Imagens de pessoas escravizadas no Brasil estão sendo reconstruídas graças à inteligência artificial generativa. A ideia de recriar os retratos surgiu de uma pesquisa da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e faz parte do projeto Biografias Imaginadas. A iniciativa é coordenada pela historiadora Marialva Barbosa, da Escola de Comunicação. Para gerar os retratos, ela usou descrições baseadas em processos penais e fichas de prisioneiros negros da Casa de Detenção da Corte, que constam do Arquivo Nacional e do Tribunal de Justiça do Rio. Também recorreu a anúncios de jornal que citavam fugas e características das pessoas escravizadas. A partir dos comandos, a inteligência artificial generativa foi montando os rostos e os corpos, com detalhes nas vestimentas. Na Bahia, uma iniciativa do Arquivo Público do estado criou o projeto Fragmentos da Memória, que também tem feito a reconstrução histórica de retratos de pessoas escravizadas. Na pesquisa da UFRJ, são sete personagens, com três imagens recriadas. O trabalho é dividido em etapas, que vão desde o pedido de criação dos rostos à geração de trajetos de pessoas escravizadas. A professora diz que começa pelo acesso às páginas dos processos penais e jornais. Depois, faz uma digitalização de documentos com a IA e só então passa as coordenadas para a máquina. "Descobri assim, a partir sempre de uma notícia de jornal [da época]. E fui atrás. [Mas] a principal peça de pesquisa é o processo penal", afirma. Entre os traços descritos nos documentos, estão textura do cabelo, espessura do nariz e tamanho da boca e dos olhos, entre outros. Essas informações são usadas para dar à IA os dados necessários para o resultado se aproximar do que o documento registra. "Quando eu faço rosto, é com base nas descrições dos jornais, da ficha. E são as descrições das características deles mesmos", diz. Depois, há um processo de verificação dos resultados apresentados pela IA. "Eu vou checar palavra por palavra." A tecnologia reduziu o tempo de investigação, diz a docente. "Esse trabalho que eu levava seis meses para ler cada processo antes da IA, agora faço em 15 dias. Porque ela é capaz de ler aqueles garranchos do século 19". Por outro lado, muitas vezes o pedido precisa ser refeito, quando a IA não entende as orientações. "Se eu deixar qualquer coisa, qualquer brecha, ela faz errado. Ela faz um calçamento de paralelepípedo, não existia isso na época", diz a pesquisadora. Um cuidado que a pesquisa teve foi colocar marcas de nação, que eram sinais atribuídos a cada pessoa e seu povo antes de serem escravizadas, como em Manoel Moçambique, que era do povo banto. "Transformar essas descrições em corpos que podem ser visualizados, não só uma materialidade, mas sobretudo uma proximidade emocional com essas pessoas. A gente pode exclamar que eles existiram", diz a professora. Ela afirma que é importante ser transparente com o leitor no uso da IA e a maneira como a máquina lida com as informações. "Nós somos capazes de imaginar um passado. As inquietações são sentimentos, mas a IA é zero sentimentos." Para a docente, o trabalho pode ajudar no debate sobre racismo no Brasil. "Eles [os escravizados] não eram considerados como pessoas que tivessem qualquer humanidade", afirma Barbosa. "Eles eram considerados sempre como mercadorias. [Os corpos negros] eram uma escultura da miséria, a própria negritude. Foi tão forte na sociedade brasileira que você produz racismo cotidiano sem achar que está produzindo." Para ela, a pesquisa mostra o aspecto positivo do uso de inteligência artificial. "A IA coloca em risco a humanidade, mas pode mostrar que houve outras humanidades que não são consideradas até hoje. É um uso contemporâneo das possibilidades para mostrar o nosso incontornável passado." O livro "Vidas Escravizadas", com as imagens já criadas, deve ser publicado no ano que vem. O objetivo da professora agora é ampliar a pesquisa e a reconstrução das imagens de pessoas escravizadas e ex-escravizadas mais velhas.
Pesquisa da UFRJ recria rostos de pessoas escravizadas com intelig�ncia artificial
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