Petrobras diz que eventual vazamento de �leo passaria a 60 km da costa amaz�nica, mas vigiar� parque

Petrobras diz que eventual vazamento de �leo passaria a 60 km da costa amaz�nica, mas vigiar� parque

A Petrobras decidiu monitorar a porção norte do Parque Nacional do Cabo Orange –uma unidade de conservação na ponta mais ao norte do Amapá, com uma extensa faixa de mangues e floresta–, apesar de reiterar que um eventual vazamento de óleo no chamado bloco 59 não tocaria a costa brasileira. Por exigência do licenciamento, que está a cargo do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), a estatal precisou elaborar modelagens sobre o comportamento do petróleo em caso de vazamento e planos de resgate de fauna, com disponibilidade de embarcações e construções de centros de apoio a animais eventualmente impactados pelo óleo. Um modelo de 2022 afirma que o óleo, em caso de vazamento, não tocaria a costa brasileira, mas se dispersaria rumo a ilhas do Caribe, podendo chegar a Barbados, Granada, Guiana, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Suriname, Trinidad e Tobago e Venezuela, além de Guiana Francesa e Martinica (ambos territórios franceses). Em documentos recentes enviados ao Ibama, antes do anúncio de detecção de hidrocarbonetos no poço perfurado no bloco 59, na bacia Foz do Amazonas, a Petrobras voltou a afirmar que, em caso de vazamento na exploração dos poços, o óleo não tocaria a costa amazônica. "Os resultados da modelagem indicam que, mesmo nos cenários de pior caso e sem considerar as ações de combate e resposta ao óleo derramado, após 30 dias e um potencial acidente, o óleo permaneceria na região marinha, a uma distância aproximada de 60 km da linha de costa brasileira", disse a estatal, num documento assinado em 3 de julho. Houve prioridade para atividades de manejo de fauna em alto-mar, diante desse cenário. Mas a Petrobras incluiu o Cabo Orange, o trecho de terra mais próximo do bloco 59, nas medidas de monitoramento. "De forma conservadora, a Petrobras destinou recursos logísticos e humanos para as ações de monitoramento costeiro na fração norte do Parque Nacional do Cabo Orange, próximo à foz do rio Oiapoque, em Oiapoque (AP)", cita o documento. O plano de proteção à fauna, elaborado para a exploração dos poços no bloco 59, cita a "sensibilidade ecológica" da unidade de conservação. O bloco, onde a Petrobras pretende explorar quatro poços para tentar confirmar a existência de petróleo em escala comercial, fica a uma distância entre 160 e 179 km da costa de Oiapoque. Em 2024, a reportagem da Folha esteve na parte norte do Cabo Orange, que é onde agora, com o avanço da prospecção dos poços e detecção de indícios de petróleo, a estatal prevê um monitoramento costeiro, como medida de segurança ambiental. Os 590 km de litoral por onde se estende o Cabo Orange são um gigante berçário de peixes, uma área de mangue e floresta que garante a alimentação e reprodução dos animais e a sobrevivência de milhares de pescadores. Esses pescadores trafegam o tempo todo pelo rio Oiapoque, que desemboca no mar, e por água salgada, mar afora. A lógica da pesca vale para os dois lados do rio. Em um lado está Oiapoque. No outro, a Guiana Francesa. Na região também estão territórios tradicionais onde vivem 12 mil indígenas, de quatro etnias, cuja subsistência depende do ciclo das marés e da qualidade ambiental para pesca, caça e roçados. As lideranças dizem que os indígenas não foram consultadas pela Petrobras a respeito do consentimento ou não para o empreendimento de petróleo. O Ibama diz que tem buscado "crescente segurança técnica" para a tomada de decisões no licenciamento e que está ciente da "sensibilidade ambiental" da região. O órgão pediu uma atualização do modelo de dispersão de óleo, em caso de vazamento, uma vez que a Petrobras pediu para perfurar mais três poços próximos. A estatal planeja gastar R$ 3,3 bilhões com a perfuração dos quatro poços e entende que essa prospecção conjunta –que pode avançar por 2027– permitirá dizer a extensão de eventuais reservas de óleo. Estudos científicos independentes, MPF (Ministério Público Federal), lideranças indígenas e de pescadores e gestores do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), responsável pela administração e fiscalização do Cabo Orange, já afirmaram que, em caso de vazamentos, pode haver transporte de óleo até a costa brasileira. Seria um movimento semelhante ao de objetos perdidos no mar, arrastados para a costa, na altura de Oiapoque, pela dinâmica das correntezas. Isso já ocorreu com restos de um foguete e de um barco. A Petrobras disse que contratou empresa de referência mundial para a elaboração dos modelos de dispersão de óleo e que atendeu às exigências do Ibama. Não há probabilidade de toque do óleo na costa brasileira e é bem remota a possibilidade de que isso ocorra em outros países em caso de vazamentos, segundo a estatal.

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