verão e a chegada do inverno longo e escuro. Os celtas acreditavam que, nessa época específica do ano, a divisão entre o mundo dos vivos e o dos mortos ficava mais fina, permitindo que os espíritos passassem para o nosso lado. Quando os cristãos chegaram a essas regiões da Europa, por volta do século 5º, encontraram essa tradição já muito forte na vida das pessoas. E por que a Igreja escolheu justamente o fim de outubro e o início de novembro para reverenciar os mortos no seu calendário? Foi uma decisão prática. Os padres perceberam que seria mais fácil converter os povos antigos para a fé católica se adaptassem as datas da Igreja para os dias em que a população já estava acostumada a realizar suas próprias cerimônias pagãs. Foi assim que a noite anterior ao dia de Todos os Santos, em 31 de outubro, ficou conhecida em inglês como "All Hallows’ Eve", a Noite de Vigília aos Santos. Com o tempo, as pessoas foram falando isso cada vez mais rápido e o nome encurtou para Halloween, uma tradição que mais tarde foi levada por imigrantes irlandeses para os Estados Unidos e o Canadá. Para completar o calendário oficial, a Igreja decidiu que o dia seguinte ao dia de Todos os Santos seria destinado a homenagear os que se foram. Assim, no ano de 998 d.C., em pleno século 10, o abade francês Odilo de Cluny tornou obrigatória a data e criou o dia de Finados em 2 de novembro. Enquanto o Brasil guarda o luto, os mexicanos preparam uma grande recepção. No dia 1º de novembro, o dia de los Muertos mistura a influência da Igreja Católica com os antigos festivais do povo asteca. A intenção principal lá não é se despedir, mas dar "la bienvenida", ou seja, as boas-vindas, aos parentes e amigos que voltam para casa de visita nesse dia. Para recebê-los, as famílias constroem as ofrendas (altares) que mudam dependendo do estado do país. Em um altar tradicional de três andares, o topo representa o Céu, o meio simboliza a Terra e a base é o Submundo, mostrando os diferentes níveis da existência humana. Nesses espaços, espalham-se arcos, fotos, objetos pessoais, velas, o pão de morto e flores laranjas chamadas cravos-de-defunto. Eles também colocam sal, que funciona como uma purificação para impedir que o corpo da pessoa seja contaminado na viagem de volta. E como é regra oferecer um lanche para as visitas, o altar é cheio das comidas e bebidas favoritas de quem partiu. Afinal, desse lado ou do outro, ninguém dispensa os pratos favoritos. Por isso, é muito comum encontrar garrafinhas de Coca-Cola bem gelada, além de tequila, cerveja e mezcal, dividindo espaço no meio da decoração. A importância dessa data é tão grande que, em 7 de novembro de 2003, a Unesco a transformou em patrimônio. Na Guatemala, no município de Todos Santos Cuchumatán, no alto das montanhas, a celebração tem muita adrenalina e resgata uma antiga tradição do povo maia. O dia de Todos os Santos por lá é marcado por uma emocionante corrida de cavalos. E o mais interessante é que o evento não serve apenas para homenagear os mortos, mas também para festejar quem está vivo e de volta à cidade. Todo ano, dezenas de guatemaltecos que migraram para os Estados Unidos retornam à sua terra natal especialmente para participar da corrida. Assim, a festa mistura a lembrança dos que já se foram com a alegria do reencontro dos moradores com a família e os amigos que moram longe. Já no Haiti, a festa ganha música e dança. Nos dias 1 e 2 de novembro, os haitianos realizam a Fèt Gede, uma festa que junta as datas católicas com as crenças do Vodu, uma religião muito presente na história e na espiritualidade do país. O Gede é o espírito ligado à morte e à fertilidade. Nesses dias, a atmosfera nos cemitérios muda completamente e vira um espaço vibrante, tomado por desfiles e danças tradicionais. As pessoas pintam os rostos com pó branco, roxo e preto. O branco representa a pureza e os espíritos; o roxo simboliza o luto e a espiritualidade; e o preto está ligado à morte e ao mistério da vida após o fim. Quem participa costuma dizer que a alegria e a agitação vêm da energia dos próprios espíritos Gede durante a festa. Seja no silêncio de uma vela no Brasil, nos altares coloridos e cheios de refrigerante do México, na corrida de cavalos da Guatemala ou nos cemitérios vibrantes do Haiti, o fim de outubro e o início de novembro mostram como diferentes culturas lidam com a despedida. Lembrar e honrar as memórias de quem já se foi é, no fim das contas, uma maneira de manter viva a história de cada povo.

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