Pe�a de Nelson Rodrigues revela anatomia do cancelamento em cena

Pe�a de Nelson Rodrigues revela anatomia do cancelamento em cena

No asfalto, o homem morria. Não um sujeito qualquer, mas o desconhecido sem nome que sangrava na via pública enquanto a cidade assistia com a habitual e metódica indiferença dos transeuntes. E então, no meio da matéria fria e da poeira da rua, veio o beijo. Não um gesto de devassidão, entenda-se, mas o gesto puro, o susto misericordioso do rapaz Arandir diante da morte do outro. Pois foi esse ato de compaixão que bastou para acionar a grande e hedionda maquinaria do mundo. É essa a tragédia que em cartaz no Teatro Gláucio Gil, em Copacabana, na encenação de "O Beijo no Asfalto" dirigida por Marco André Nunes e produzida por Rafael Raposo. Nelson Rodrigues escreveu a peça em 1960 a pedido de Fernanda Montenegro para o "Teatro dos Sete", mas o que se vê no palco carioca é a anatomia exata da nossa devassidão cotidiana. O homem contemporâneo imagina ter inventado o tribunal do cancelamento, a mentira que vira fato consumado antes do amanhecer e a proliferação descontrolada de versões. Ilusão. O texto já havia desenhado cada engrenagem desse processo há mais de sessenta anos. Na montagem, fica cristalino que a ruína de Arandir não nasce da carne, mas do verbo. A palavra, no universo rodriguiano, transcende o ornamento para assassinar reputações. Cada figura em cena ostenta sua própria emissão vocal como quem empunha uma arma. O delegado Cunha, feito por Ernani Moraes, encarna a truculência da autoridade que não busca a verdade, mas o culpado conveniente. O repórter Amado Ribeiro, na pele de André Mattos, destila o cinismo calculista da imprensa sensacionalista, transformando a dor alheia em mercadoria. Luisa Arraes confere a Selminha a hesitação da esposa corroída pela dúvida semeada dia a dia. Nina Tomsic, como Dália, atua nas frestas do dito e do não dito, desestabilizando o lar com a força devastadora da insinuação. A montagem compreende que o texto é ritmo, pausa e respiração, mostrando que a mentira ganha status de verdade incontestável quando dita com a convicção do microfone ou da farda. Se a dramaturgia é implacável, a encenação busca extrair do espaço uma voltagem física e sufocante. A iluminação de Renato Machado projeta sombras pesadas sobre o solo, desenhando a mancha invisível do cadáver e banhando o espaço com tonalidades rubras. Os figurinos sóbrios de Ronald Teixeira mantêm o rigor da época de ambientação, ressaltando o espartilho moral da classe média carioca do século passado, enquanto a trilha de Felipe Storino resgata "De Frente pro Crime", de João Bosco e Aldir Blanc, para sublinhar a vocação voyeurística da multidão diante do sangue alheio. Há, contudo, um impasse técnico na física do espetáculo. A montagem propõe ocupar o Teatro Gláucio Gil em uma disposição de arena, cercada pela plateia. No entanto, a movimentação do elenco e a cenografia de Aurora dos Campos preservam a leitura do palco italiano frontal. O resultado é um ponto cego real: quem se senta nos setores laterais perde elementos visuais vitais, como o painel de fotografias que ornamenta a cena. Por ironia do destino, o defeito espacial vira uma metalinguagem involuntária, pois em uma obra sobre a impossibilidade de se enxergar a verdade inteira diante dos relatos editados, parte do público é forçada a assistir a uma versão parcial da própria encenação. No elenco, a grande virtude reside na recusa do escândalo histérico. Eduardo Sterblitch constrói um Arandir desprovido dos excessos do melodrama tradicional, optando pela moderação do homem comum tragado por uma engrenagem que não compreende, o que torna sua derrocada moral ainda mais dolorosa. Ao seu lado, Edson Celulari marca seu retorno ao teatro após catorze anos de ausência, estreando na dramaturgia rodriguiana no papel de Aprígio, o sogro. Celulari edifica sua atuação nos silêncios, na contenção dos olhares furtivos e no peso dos desejos reprimidos que desaguam no desfecho trágico. Nos papéis secundários, Nina Tomsic oferece a composição mais sutil da noite ao jogar com a malícia dos subtextos, Pedro