Pegadas deixadas às margem do lago Turkana, no norte do Quênia, há cerca de 1,43 milhão de anos estão fornecendo novas informações sobre o tamanho e o comportamento de uma espécie da linhagem evolutiva humana que foi a última de seu tipo: a Paranthropus boisei. Em um artigo publicado na última segunda-feira (27) na revista PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences), pesquisadores descrevem a identificação de 21 pegadas de oito indivíduos da espécie de homíninio —membros do grupo de primatas mais próximo de nós. Os cientistas atribuíram as pegadas à espécie com base no formato do pé e no modo de andar. Além disso, devido ao tamanho delas, concluíram que provavelmente foram deixadas por machos adultos, que estariam caminhando juntos. Com base no achado, supõe-se que os machos às vezes atravessavam a paisagem em grupos, sem fêmeas ou jovens. "É mais um registro incrível que nos dá pistas sobre como esses homíninios eram, como caminhavam e como interagiam entre si e com seus ambientes", disse o paleoantropólogo Kevin Hatala. Autor do novo estudo, ele é ligado à Universidade Chatham, em Pittsburgh (Estados Unidos), e ao Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha. Outras pegadas atribuídas à espécie, um pouco mais antigas do que essas, haviam sido descritas em um estudo que saiu em 2024. Elas indicavam que o Paranthropus boisei habitou a região ao lado de Homo erectus, espécie mais proximamente relacionada à nossa. "O Paranthropus boisei é mais conhecido por seus crânios extremamente robustos e dentes muito grandes. Do pescoço para baixo, não sabíamos muito sobre sua anatomia", afirmou Hatala. A espécie possuía uma crista no topo do crânio, como os gorilas machos, para ancorar grandes músculos de mastigação, e molares três vezes maiores que os nossos. Sua dieta pode ter incluído gramíneas, plantas de áreas alagadas chamadas juncos, nozes e sementes. As dimensões corporais dos Paranthropus boisei são menos conhecidas. As pegadas sugerem uma altura de até 1,83 metro e peso de mais de 70 kg, maior do que estimativas anteriores e rivalizando em tamanho com o Homo erectus. "Por muito tempo se pensou que fossem menores do que o Homo erectus contemporâneo, que se acredita ter sido muito semelhante a nós em tamanho e forma corporal. Mas talvez o Paranthropus boisei também tenha sido capaz de atingir tamanhos corporais semelhantes aos dos Homo sapiens, apesar de uma anatomia craniana que parece indicar um tipo de dieta muito diferente", explicou o paleoantropólogo. Os pesquisadores usaram cinzas vulcânicas nas rochas ao redor para datar as pegadas. Junto com as pegadas, havia rastros de hipopótamos, antílopes, aves e outros animais. As pegadas indicam que os oito indivíduos estavam se movendo perpendicularmente à linha da costa, entrando e saindo de águas um pouco mais profundas, de acordo com a coautora do estudo Kay Behrensmeyer, curadora de paleontologia de vertebrados no Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, em Washington. "Não sabemos o que eles estavam fazendo ali", acrescentou ela. As possibilidades incluem busca por comida ou água, patrulha de segurança ou simplesmente um passeio entre companheiros. "Outra possibilidade é que isso representasse um grupo de machos solteiros, semelhante ao que vemos em primatas como os gorilas, que têm uma estrutura social na qual um macho dominante monopoliza o acasalamento para si e afasta outros machos das fêmeas. Isso pode fazer com que machos deslocados se agrupem por conta própria", disse o biólogo Neil Roach, da Universidade Harvard, coautor do estudo. Ainda segundo ele, as pegadas sugerem que a estrutura social dos Paranthropus boisei permitia que machos tolerassem outros machos, pelo menos em certas circunstâncias. Acredita-se que o Paranthropus boisei tenha sido extinto há cerca de 1,2 milhão de anos, em uma época de mudanças climáticas que podem ter afetado a oferta de alimentos. O Homo erectus e a nossa espécie pertencem ao gênero Homo. Um gênero é um grupo de espécies intimamente relacionadas que compartilham características semelhantes. Por exemplo, leões e tigres são do mesmo gênero, mas representam espécies diferentes. O Paranthropus boisei surgiu há cerca de 2,3 milhões de anos. Foi a última das três espécies do gênero Paranthropus, que remonta a cerca de 2,7 milhões de anos. Acredita-se também que tenha sido a última espécie de hominínio que não fazia parte do gênero Homo. A competição com o Homo erectus não pode ser descartada como um fator na extinção do Paranthropus boisei. Acredita-se que o Homo erectus, com dentes menores e mandíbulas mais fracas, consumia vegetação menos resistente e mais carne, porém alguns recursos alimentares podem ter se sobreposto. "Por exemplo, talvez ambas as espécies acessassem recursos alimentares semelhantes em ambientes às margens de lagos, mas depois divergissem em termos dos outros componentes de suas dietas", afirmou Hatala.
Pesquisadores identificam 21 pegadas de esp�cie humana primitiva no Qu�nia
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