Por que investir nos EUA se os juros brasileiros s�o maiores?

Por que investir nos EUA se os juros brasileiros s�o maiores?

O Brasil costuma oferecer juros muito superiores aos encontrados nos Estados Unidos. Diante dessa diferença, muitos investidores concluem que não faz sentido aplicar em renda fixa americana. Afinal, por que aceitar uma remuneração menor em outro país? A resposta depende de algo que não aparece na comparação das taxas: a moeda em que o investimento é realizado, a inflação que se deseja superar e os riscos envolvidos. Os juros brasileiros mais elevados não representam necessariamente uma oportunidade gratuita. Eles refletem fatores como expectativas de inflação, risco fiscal, condições monetárias e o prêmio exigido pelos investidores para financiar o governo. Por isso, comparar apenas as taxas oferecidas pelos dois países pode levar a conclusões equivocadas. Um título americano pode pagar menos juros e ainda proporcionar um retorno maior em reais, dependendo da variação cambial. Considere um investimento hipotético que renda 4% ao ano em dólar. Se a moeda americana valorizar 5% perante o real, o retorno do investidor brasileiro será de aproximadamente 9,2%, antes dos impostos. Entretanto, se o dólar cair 5%, o mesmo investimento produzirá uma perda de aproximadamente 1,2% em reais. A rentabilidade em moeda estrangeira, portanto, é apenas parte do resultado para quem pretende utilizar o dinheiro no Brasil. Mas será que o dólar costuma compensar a inflação brasileira? Para responder, comparei a valorização da moeda americana com o IPCA em diferentes períodos históricos. Nos últimos cinco anos, a inflação avançou, em média, 5,1% ao ano, enquanto o dólar apresentou desvalorização anualizada de 2,4%. Em quinze anos, ocorreu o contrário: a moeda americana ganhou 7,5% ao ano, superando o IPCA de 5,7%. Quando ampliamos a análise para trinta anos, o resultado volta a mudar. O IPCA acumulou uma variação anualizada de 6%, enquanto o dólar valorizou 5,4%. Das oito janelas analisadas, a inflação brasileira superou a valorização cambial em seis. Portanto, comprar dólares não garante, por si só, a preservação do poder de compra no Brasil. O resultado depende bastante do período escolhido.Essa comparação, entretanto, considera apenas a variação cambial, sem incluir os juros que poderiam ser recebidos em aplicações americanas. Para avaliar corretamente a renda fixa internacional, precisamos acrescentar a remuneração dos títulos ao movimento da moeda e, depois, descontar os impostos e os custos envolvidos. Considere um Tesouro IPCA+ oferecendo hipoteticamente inflação mais 7% ao ano e um título do Tesouro americano pagando 4% ao ano em dólar. Se a inflação brasileira for de 5% durante o período, o título nacional proporcionará aproximadamente 12,35% em reais, antes dos impostos. Para que o americano iguale esse retorno, o dólar precisará valorizar cerca de 8% no mesmo intervalo, também antes de impostos e custos. Se a valorização cambial for menor, o investimento brasileiro terá apresentado o maior retorno em reais. Existe, porém, uma diferença importante nessa comparação. O Tesouro IPCA+ oferece uma remuneração real vinculada à inflação brasileira, enquanto o Treasury tradicional paga juros nominais em dólar. Para comparar juros reais, podemos utilizar os títulos americanos conhecidos como TIPS, cuja remuneração está vinculada à inflação dos Estados Unidos. Já para comparar taxas nominais, podemos confrontar títulos prefixados brasileiros com Treasuries americanos de prazo semelhante. Mesmo quando comparamos dois títulos indexados à inflação, a diferença entre suas taxas reais não representa necessariamente uma vantagem para o investidor brasileiro. Afinal, cada um protege o poder de compra em uma moeda diferente, e a variação cambial pode alterar completamente o resultado. A comparação adequada exige considerar a moeda na qual o patrimônio será utilizado. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Também não podemos ignorar as diferenças de risco. Os títulos públicos americanos são obrigações do governo dos Estados Unidos, enquanto os brasileiros dependem da capacidade de pagamento do Tesouro Nacional. Além disso, títulos de prazos distintos podem apresentar sensibilidades muito diferentes às oscilações das taxas de juros. Quem precisar vender antes do vencimento estará sujeito à marcação a mercado nos dois países. Impostos, custos de remessa e spreads cambiais também precisam entrar na conta. Uma vantagem aparentemente pequena de rentabilidade pode desaparecer depois dessas despesas. Por isso, o investidor deve comparar retornos líquidos, em uma mesma moeda e considerando riscos e prazos semelhantes. Então, por que investir em renda fixa americana se os juros brasileiros são maiores? Porque a decisão não envolve apenas buscar a maior rentabilidade. Manter parte do patrimônio em outra moeda e sob outra jurisdição reduz a concentração dos riscos econômicos, fiscais e institucionais brasileiros. Essa diversificação pode ser valiosa em determinados cenários, mesmo quando o retorno esperado em reais é inferior ao oferecido pelos títulos nacionais. A moeda das despesas futuras também deve orientar a escolha. Quem pretende financiar estudos dos filhos nos Estados Unidos, comprar um imóvel no exterior ou passar parte da aposentadoria fora do Brasil possui compromissos em moeda estrangeira. Para essas pessoas, a renda fixa americana pode oferecer uma proteção importante, mesmo com juros menores. Já para quem pretende viver no Brasil e financiar despesas em reais, a renda fixa nacional oferece uma vantagem relevante: a possibilidade de contratar uma remuneração diretamente vinculada à inflação brasileira. Isso não elimina o valor de diversificar parte do patrimônio internacionalmente, mas mostra que a renda fixa americana não precisa superar a brasileira em todos os períodos para poder ter algum espaço na carteira. O melhor investimento não é simplesmente aquele que oferece a maior remuneração, mas aquele que ajuda a preservar o patrimônio na moeda e nas condições em que ele será utilizado. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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