Pernetta, Vieira e o pacto pela crian�a

Pernetta, Vieira e o pacto pela crian�a

Cada povo tem diante de si o seu futuro, não como uma ideia abstrata, insondável e imprevisível, mas representado por uma realidade concreta, que é a criança. Concreta e inteiramente à mercê de cuidados alheios. O futuro de uma comunidade está na estreita dependência do zelo que esta comunidade dispensar à criança. Nesta segunda-feira (12), Dia das Crianças, esse trecho do discurso de posse de Cesar Pernetta como professor catedrático de pediatria da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), no fim da década de 1960, deveria ser a profissão de fé de todos os governantes e cidadãos comuns deste país. Infelizmente, ainda não é. Mas é possível mudar essa realidade. Voltemos um pouco no tempo. Certamente, o passado brasileiro no cuidado à criança é desabonador. Começa com os pequenos portugueses que sofriam trabalhos extenuantes, maus-tratos e abusos nas caravelas que partiam rumo à Colônia. Passa, também, pelos maus-tratos físicos e a evangelização forçada dos pequenos guaranis e chega aos filhos dos escravizados, cuja única função era manter o aleitamento de suas mães aos bebês dos senhores de engenho. Mas, por outro lado, não há dúvidas de que avançamos muito nos últimos anos. A mortalidade infantil caiu de 162 por mil nascidos vivos, em 1930, para cerca de 12 por mil nascidos vivos em 2022. Bom, sem dúvida, mas estamos longe da média da OCDE, que é de 4 por mil nascidos vivos. A taxa de analfabetismo despencou de 65%, nos anos 1920, para cerca de 5% nos dias de hoje. Mas o que significa, de fato, ser alfabetizado? Ler um bilhete? Escrever o próprio nome? Certamente, é muito mais do que isso. E o exame Pisa prova com resultados contundentes e desanimadores: apenas 49% dos estudantes brasileiros de 15 anos é capaz de ler com proficiência, em comparação a 69% da média da OCDE. E o que significa, exatamente, ler com proficiência? Compreender a ideia principal de um texto, refletir sobre o mesmo e trabalhar conceitos abstratos. E quantos alunos exibem proficiência máxima? 1% no Brasil e 6% na média da OCDE. Pois é... Vamos agora para o quesito de cobertura vacinal. Depois de apresentarmos ao mundo um modelo de vacinação universal com a criação do programa nacional de imunizações na década de 1970, com consequente queda das doenças imunopreveníveis, assistimos a uma lamentável queda da cobertura vacinal e ressurgimento de doenças como sarampo. Ou seja, aqui andamos para trás. Percebem que o Brasil já encontrou respostas para os problemas relacionados à infância no passado recente? A criação do SUS (Sistema Único de Saúde) é apenas um dos exemplos inequívocos de nossa capacidade de inovação. E agora precisa encontrar soluções que preparem nossas crianças também para os desafios deste mundo em permanente transformação. Precisamos sair desse atoleiro! Que costumes precisam ser abandonados e que causas precisam ser abraçadas para que as crianças adquiram as habilidades necessárias para um futuro melhor? De um lado, abandonemos a imersão desenfreada em mídias sociais e o consumo de alimentos ultraprocessados, reduzamos o tempo de tela, combatamos o preconceito e eliminemos a indiferença com o meio ambiente. Por outro lado, aumentemos o tempo de convivência com a família e o dedicado à atividade física, promovamos o consumo de alimentos saudáveis, estabeleçamos um limite mínimo de idade para o uso de inteligência artificial, estimulemos a leitura diária, realizemos educação financeira e ambiental das famílias —e, por fim, incentivemos o envolvimento com a comunidade e ações de solidariedade com o próximo. Muita coisa? Sim, mas precisamos começar este pacto nacional pela infância. Quando? Agora! Encerro com um trecho do "Sermão das Exéquias do Conde de Unhão - D. Fernão Telles de Menezes", pregado na vila de Santarém, em Portugal, em 1651 pelo padre Antônio Vieira: "As nossas acções são os nossos dias; por ellas se contam os annos, por elles se mede a vida: em quanto obramos racionalmente, vivemos; o demais tempo duramos". Mãos à obra pela criança brasileira! TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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