Os novos resultados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) deveriam provocar no Brasil mais do que preocupação. Deveriam provocar uma mudança de estratégia. O Pisa 2025 mostrou que o estudante brasileiro alcançou 408 pontos em leitura, contra 461 pontos na média dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Mais grave do que a diferença é aquilo que está por trás dela: somente 49% dos jovens de 15 anos atingem ao menos o nível dois de proficiência em leitura, considerado um patamar básico. Na média da OCDE, são 69%. E apenas 1% chega aos níveis mais elevados, contra 6% na OCDE. Isso significa que aproximadamente metade dos nossos jovens ainda não demonstra competências mínimas de compreensão e interpretação esperadas pelo Pisa. Não estamos falando apenas de saber ler palavras, mas de compreender, utilizar, avaliar e refletir sobre textos. Na verdade, estamos diante de um problema maior do que a alfabetização. Estamos falando da capacidade de compreender o mundo. É preciso reconhecer que o Brasil avançou em uma perspectiva histórica mais longa. Segundo o Inep, entre 2006 e 2025 a diferença em leitura entre o país e a média da OCDE caiu de 102 para 58 pontos. Mas reconhecimento não pode virar acomodação. Os resultados de 2025 permaneceram praticamente iguais aos de 2022 e próximos dos níveis observados desde 2015. Depois de uma década, continuamos praticamente no mesmo lugar em leitura. Durante muito tempo, tratamos a leitura principalmente como responsabilidade da Língua Portuguesa. Mas um aluno precisa interpretar um problema de matemática, compreender um gráfico, ler um contrato ou tomar uma decisão financeira. A leitura atravessa praticamente todas as decisões da vida. Mais do que fazer o aluno ler mais, precisamos criar situações em que ele precise interpretar, discutir e tomar decisões a partir do que lê. É nesse ponto que a experiência do IBS com jogos pedagógicos tem mostrado um caminho promissor. Em um jogo, o aluno lê porque precisa daquela informação para agir: compreender uma regra, interpretar uma carta, avaliar alternativas, calcular consequências ou mudar de estratégia. Leitura, matemática, argumentação e raciocínio passam a aparecer de forma integrada. O aluno lê para resolver um problema. O jogo não substitui o professor e também não é uma solução mágica. A diferença está na metodologia, na mediação do educador e na intencionalidade. E há uma convergência importante entre aquilo que se mede e aquilo que uma boa aprendizagem baseada em jogos pode estimular. O Pisa procura saber se o estudante consegue usar o que aprendeu diante de situações da vida real. Um jogo pedagógico bem construído faz justamente isso ao apresentar escolhas e consequências. Isso não significa afirmar que os jogos resolverão o desempenho do brasileiro. Mas metodologias ativas, quando estruturadas e acompanhadas por formação docente, podem fazer parte da resposta. O desafio seguinte é transformar evidência em política pública. Experiências bem-sucedidas ainda permanecem restritas a escolas, municípios ou organizações e precisamos levá-las a milhares de escolas, sem perder qualidade, formação docente e acompanhamento. E em uma sociedade inundada por informação e desinformação, compreender o que se lê tornou-se uma competência de cidadania. Quem não compreende bem um texto terá mais dificuldade para aprender matemática, interpretar ciência, administrar sua vida financeira, identificar uma notícia falsa, compreender seus direitos e participar plenamente da sociedade. Por isso, melhorar a leitura brasileira não é tarefa exclusiva dos professores de português. É tarefa da escola inteira. E talvez seja hora de entendermos que aprender pode envolver também jogar, decidir, experimentar, errar e tentar novamente. Os números mostram onde estamos. As experiências que já apresentam resultados nos mostram os caminhos possíveis. O que não podemos aceitar é passar mais dez anos discutindo o problema para, no próximo Pisa, descobrir que continuamos no mesmo lugar. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Pisa mostra que Brasil parou no mesmo lugar
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