França evita a caricatura ao dotar o submisso Aruba de uma humanidade patética, e Fernanda Dias resgata em rápida participação o timing exato da fofoca de vizinhança. A produção viabilizada por Rafael Raposo prova que o Rio de Janeiro continua sendo o palco para a obra de seu maior dramaturgo. "O Beijo no Asfalto" reitera que a canalhice humana não envelhece, apenas troca de roupa e muda de endereço. No asfalto de Copacabana, o homem continua morrendo. E nós continuamos assistindo. Três perguntas para… … Edson Celulari Você esteve 14 anos afastado dos palcos. O que tornou o convite para "O Beijo no Asfalto" o momento ideal para esse reencontro com o público no teatro? O que me instigou foi o cheiro de desafio. Reler o Nelson Rodrigues e ver a força daquele texto, num projeto que reúne gerações diferentes, com um elenco grande, foi irresistível. Ele é o maior dramaturgo do século 20, revolucionou o teatro com suas tragédias cariocas, essa investigação da hipocrisia e dos valores sociais. A linguagem dele é fascinante e dificílima para o ator. E, depois de 14 anos, estar de volta com uma obra que te exige tanto e te alimenta tanto tem sido fortificante. É um processo lindo, e estou muito feliz com o sucesso que o projeto está fazendo. A peça coloca Aprígio em direta fricção com o genro, Arandir (Eduardo Sterblitch), e com a filha, Selminha (Luísa Arraes). Como foi construir essa dinâmica sufocante de intimidade e desconfiança em cena ao lado desse elenco? O Nelson constrói uma chave dramatúrgica muito interessante: o pai protegendo a filha e desconfiando do genro, sem nunca citar o nome dele. Isso dá uma vivacidade ao texto, com muitas camadas, que vão se descascando até revelar a essência trágica de cada personagem. E, para isso, o teatro exige compromisso com a obra, e verdade. O Nelson exige verdade. É um texto realista, mas não naturalista, e exige disponibilidade de jogo de todo o elenco, são 14 atores em cena, três atos, cada cena um tijolo novo. As diferentes gerações se encontram ali, e a gente aprende e se diverte a cada dia. O jogo essencial do teatro é esse. O Eduardo vem da comédia, é um clown, e quem faz comédia bem é capaz de fazer qualquer coisa – ele é um ator incrível, generoso, e estou adorando esse contato. A Luisa, que conheci criança, se mostra uma atriz dedicada, inteligente, com uma inteligência cênica maravilhosa. E a Nina também constrói a irmã mais jovem de forma muito inteligente. Todo o elenco está brilhante, inclusive no universo da delegacia e da redação, com André Mattos e Ernani Morais. E o diretor Marco André Nunes foi muito feliz nas escolhas de cenografia, luz e música. Os dois músicos em cena, que também viram atores, integram tudo de forma sutil. O espaço Gláucio Gil, semiarena, dá um charme especial. É um projeto que deu certo. Nelson Rodrigues afirmava que as misérias do ser humano são as mesmas desde o Gênesis. Ao interpretar essa obra escrita em 1960, como você enxerga a relação entre o sensacionalismo daquela época e os linchamentos virtuais e a disseminação de fake news de hoje? Nelson está certo: as misérias são as mesmas. Avançamos muito pouco. A Renata Sorrah foi assistir e disse: "nossa, os homens de hoje estão melhores", mas será que estão? O que ele retrata nessa peça – o julgamento público, o esquartejamento moral – é o que vivemos hoje com o cancelamento e as fake news. O Arandir é uma vítima no meio disso, sem defesa. É impressionante como a narrativa vai crescendo como um telefone sem fio. E eu acho lindo quando ele diz que não se arrepende do beijo, porque achou bonito. A visão do Nelson foi genial, profética. Ele é um gênio que tivemos a sorte de ter no nosso teatro. Sempre quis fazer um texto dele, chegou a hora, e espero que o projeto tenha vida longa para que mais pessoas possam ver essa força. Teatro Gláucio Gil - Praça Cardeal Arcoverde, s/nº - Copacabana. Quarta a segunda, 20h. Até 3/8. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. R$ 20, disponíveis na bilheteria física ou pelo site da FUNARJ LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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