Por que a Europa continua sendo atingida por ondas de calor

Por que a Europa continua sendo atingida por ondas de calor

A Europa enfrenta, sob calor sufocante, sua quinta onda de temperaturas perigosamente altas desde maio. E, para os cientistas do clima, a única surpresa é que alguém ainda esteja surpreso. "Há anos dizemos que a queima de combustíveis fósseis continuará aquecendo o planeta", afirmou Matt Patterson, pesquisador de ciências climáticas e aprendizado de máquina na Universidade de St. Andrews, na Escócia. "São os combustíveis fósseis que estão causando isso. De certa forma, é simples assim." Mas ele e outros cientistas também tentam desvendar um enigma mais complexo. Embora esteja claro que o aquecimento global intensifica o calor dessas ondas, os pesquisadores investigam como os padrões atmosféricos que produzem esses fenômenos podem estar mudando e se as atividades humanas são responsáveis por isso. Ou seja, as mudanças climáticas talvez não estejam apenas intensificando o calor. Elas também podem estar distorcendo os padrões de calor, com a Europa Ocidental sofrendo particularmente os efeitos. Para os europeus, este verão pode ser lembrado por ter começado a esquentar cedo e quase não ter dado trégua. Na França, as temperaturas bateram recordes diários de calor no fim de maio, antes de pulverizar recordes mensais em junho e julho. No auge, a onda de calor de duas semanas em junho foi mais intensa do que a onda de 2003, que matou quase 15 mil pessoas no território francês e dezenas de milhares em outros países europeus. Além disso, a mais recente onda de calor na França, que começou em 28 de julho, já superou a de 2003 em duração. Na Inglaterra e no País de Gales, as temperaturas máximas médias diárias ficaram acima do normal em todos os dias de julho, segundo o Met Office, o serviço meteorológico britânico. O número de dias neste ano em que as temperaturas ultrapassaram 30 graus Celsius —um patamar assustador para os britânicos— já havia batido um recorde no início deste mês, quando ainda restavam várias semanas de verão. Os piores desses períodos de calor resultam de domos de calor: gigantescas massas de ar de alta pressão que ficam estacionadas, dissipando as nuvens e aquecendo a terra abaixo delas por dias ou até semanas. Quando se instalam sobre a Europa Ocidental, esses sistemas impedem a entrada de ar fresco proveniente do Atlântico Norte e podem atrair ainda mais ar quente do norte da África. Os padrões meteorológicos que criam domos de calor não são novos, mas hoje ocorrem em meio ao aquecimento provocado pelas emissões de gases de efeito estufa. Isso aumenta a probabilidade de que as ondas de calor atinjam temperaturas recordes por longos períodos. Porém, outras mudanças ambientais também podem estar fazendo com que os domos de calor se tornem mais frequentes e duradouros. E são essas mudanças que cientistas do mundo todo estão tentando desvendar. Uma dessas mudanças está relacionada ao Ártico. As diferenças de temperatura entre o equador quente e o extremo norte gelado ajudam a manter os sistemas meteorológicos em movimento pelo Hemisfério Norte. Mas, como o topo do mundo agora aquece a um ritmo várias vezes maior que o restante do planeta, esses gradientes de temperatura estão diminuindo. Isso pode tornar mais lentos os movimentos dos sistemas meteorológicos, gerando ondas de calor mais persistentes. Na Europa, a redução da poluição do ar pode estar produzindo um efeito semelhante. As emissões industriais podem conter partículas chamadas aerossóis, que refletem a luz solar. A redução dos aerossóis melhorou a qualidade do ar, mas também pode ter alterado a forma como o ar circula pelo continente. Os cientistas ainda não chegaram a conclusões definitivas sobre como essas mudanças podem estar afetando os verões europeus, afirmou a cientista climática Antje Weisheimer, da Universidade de Oxford. Segundo ela, as interações complexas e de pequena escala na atmosfera que determinam a dinâmica do tempo são difíceis de reproduzir em simulações computacionais. "É complicado, estamos avançando aos poucos." Dim Coumou, professor de ciência climática da universidade holandesa VU Amsterdam, vê a inteligência artificial como um caminho promissor. Em um estudo recente, ele e seus colegas usaram um algoritmo de IA para ajudar um modelo meteorológico a prever melhor as temperaturas do verão na Europa. O grupo não apenas aprimorou as previsões do modelo, como também descobriu por que algumas delas estavam erradas: o modelo representava de forma equivocada como as condições no oeste do oceano Pacífico influenciavam padrões atmosféricos que, por fim, chegavam à Europa. Com a IA, "também podemos descobrir o que os modelos climáticos não estão captando", disse Coumou. Em última análise, todas essas pesquisas buscam responder a uma questão vital para o futuro da Europa: com que frequência o continente pode esperar ser atingido, a cada verão, por longos períodos de calor? E quanto tempo eles podem durar? "Se for uma onda de calor de poucos dias, a sociedade consegue lidar muito, muito melhor com a situação", disse Weisheimer. Mas, quando o calor extremo se prolonga por semanas, "isso se torna um problema para a agricultura, para o abastecimento de água, para tudo o que se possa imaginar".

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