Por que as elei��es nos EUA e em Israel t�m consequ�ncias globais

Por que as elei��es nos EUA e em Israel t�m consequ�ncias globais

Duas eleições realizadas em continentes diferentes, com apenas alguns dias de intervalo, poderão ter consequências profundas para o mundo. Por uma coincidência do calendário eleitoral, milhões de eleitores separados por cerca de 9.600 quilômetros exercerão seus direitos democráticos nesta e na próxima semana. Em Israel, os eleitores foram às urnas na terça-feira (27) para eleger um novo Parlamento. E na terça que vem (3), será a vez dos eleitores dos Estados Unidos escolherem praticamente um novo Congresso (nem todas as cadeiras estarão em disputa). Tip O'Neill, ex-presidente da Câmara dos Representantes dos EUA (equivalente à Câmara dos Deputados brasileira), certa vez teria dito que "toda política é local". Mas as consequências dessas eleições serão, sem dúvida, globais. Isso porque as eleições de Israel e dos EUA não apenas ocorrerão em datas próximas, mas também estão interligadas. O futuro governo de Israel terá um impacto duradouro sobre o Oriente Médio e as guerras em curso na região. E qualquer mudança na composição política de Washington poderá influenciar não apenas essas guerras, mas também o futuro da economia global. Há também uma ligação direta entre as duas eleições: o grupo Republicans Overseas Israel estima que cerca de 500 mil israelenses com passaporte americano podem votar nas duas eleições. Marc Zell, presidente do grupo, afirmou que esses eleitores podem influenciar disputas acirradas nos EUA, como a eleição para o Senado em Michigan, na qual, segundo sua estimativa, seriam depositados 10 mil votos enviados de Israel. "Eles realmente podem fazer a diferença", disse Zell em entrevista à BBC. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Mas a conexão política talvez seja mais profunda e evidente no caso da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã. O ataque aéreo de grandes proporções, iniciado em fevereiro deste ano, destruiu vários alvos militares e matou grande parte da liderança iraniana. Mas não conseguiu derrubar o regime, que reagiu com força em toda a região do Golfo e assumiu o controle do estreito de Hormuz e do fluxo de combustíveis que passava por ele. A própria realização das eleições já influenciou a tomada de decisões. O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, aproveitou a campanha eleitoral para enfatizar a possibilidade de lançar um novo ataque contra o Irã. Ele fez novas alegações, sem apresentar provas, sobre a ameaça nuclear iraniana e voltou a insistir que o regime islâmico precisa ser derrubado. Seu objetivo é reforçar sua reputação como líder na área de segurança, fortemente abalada após os ataques mortais liderados pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, que mataram cerca de 1,2 mil pessoas e levaram 251 reféns para Gaza. O presidente dos EUA, Donald Trump, alimentou as especulações sobre novos ataques ao Irã ao declarar apoio à campanha de reeleição de Netanyahu. Trump afirmou que os dois deveriam "concluir em breve o trabalho" no Irã. Mas, apesar das ameaças, também surgiram relatos contraditórios de que Trump teria intervindo para impedir Netanyahu de atacar o Irã antes do dia da votação, por receio de que uma nova disparada dos preços da energia lembrasse os eleitores americanos da guerra impopular iniciada por seu governo. Um novo ataque ao Irã poderia, então, ser adiado para depois das eleições? A imprensa israelense está repleta de especulações de que Netanyahu poderia tentar garantir sua permanência no poder atacando o Irã na condição de primeiro-ministro interino após as eleições. Segundo essa hipótese, ele defenderia a formação de um governo de unidade nacional —do qual faria parte. Netanyahu é considerado há muito tempo um político com grande capacidade de sobrevivência na política israelense. Se perdesse o poder, enfrentaria uma investigação oficial sobre suas ações antes dos ataques de 7 de outubro, além da retomada de processos judiciais envolvendo acusações de corrupção. As especulações ganharam tanta força que um dos adversários de Netanyahu, o ex-chefe militar Gadi Eisenkot, já descartou participar de qualquer governo de unidade nacional. Assim como os demais políticos das principais correntes de Israel, Eisenkot considera o Irã uma ameaça existencial ao país e apoia ações militares contra o regime islâmico. Mas ele alertou explicitamente contra uma escalada da guerra por motivos políticos. Com a maior parte dos votos contados nas eleições em Israel, o bloco liderado por Netanyahu aparece ligeiramente à frente do bloco de oposição encabeçado por Eisenkot. Nenhuma das duas bancadas políticas deve conquistar as 61 cadeiras necessárias para formar um governo majoritário, o que significa que semanas ou meses de disputas políticas podem estar por vir. Trump certamente poderá estar mais disposto a atacar o Irã depois das eleições legislativas de meio de mandato nos EUA, quando já não estiver sujeito às pressões eleitorais e poderá tentar encerrar sua participação na guerra com uma última ofensiva. Alguns analistas avaliam que o Irã está tão enfraquecido economicamente pela guerra e pelas sanções econômicas que uma nova onda de ataques militares poderia incentivar os iranianos a derrubar o regime. Outros consideram essa avaliação mais uma ilusão. E que é uma estratégia que já fracassou repetidas vezes, mas que ainda encontra defensores na capital americana, Washington