O Brasil premia quase todo mundo que entra em algum tipo de desvio. E com leniência. Mas não reconhece quem age corretamente. Quem paga impostos em dia por dez anos, por exemplo, não ganha direito a qualquer desconto. Quem atrasa por muitos meses, recebe a oportunidade de efetuar um acordo, com desconto na dívida e nos juros. Quem não tem dívida alguma e honra as prestações dos boletos em dia, nem mesmo um agradecimento. E, quem é inadimplente, obtém parcelamento na conta e é acolhido como "coitadinho", vítima das circunstâncias do capitalismo selvagem. No universo distópico em que vivemos no Brasil —e no mundo— deveríamos homenagear quem tem valores éticos e morais. Negligencia-se tal procedimento como sendo mera obrigação. Quem infringe a lei, desde a ilicitude mais leve até a mais pesada, é amparado por, supostamente, ser infortunado pelo sistema. Há quem mate e seja solto imediatamente. Clubes de futebol não pagam o Refis (Programa de Recuperação Fiscal) em curso, à espera de um novo. Que sempre vem. Advogados tributaristas estimulam os clientes a não saldarem impostos, na expectativa do acordo indulgente. Sempre à vista. Vide o Desenrola. "O tempora, o mores! ["Ó tempos! Ó costumes!"]", exclamou o romano Marco Túlio Cícero. Bastante atual. A excelente filósofa norte-americana Martha Nussbaum em "A Fragilidade da Bondade: Fortuna e Ética na Tragédia e na Filosofia Grega" mostra, por intermédio de tragédias clássicas, o desvalor da bondade no sentido de "fazer as coisas que o senso comum tem como certas". De fato, uma tragédia que vivemos —dia a dia— ao abrir os jornais e encarar o noticiário. Ser bom, na direção de cumpridor das leis e dos compromissos, virou algo atípico e pouco relevante para a sociedade. Isso num país em que a lei é uma sugestão, não um compromisso. Premiar quem faz as coisas certas incentiva o processo e faz justiça ao cidadão correto. Quem paga IPTU por dez anos precisamente, sem atrasos, deveria ter direito a um desconto progressivo, ano a ano, assegurando assim a pontualidade. Quem não tem multa por cinco anos poderia receber reconhecimento público e dedução no IPVA. Premiar quem é bom cidadão é melhor do que fazer onerosas campanhas de marketing na mídia para parecer preocupado com a situação. O Brasil precisa mudar de atitude. E a mudança só vem com valorização de princípios. Hoje, o desvio é regra, não exceção. Mudança de atitude requer um movimento da sociedade e do poder público que passe pelo enaltecimento daquilo que desejamos para nós. É seguir o imperativo categórico de Immanuel Kant: "Age apenas segundo uma máxima que queira que se torne lei universal". Faça o que almeja que os outros façam para você. Ou o bíblico: "Ame ao próximo como a ti mesmo". Kant dizia que o imperativo categórico era obrigação moral, sem necessidade de recompensa. Mas, se vivo estivesse em nossos tempos, admitiria que premiar quem é bom contribuirá para uma sociedade melhor. Aristóteles destacou a honra pública como mérito moral. Montesquieu exaltou a virtude pública em "O Espírito das Leis". O filósofo alemão Axel Honneth, expoente destacado da Escola de Frankfurt, constelou e consagrou a necessidade moral da validação em três esferas. Uma delas é a estima social. "Vade Mecum! ["Vem comigo!"]" TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Por que n�o premiar o bom cidad�o?
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