Por que eu voto em m�es (e pais) at�picos

Por que eu voto em m�es (e pais) at�picos

Nos últimos 6 anos, desde a primeira vez que sugeriram que meu filho era autista, eu dividi dezenas de salas de espera com pais de crianças e jovens com deficiência —95% de mães e 5% de pais. Assisti a aulas com mães que saíam de outras regiões do país, duas vezes por mês, para se especializarem aos sábados. Assisti a aulas online, noite adentro, com elas. Fiz amizades profundas com mães atípicas que conheci como fontes para minhas colunas. Uma professora que deu um cavalo de pau na carreira e hoje forma levas de especialistas em TEA (Transtorno do Espectro Autista). Uma ex-investigadora de polícia que é a maior divulgadora científica sobre desenvolvimento de bebês no país. Uma ex-jornalista que se elegeu deputada e briga por acompanhantes terapêuticas qualificadas nas escolas. Outra mãe que brigou com meio país para garantir que o PEI (Plano de Ensino Individualizado) fosse um instrumento oficial —um pai também brigou por isso. E uma senhora, pioneira em oferecer tratamento para crianças autistas há 40 anos em Sergipe, e que hoje faz viagens mensais a Brasília como integrante do Conselho Nacional de Saúde. São mulheres que, muitas vezes, abriram mão de suas vidas pessoais e abraçaram causas que não eram, originalmente, suas. A história do autismo é marcada por avanços carregados nas costas dessas mulheres —o próprio diagnóstico de TEA existe porque a mãe de Don Triplett, a americana Mary, insistiu por anos que o médico desse um nome à condição do seu filho. Eu votaria em mulheres assim. Primeiro, porque elas se viram nos 30 todos os dias. Multiplicam as 24 horas de cada dia para que caiba um pouco de tudo: trabalho, cuidado com outra pessoa e política (geralmente esquecem de cuidar de si mesmas, é verdade). Penso nelas (em nós) como mágicas do tempo. Segundo, porque elas trabalham, em suas horas livres, em favor de um país mais justo. Para seus filhos, sim, mas com repercussão em parcela significativa e vulnerável do nosso Brasil. Terceiro, porque, para avançar com políticas públicas adequadas, frente a lobbies econômicos enormes e à ignorância, temos que ter um ecossistema amplo eleito: pessoas com deficiência, mães atípicas, pais atípicos, tias e tios atípicos, primas e primos atípicos. E mais professores, enfermeiros, advogados, gestores, jogadores de futebol, pintores, músicos, pipoqueiros eleitos que sejam engajados em um mundo mais diverso e acessível. É claro que essa luta das mães tem recompensas pessoais. Transformar um sofrimento pessoal em luta coletiva nos dá a sensação de força, coragem. De pertencermos a um grupo —quando, na verdade, sempre nos sentimos muito sozinhas. Não podemos deslegitimar essa luta, que trouxe avanços tão concretos. E, assim, discordo do meu colega que publicou, na terça-feira (22), uma coluna em que declara que não vota em mães atípicas, porque não seriam legítimas representantes de suas causas. Em suas palavras, "votar em alguém apenas por ser mãe atípica que promete, se eleita, criar leis para o seu filho, mesmo que use 'nossos filhos' no discurso, ajuda a apagar quem de fato deveria ser representante de poder. Uma bandeira não precisa necessariamente ser empunhada por um braço em riste. Pode ser sustentada pela boca, apoiada nos ombros ou estendida sobre o colo". Nós não queremos falar por nossos filhos. Todos os dias, levantamos da cama pensando em como garantir que eles possam falar por si próprios. Mas isso nem sempre é possível. E nem sempre pessoas dentro do mesmo espectro entendem os desafios e as potencialidades de quem está na outra ponta. Por isso, nos dói tanto a ideia de que deveríamos ser uma aldeia, em que todos teriam responsabilidades partilhadas de cuidar uns dos outros, mas não somos. A comunidade de pessoas com deficiência já é tão vulnerável, marginalizada e cansada. Precisamos, também, ser uma comunidade dividida? LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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