No dia em que não (enxergo o que) produzo, me sinto mal. Tem dias em que não consigo escrever mais do que uma página, não busco filho na escola, não molho a camisa de suor, não visito meus pais, não participo de nenhuma reunião. Sou cobrada por uma voz utilitarista profissional-doméstico-familiar-social que não tolera um minuto sem algum vestígio de utilidade e vive contabilizando os resultados em pequenos checks dopamínicos. Feito. Feito. Feito. Para essa voz histérica e estridente, sem algum desempenho nomeável, o dia não vale. Acabamos de conquistar o fim da escala de trabalho 6 por 1. A necessidade, talvez vício, de nos mantermos permanentemente conectados impõe outra escala que nenhuma lei consegue abolir: a 7 por 0. De que adianta trabalhar menos horas na farmácia ou no escritório, se não sabemos o que fazer, e principalmente o que não fazer, nas horas em que não estamos confinados nas quatro paredes da obrigação? Perdemos a familiaridade com o prazer gratuito: ler sem procurar uma lição, ouvir (e só ouvir) uma música, reunir as amigas para rir de bobagens, tirar uma foto sem publicar. São pequenas coisas que passamos a considerar secundárias e, de algum modo, inúteis. E são: afinal, pra que serve olhar o mar? Quanto menos tempo temos, mais imprescindível nos sentimos. É claro que para muita gente trabalhar sem descanso não é escolha, é sobrevivência. Mas há também quem faça da agenda lotada um indicativo de importância. É muito mais chique dizer que se está em reunião do que sentado num banco de praça seguindo uma formiga carregando uma folha. Reclamamos da falta de tempo. Mas não é isso. O que falta é espaço para assimilar o tempo que vivemos. Acumulamos acontecimentos, informações, experiências, mas raramente deixamos que alguma coisa assente. Um pensamento mal se forma e já procura outro estímulo. "Consumir" informação, se é que cabe o verbo, numa velocidade que não permite digeri-la, esgota mais do que o estimula. Em outros tempos –não necessariamente melhores do que hoje–, o prestígio também se media pela liberdade das pessoas de não estarem submetidas ao relógio. Um homem de "espírito", o bel esprit, era um homem de grandes ideias e de pequenos gestos, lentos. Os romanos chamavam o ócio digno de "otium" e de "neg-otium" a sua negação. A liberdade de contemplar pertencia a quem podia dispor do próprio tempo. Mas a lentidão do nobre nunca foi de graça, a conta era paga pelo "negotium" alheio, feito por quem não tinha o direito de parar. Aos demais, restava a engrenagem da sobrevivência, feita de obrigações produtivas. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Com o tempo, essas duas figuras parecem ter se fundindo e passaram a coabitar o mesmo corpo, funcionando como senhores e escravos de si mesmos. Dias atrás li sobre pesquisas que investigam os efeitos do repouso em vigília sobre a memória. Depois de aprender alguma coisa, ficar alguns minutos em silêncio, sem se ocupar imediatamente com outra tarefa, ajuda o cérebro a conservar melhor as informações. Ou seja, o cérebro continua trabalhando enquanto aparentemente não fazemos nada. Finalmente a ciência encontrou uma utilidade para a inutilidade. Agora só falta algum aplicativo ou anel que cronometre os dez minutos de repouso, estabeleça metas de silêncio e emita relatórios sobre a eficiência da nossa inatividade. Seria mais uma tarefa para a agenda: não fazer nada, das 14h às 14h10. Check! LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Pelo fim da escala 7 x 0
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