Podemos n�o querer morrer v�timas do lixo?

Podemos n�o querer morrer v�timas do lixo?

Conheci a palavra lixo muito antes de aprender a ler. O cheiro de chorume subia tão alto em dias de chuva que era impossível respirar. Era o odor do lixão que existiu por 28 anos em Perus, meu bairro, na região noroeste da capital paulista. Durante todo esse tempo, toneladas e toneladas de lixo de toda a cidade vinham morar debaixo de nossos narizes. "Perus, o grande lixão da cidade mais rica do Brasil." Com muita luta, meus vizinhos fecharam o aterro. É algo histórico, já narrado por esta Folha. Eu tinha 10 anos quando o movimento visitou minha escola e deixou um panfleto que dizia "Lixão + 1 não". Já sabendo ler, peguei a palavra lixão na mão e fui até a sala da diretora para pedir que fizéssemos alguma coisa. O que responder a uma criança que tem raiva e vontade de mudar o local onde mora? Entendi bem cedo que era preciso juntar muita gente para ler essa palavra em voz alta e lutar contra ela. De tempos em tempos, o leviatã "lixológico" levanta a guarda e, infelizmente, ataca novamente no bairro. Há pouco mais de um ano, nós, moradores, descobrimos que a Prefeitura de São Paulo havia aprovado a construção das chamadas unidades de recuperação energética em quatro locais da cidade, sendo uma delas em Perus, junto à concessionária Loga. Em outras palavras, um incinerador de lixo. O nome assusta, deve ser por isso que mudaram. Lembra algo como queimar gente viva. Queimar futuro. Queimar sonhos. Queimar. Apelidaram o projeto de ecoparque. Mas de parque não tem nada, muito menos de eco(lógico). É só a palavra bonita que inventaram para trazer toneladas de lixo para sujar Perus mais uma vez. A atual gestão desconsiderou o Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, criado em 2014, a partir da participação popular de mais de 800 pessoas, em 58 encontros, cuja diretriz principal sempre foi dizer "não à incineração de resíduos sólidos". Alvo de protesto de moradores de Perus em maio, a prefeitura disse que os equipamentos previstos seguem parâmetros rigorosos e não oferecem riscos à saúde da população "quando operados em conformidade com as normas ambientais vigentes". Essas "máquinas" queimam principalmente papel e plástico, disputando o material de maior valor para as cooperativas de reciclagem e acabando com o trabalho de catadoras e catadores de toda a cidade. Desde 2024, o Instituto Pólis, o Observatório do Clima, a Aliança Resíduo Zero Brasil e outros coletivos vêm denunciando o projeto dos incineradores na cidade, incluídos na prorrogação por mais 20 anos das concessões de serviços de limpeza sem a devida licitação. "A cidade decidiu em 2014, num processo participativo, que não queria incineração, e agora recebe quatro incineradores contratados sem licitação e sem consulta. Enquanto em Pinheiros a prefeitura celebra a revitalização de um antigo incinerador, ela exporta a poluição para os bairros pobres da periferia. Os equipamentos vão para os bairros que menos participaram dessa decisão e que mais vão conviver com as emissões", diz Victor Argentino, do Instituto Pólis. "Existe uma escolha de território aí, com clara reprodução dos mecanismos de racismo ambiental na produção da cidade, e ela precisa ser explicada à população", acrescenta. Em julho deste ano, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo pediu à Justiça a anulação das cláusulas que autorizam a construção dos quatro incineradores de lixo na capital paulista, um "investimento" de R$ 7,48 bilhões. Um incinerador é um dos modos mais eficazes de dizimar o futuro de uma população. O professor Jeffer Castelo Branco, diretor da Associação de Combate a Poluentes (ACPO), explicou algo que me entristeceu profundamente. "As substâncias que são emitidas por essas máquinas, que muitas vezes não estão sob qualquer controle, são poluentes que interferem no sistema hormonal, sendo o sistema hormonal da mulher o mais atingido, por ser mais complexo, por ser apto a gerar vida. [Os poluentes tóxicos] podem causar problemas no desenvolvimento fetal e no desenvolvimento infantil, que vão causar problemas na vida adulta. Implantar um incinerador é expor a população ao risco." Por isso, em 2025, criamos o movimento "Incinerador de lixo em Perus, não". Apoiamos também a campanha "Não queime nosso futuro!", que alerta sobre os perigos da incineração de lixo. Como podem ver, é um monstro com muitos tentáculos e sobrevive dos restos de sujeira que vive no subterrâneo de quem tem poder e dinheiro. Ele muda de roupagem, se atualiza, usa tecnologias para disfarçar a cara feia do passado. Mas quem nasceu respirando lixo e viu gente sua morrer pelo monstro invisível que habita o ar sobre todas as cabeças não se convence com lorota. A palavra Perus, do tupi, significa águas entre as pedras. Mas as águas estão paradas, e o lixo quer de novo tomar conta de tudo. Você consegue imaginar o que é ter um lixo sobrevoando sua cabeça, como um drone intacto, com potencial de matar dezenas, milhares, ao longo dos anos? Eu queria muito escrever sobre memória, inventar uma ficção bonita e gostosa de ler, agradecer por mais um dia com gratidão, mas abri a janela e a nuvem do futuro apareceu cinza e ácida. Neste domingo, 20 de setembro, o movimento contra a incineração estará na Marcha pelo Clima 2026, na cidade de São Paulo , a partir das 14h, com saída da praça Lasar Segall, na rua Domingos de Morais, próximo à estação Vila Mariana do metrô (zona sul). Se você também não quer que a poluição do ar chegue até a sua família, junte-se a nós. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? 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