Por que candidatos de direita buscam confronto no campus?

Por que candidatos de direita buscam confronto no campus?

Na quinta-feira, dia 20, o deputado estadual Diego Castro, do PL, entrou na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia com o kit básico desse tipo de ação política: seguranças, alguém encarregado de filmar e um roteiro na cabeça. Filmou, retirou adesivos eleitorais, fez discursos, encenou sua revolta diante da câmera e de estudantes que correram para o espetáculo. E, como se diz no futebol, "esperou o contato, o contato veio", na sequência prevista: berros, dedos na cara, empurrões, boletins de ocorrência, notas de repúdio, reportagens e vídeos para as redes. No dia seguinte, um influenciador que se apresenta como Heitor Bolsonaro voltou ao local, também com o celular ligado, à procura de adesivos, placas de banheiro e reação. É tentador descrever os episódios como "confusões". Não são. Confusão é aquilo que ninguém planejou e todos prefeririam que não tivesse acontecido. Esse tipo de confronto em universidades públicas é uma ação política com método, repertório e incentivos conhecidos no Brasil há pelo menos uma década. O método começa pela escolha do flagrante. É preciso encontrar algo capaz de indignar a audiência: propaganda, pichações, banheiros, palavras de ordem, símbolos progressistas, qualquer material que possa ser apresentado como prova de que a universidade foi capturada pela esquerda ou transformada em território de reprodução ideológica. O objetivo é voltar com imagens que confirmem uma narrativa pronta. A locação não é escolhida ao acaso. Quem produz esse gênero de conteúdo raramente vai pescar imagens nas áreas de engenharia ou na medicina. Prefere humanidades e artes, onde encontra a combinação ideal entre material visual, antagonismo ideológico e alta probabilidade de reação. Para o corte, indiferença é fracasso. Gritos, cercos e agressões são o que se busca.A característica decisiva é que, embora corporal, essa ação política é inteiramente digital. O conflito não é simplesmente filmado porque aconteceu, mas acontece para ser filmado. Gritos na cara, sopapos e exibição de macheza destinam-se menos ao adversário presente do que à audiência ausente, que verá depois apenas cortes de 30 segundos. Não é preciso imaginar combinação entre os atores: todos conhecem o roteiro. O provocador sabe quais botões apertar, a militância sabe o que se espera e cumpre o papel. Ligadas as câmeras, começa a ação política. Se a coisa terminar em alguma violência, melhor para a narrativa. É aí que o mercado da indignação moral faz sua mágica. O mesmo acontecimento produz duas narrativas antagônicas e dois vencedores. De um lado, a épica do cidadão de direita cercado pela horda intolerante de "vagabundos maconheiros marxistas" que domina a universidade pública; do outro, os estudantes de esquerda que enfrentaram com bravura mais uma "incursão fascista". Um lado corta a cena em que é cercado e agredido e confirma o autoritarismo da esquerda. O outro corta a cena em que o adversário recua e confirma a força da resistência antifascista. Cada público recebe uma prova para reafirmar suas crenças. Até o pós-jogo integra a coreografia. Boletins de ocorrência, notas de repúdio e reportagens jornalísticas deixam de ser consequências e se tornam suítes do produto original. Voltam às redes como certificados externos de importância e alimentam novas exibições de virtude.A esquerda estudantil conhece bem esse repertório. Quando a iniciativa é sua, o mecanismo se inverte. Um convidado considerado intolerável é cercado, interrompido ou expulso. O tumulto oferece um espetáculo de força interna. Centros acadêmicos e diretórios estudantis, cada vez menores e menos representativos, encontram nesses confrontos uma oportunidade de demonstrar relevância. É um jogo de ganha-ganha. O influenciador ganha conteúdo, seguidores e capital político. O candidato demonstra coragem diante da sua base eleitoral. A militância estudantil confirma o heroísmo da resistência ao fascismo. Todos se valorizam dentro do próprio grupo. Talvez só haja um perdedor: a universidade. Para milhões que jamais pisaram num campus público, a instituição existe através desses cortes. Não aparecem laboratórios, pesquisa, formação profissional ou extensão, mas paredes pichadas, gritos, socos, slogans e militantes. Quando a universidade precisa defender legitimidade e orçamento diante de uma sociedade e de um Congresso cada vez menos simpáticos a ela, servir de locação para a guerra cultural é um péssimo negócio. Os brigões saem cantando vitória, porque a conta fica toda para a instituição. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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