D.C.. "Depois das eleições de meio de mandato, ele estará concentrado em seu legado", disse à reportagem um diplomata ocidental bem posicionado. "Ele vai querer demonstrar capacidade de agir em qualquer questão que não seja o atoleiro político interno." Em Israel, há um amplo consenso entre a maioria dos partidos sobre a ameaça representada pelo Irã e a necessidade de contê-lo. Mas, se os eleitores escolherem um novo governo, o país poderá ter um primeiro-ministro com menos interesses políticos e pessoais em lançar novos ataques. Nesse cenário, Trump indicou que também poderá mudar de posição. "Se Israel tiver o líder errado, ou seja, qualquer um que não seja Bibi [apelido de Netanyahu], os EUA terão que fazer esse trabalho sozinhos, e não estou disposto a isso", escreveu nas redes sociais. Não surpreende, portanto, que autoridades no Irã acompanhem as pesquisas de opinião nos EUA tão atentamente quanto os analistas políticos americanos. Mas o risco é que novos ataques após as eleições mergulhem o Oriente Médio em outra onda de caos, caso o Irã reaja com força. Em declarações públicas e conversas privadas, autoridades iranianas ameaçaram atacar aeroportos, oleodutos, cabos submarinos, instalações de energia, usinas de dessalinização, além de bases militares e navios de guerra americanos. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, escreveu no jornal britânico Financial Times que novos ataques colocariam "em grave risco a vida de civis, o bem-estar de todos os países da região e a economia global". As duas eleições também estão interligadas pela economia global. O poder de compra e o custo de vida dominaram as campanhas para as eleições legislativas de meio de mandato nos EUA. Esses problemas foram agravados pela guerra de Trump, que provocou uma alta dos preços à medida que o Irã restringia o fluxo de energia por Hormuz. A economia também é um tema eleitoral em Israel, onde os eleitores enfrentam um custo de vida elevado e baixos salários. Mas, nesse caso, a guerra também tem seu peso, com a disparada dos gastos com defesa pressionando ainda mais as contas públicas. Trump tem tentado conquistar o apoio dos eleitores antes das eleições de meio de mandato. Ele suspendeu sanções contra a Rússia na esperança, até agora frustrada, de que a importação de diesel de Moscou provocasse uma queda significativa dos preços. Também tem adotado uma postura dura em relação à Ucrânia, pressionando a liderança do país a fazer concessões na expectativa, igualmente frustrada até o momento, de apresentar uma vitória na política externa. Mas cresce a insatisfação entre os republicanos com sua estratégia controversa. O senador Thom Tillis, da Carolina do Norte, crítico frequente de Trump, disse à CBS News, emissora parceira da BBC nos EUA: "Se o presidente realmente quiser reduzir os preços da energia, pode fazer isso resolvendo o problema do Irã, e não prestando um grande [favor] a Vladimir Putin." Uma das consequências da guerra contra o Irã, somada às operações militares de Israel na Faixa de Gaza e na Cisjordânia ocupada, é o enfraquecimento do apoio tradicional dos dois principais partidos americanos a Israel. Abdul El-Sayed, candidato da ala esquerda do Partido Democrata ao Senado por Michigan, defende em sua campanha a redução da ajuda militar a Israel. "Um aliado que recebe seu dinheiro para empurrar você para guerras das quais não deveria participar não é um aliado", disse à ABC News. Os EUA e Israel atacaram inicialmente o Irã com o objetivo de destruir seus mísseis balísticos, reduzir sua capacidade nuclear, enfraquecer o apoio iraniano a milícias aliadas e até derrubar o regime. Desde então, o objetivo da guerra mudou para a reabertura de Hormuz. Brad Lander, candidato democrata à Câmara dos Representantes por Nova York, também ligado à ala esquerda do partido, decidiu viajar à Cisjordânia poucos dias antes da votação. Lander ajudou palestinos na colheita de azeitonas e foi detido brevemente por forças israelenses, episódios que serviram de material para sua campanha eleitoral nas redes sociais. Na história da política americana, esse tipo de atitude é incomum. Até mesmo Netanyahu tem alertado que Israel poderá, no futuro, ter que sobreviver sem a proteção militar dos EUA. Se o primeiro-ministro de Israel perder as eleições, sua saída do poder também colocará fim a uma relação de proximidade marcada por atritos e oscilações de Trump entre elogios e críticas. Nas últimas semanas, o presidente americano chamou Netanyahu de "um primeiro-ministro guerreiro". Durante o verão, no entanto, afirmou que ele era "completamente louco". Um novo líder israelense teria que construir uma relação com um presidente americano em fim de mandato, o que representaria uma dinâmica muito diferente. Se os democratas ampliarem seu controle sobre o Congresso, isso poderá impor alguns limites ao apoio irrestrito dos EUA a Israel. O Congresso tem poderes tradicionais que pode usar para restringir os gastos militares. Também poderia reduzir a ajuda militar a Israel. Mas, como presidente, Trump manteria amplos poderes executivos, além do poder de veto, para continuar conduzindo o conflito como considerasse adequado. A decisão de Israel e dos EUA de entrar em guerra contra o Irã no início deste ano transformou a economia global e a geopolítica internacional. As escolhas que os eleitores dos dois países fizerem nos próximos dias poderão determinar os rumos do mundo.

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