Por que James Joyce, autor intraduz�vel, virou febre no Brasil

Por que James Joyce, autor intraduz�vel, virou febre no Brasil

[RESUMO] Reedição da tradução de "Ulisses" realizada por Antônio Houaiss há 60 anos, primeira versão deste monumento em língua portuguesa, celebra a impressionante tradição de recriar o irlandês James Joyce no Brasil. Das primeiras menções ao escritor por aqui, em texto de Mário de Andrade de um século atrás, a novas versões de suas obras previstas para os próximos meses, pesquisadores comentam por que Joyce, tido como o mais difícil dos autores, virou paixão no Brasil. "A ideia de ‘Ulisses’ é bem simples", dizia James Joyce, "só o método é difícil". Foi esse método —ou métodos, dadas as variações formais da obra (1922), com sua linguagem radicalmente nova— que deu ao livro a fama de intraduzível. Radicalizando ainda mais esses procedimentos, o romance seguinte de Joyce, "Finnegans Wake" (1939), ganhou a pecha de ilegível. Contrariando a lógica do impossível, o Brasil já publicou três traduções integrais de "Ulisses" e duas de "Finnegans Wake". Cada romance tem ainda outras duas traduções completas em fase de revisão, além de uma série de fragmentos espalhados por revistas e trabalhos acadêmicos que se multiplicam há um século. Somadas também as diversas versões dos contos de "Dublinenses" (6) e do romance de estreia "Um Retrato do Artista Quando Jovem" (7), há registros de 18 traduções integrais de sua obra principal de ficção. Fora isso, a Biblioteca Nacional lista mais 20 traduções de trabalhos menores e fragmentos (trechos de romances, contos, ensaios). E mesmo as cartas do autor vêm ganhando edição por aqui. O Brasil, portanto, revela-se uma verdadeira nação de joycianos. "Intraduzível significa dizer que são obras que não cessam de ser traduzidas. Isso acontece porque a língua de chegada nunca dá conta de toda a inventividade literária do escritor", define Dirce Waltrick do Amarante, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ela coordenou o Coletivo Finnegans, que venceu o Prêmio Jabuti de tradução em 2023 com "Finnegans Rivolta", a segunda tradução integral do livro de Joyce no Brasil. Aurora Bernardini, professora aposentada da USP e membro do coletivo, acrescenta: "É uma obra aberta. Ilegível por seus muitos sentidos de leitura". Há mais de um século os brasileiros se aventuram no intrincado universo de Joyce. Os mais antigos registros apontam que, em junho de 1924, Mário de Andrade citou um trecho de "Ulisses" no artigo "Da Fadiga Intelectual", publicado na Revista do Brasil, apenas dois anos depois do lançamento do romance pela parisiense Shakespeare and Company. Em dezembro de 1924, surge outro artigo na imprensa brasileira exaltando o livro irlandês. "Às vezes parece que é pouco chamá-lo de um livro", escreveu no Diário de Pernambuco um jovem Gilberto Freyre, em texto intitulado "James Joyce: O Criador de um Ritmo Novo para o Romance". Duas décadas depois, a primeira tradução completa de uma obra de Joyce no Brasil chegou aos leitores, com "Retrato do Artista Quando Jovem" em versão de José Geraldo Vieira, publicado em 1945 pela Livraria do Globo, de Porto Alegre. O primeiro fragmento conhecido de "Ulisses" em português brasileiro é de setembro de 1946, vertido por Erasmo Pilotto na quarta edição da curitibana Joaquim, revista comandada por Dalton Trevisan. Um ano depois, o Diário de S.Paulo publicou uma versão de Pagu de um excerto do mítico romance, frequentemente citado como a tradução inaugural no Brasil. Vitor Alevato do Amaral, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) e líder do grupo Estudos Joycianos no Brasil, diz que a confusão se instalou porque "ninguém conhecia aquela tradução da obscura Curitiba", em contraposição à centralidade do jornal no eixo Rio-São Paulo. A febre joyciana ganhou força em solo brasileiro em 1962, quando os irmãos Haroldo e Augusto de Campos publicam seus estudos e fragmentos em "Panaroma do Finnegans Wake". É nele que a maioria dos pesquisadores localizam a origem da tradição que segue recriando Joyce no Brasil. Donaldo Schüler, primeiro brasileiro a traduzir integralmente "Finnegans" em seu "Finnicius Revém" (1999-2003), conta que acompanhou o movimento concretista, especialmente atento ao trabalho de Haroldo de Campos na tradução dos gregos, campo em que atuava como professor de língua e literatura grega na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). "Veio o ‘Panaroma’. Por anos fiquei com o aroma", escreve ele, hoje com 93 anos, à Folha. Schüler tirou o título de sua versão do "Panaroma" dos irmãos Campos, mas prefere falar em "sintonia" em vez de "influência". "Gosto de brincar com palavras. O brinquedo concretista vai desde o poema visual de uma palavra só até o ‘Galáxias’ de Haroldo, baile universal de palavras, estrelas, dança do universo da cultura ocidental. Quem brinca, inventa. Sem invenção, não há brinquedo, não há jogo, não há literatura. Os Campos brincam do jeito deles; quero que meu jeito seja meu." A influência não se limita aos corajosos tradutores de "Finnegans"; também se estende aos trabalhos de Caetano Galindo e Antônio Houaiss com "Ulisses". Houaiss é autor de uma façanha histórica: realizou a primeira tradução integral do romance em língua portuguesa, publicada pela Civilização Brasileira no Brasil em 1966. Ele dialogava constantemente com Augusto de Campos, a ponto de incorporar na segunda edição diversas sugestões do poeta, que assinou a orelha do livro. Essa segunda edição de 1967 foi relançada agora pela Civilização Brasileira, sob revisão minuciosa de Vitor Alevato do Amaral, cujo trabalho é descrito por Galindo como "primoroso, à altura de um verdadeiro monumento da tradução literária brasileira". A nova edição reproduz a orelha de Augusto de Campos, as 26 notas de rodapé e o texto de capa da edição original, acrescentando agora um ensaio de 1972 em que Houaiss analisa o romance e uma apresentação de Amaral. Um dos principais estudiosos de Joyce no Brasil, Amaral também acaba de publicar sua tradução de "Um Retrato do Artista Quando Jovem" pela editora Antofágica, em edição ilustrada. Galindo —que passou dez anos trabalhando em sua tradução de "Ulysses", a única no Brasil grafada com "Y", como no original, publicada em 2012 pela Penguin-Companhia— reforça a importância dos autores do "Panaroma". "Temos uma fixação por Joyce e um pouco dela deriva do projeto dos irmãos Campos de introduzir esses autores de vanguarda na nossa literatura e do sucesso que esse projeto teve dentro do meio acadêmico e literário." Schüler usa os mesmos termos para dizer que "a vanguarda é tradição brasileira". O que define o sucesso por aqui é justamente o fato de que "criamos, no seio da literatura brasileira, uma tradição tradutória de Joyce", segundo Amaral. Se, por um lado, ele reconhece no pioneirismo dos irmãos Campos a pedra de toque dessa tradição, por outro, aponta outras dimensões do escritor irlandês, para além do experimentalismo linguístico. Ele chama a atenção para o fato de que as primeiras traduções integrais de "Ulisses" surgiram antes no Brasil e na Argentina do que em Portugal ou na Espanha. Similarmente, "Finnegans Wake" só foi traduzido integralmente em línguas portuguesa e espanhola na América Latina, pelos mesmos países. "Isso diz muito do que é uma cultura aberta à tradução e ao influxo de diferentes línguas. São culturas que não tratam a língua materna como se ela fosse sagrada. Joyce era um irlandês dessacralizando o inglês, língua da metrópole, do colonizador. Brasil e Argentina entenderam que a língua precisa ser dessacralizada, enquanto Portugal e Espanha trabalham para uma espécie de defesa da língua e de um passado colonial que acabou." Ele retorna aos irmãos Campos para explicar o fenômeno, pois foram as teorias deles da tradução, "não como trabalhos técnicos pautados por fidelidade, mas como trabalhos literários pautados pela invenção" que permitiram a criação de "reflexões avançadíssimas" sobre tradução literária no Brasil. "‘Ulysses’ parece falar com algo que é muito brasileiro", Galindo pontua, "que é o amor pela diversão com a palavra e esse convívio entre a vanguarda e o popular". "É um livro cômico, carnavalizado, em que as regras são revertidas, as pessoas mudam de papéis. ‘Ulysses’ é um livro do Carnaval. É um livro colorido, múltiplo, variado, que lida muito mal com a ideia de seriedade, de cânone, de centralidade. Não é à toa que tendeu a ser traduzido pela periferia antes do centro." Schüler faz análise parecida sobre a tradição joyciana no Brasil. "Somos o país do Carnaval, do futebol, da magia, do caudaloso, do sertão, do ilimitado, do imprevisto, da malandragem. Somos tudo o que países sérios, trabalhadores, belicosos, temem. Além do petróleo e da rapadura, o samba é nosso." Novas leituras apontam para a dimensão política de James Joyce, cuja obra foi caracterizada como "um protesto contra os sórdidos códigos do militarismo cavalheiresco e contra o triste machismo da conquista sexual" pelo escritor Declan Kiberd em sua introdução a "Ulysses", presente na edição da Penguin-Companhia. Em diversos momentos, a obra de Joyce desafia ao mesmo tempo o poder colonial britânico e as questões de gênero e sexualidade de seu tempo. "‘Ulysses’ sempre foi uma grande libertação: tudo é possível, tudo é permitido. Esse aspecto do livro, que fala com as minorias, com as periferias, com a liberdade, com a carnavalização, explica muito por que o país que produziu ‘Viva o Povo Brasileiro’ [romance de João Ubaldo Ribeiro de 1984] tenha produzido tantas traduções de Joyce", diz Galindo. Nossas versões frequentemente refletem essas características. Houaiss iniciou sua pioneira e monumental empreitada após o primeiro Ato Institucional da ditadura militar (abril de 1964) suspender seus direitos políticos. Impedido de exercer a diplomacia, foi convidado por Ênio Silveira, editor da Civilização Brasileira, para o trabalho de tradução e revisão, que realizou em menos de um ano. Ele se firmaria nas décadas seguintes como um dos principais intelectuais brasileiros no século 20, idealizador do dicionário que leva seu nome. "Houaiss tem uma visão política sobre Joyce. Essa tradução é um marco contextual", defende Amaral. Joyce faz do judeu Leopold Bloom, excluído da sociedade dublinense, um novo Odisseu. "Essa figura se encaixa no contexto político brasileiro, traduzida por um socialista cassado pela ditadura. Houaiss entendeu a figura de Bloom como um herói comum. Ele dizia que Joyce fez com que todos os ‘Joões da Silva’ fossem heróis também." Quarenta anos depois, em 2005, a professora Bernardina da Silveira Pinheiro publicou sua versão do livro pela editora Objetiva, com a proposta de responder à erudição de Houaiss com um "Ulisses" coloquial. Frequentemente esquecida entre as traduções de Houaiss e de Galindo, a versão de Bernardina, única mulher na América Latina a traduzir o romance completo, foi reeditada pela Nova Fronteira, em 2022, no centenário do livro. Além do esforço de popularizar a obra, aproximando-a da linguagem corrente, a edição traz um aparato de notas de leitura ausentes nas traduções anteriores. Galindo reverencia o trabalho de seus antecessores. "Os tradutores prévios sempre contribuem. Mesmo que você não trabalhe a partir do resultado deles, você trabalha a partir da existência do trabalho deles." Amaral define a versão de Galindo como "irreverente e inventiva". Para ele, o tradutor integra um grupo (ao lado de Dirce Waltrick do Amarante, Bernardina Pinheiro e Donaldo Schüler) responsável por trazer Joyce ao Brasil do século 21 como um autor mais humano, "político, engajado, irreverente, engraçado, sem abrir mão do Joyce inventor de uma nova linguagem". "Joyce parou de assustar graças a eles", completa. O Brasil segue brincando e inventando com a linguagem de Joyce. Schüler e os irmãos Campos abriram caminhos para "Finnegans" brasileiros, como o trabalho coletivo coordenado por Dirce, a versão infantil do próprio Schüler, "Finnício Riovém", e a visual de Sérgio Medeiros, "A Visual Finnegans Wake on the Island of Breasil", além de uma versão não publicada de Luís Henrique Garcia Ferreira. Caetano Galindo e Afonso Teixeira Filho também estão trabalhando em novas recriações do livro em português. "Ulisses" conta ainda com uma nova versão feita por 18 autores-tradutores (como Julián Fuks, Luci Collin e Guilherme Gontijo Flores), um para cada capítulo, coordenada por Henrique Xavier. Anunciada em 2022 pela Ateliê Editorial, a tradução deve ser publicada em dezembro deste ano, segundo o organizador. E a Iluminuras anunciou em pré-venda uma nova tradução dos contos de "Dublinenses", a cargo do Coletivo Dublinense (composto, entre outros, por Dirce Waltrick do Amarante, Luís Henrique Garcia Ferreira e Vitor Alevato do Amaral). "O Brasil é um país apaixonado por James Joyce. O livro tenta dar conta dessa paixão, em diferentes gerações e diferentes localidades", conta Xavier. "É uma espécie de mapeamento dos joycianos do Brasil e, ao mesmo tempo, uma celebração dessa multiplicidade de leituras, interpretações e paixões."

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