Pe�a cria am�lgama a partir de dan�as que s�o populares nas ruas do Brasil

Pe�a cria am�lgama a partir de dan�as que s�o populares nas ruas do Brasil

No começo, tudo é silêncio e ausência. De repente, um bailarino entra em cena com as mãos erguidas para o alto e se posiciona no centro do tablado. Os movimentos são lentos e suaves, como se ele estivesse flutuando debaixo d’água. Esse langor, no entanto, é interrompido pelo ressoar de uma música que mistura funk e xaxado, momento em que o artista agita os pés de forma frenética. Tal como a canção, os passos são marcados pelo hibridismo. Ora lembram o samba e o breakdance, ora evocam o frevo e o passinho. A impressão é que a coreografia une os ritmos que brotaram em diferentes ruas do Brasil. Não à toa, radiografar os estilos populares do país é justamente uma das propostas de "Puff", espetáculo que estreia na quinta-feira, dia 13, no Sesc Pompeia, na zona oeste de São Paulo. Dirigida por Alice Ripoll e estrelada por Hilton Junior, conhecido como Hiltinho Fantástico, a produção da companhia REC nasceu a partir do interesse do dançarino pelo passinho —dança que surgiu nas favelas cariocas nos anos 2000. O artista entrou em contato com esse movimento aos 8 anos, quando morava com a família em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. A partir daí, o hobby se tornou profissão e ele passou a nutrir interesse pelas demais vertentes da dança. "Sempre tive essa vontade de misturar outros estilos com o passinho, porque ele é muito aberto para movimentações como o samba, o frevo e o hip hop." Esses três estilos, inclusive, enfrentaram estigmas ao longo dos anos por terem ganhado força em regiões periféricas. Situação parecida aconteceu com o passinho, associado no começo à marginalidade. "Acho que ele está recebendo um olhar mais cuidadoso e sendo mais valorizado nesse momento, mas foi um trabalhão para chegar até aqui. A gente era muito separado. ‘Ah, é uma coisa só da favela.’ Não, o passinho é mundial agora." Como parte desse reconhecimento, o governo do Rio de Janeiro sancionou, em 2024, um projeto de lei que tornou o passinho patrimônio cultural imaterial do estado. "Acho que há muito o que ganhar ainda e muito o que misturar com outras danças. O passinho pode ser tudo", diz o dançarino. Com o prestígio conquistado nesse estilo, Hiltinho foi convidado para dançar nos shows de nomes como Anitta e Mariah Carey. O maximalismo das produções contrasta com o tom intimista de "Puff", espetáculo voltado a plateias reduzidas em que o destaque não está na pirotecnia, mas no corpo do dançarino. Essa mudança de atmosfera influenciou a presença de Hiltinho sobre o palco. No lugar da postura explosiva típica de shows pop, ele adotou um semblante de natureza meditativa. "Na maioria dos momentos do trabalho, eu não olho o público. É uma tentativa de interiorizar um olhar para dentro, um olhar para mim." Isso fica nítido quando o bailarino esconde as íris debaixo das pálpebras, de modo a deixar toda a parte branca do olho à mostra. Ao fazer isso, é como se o artista estivesse perdido dentro de si mesmo. "Ele já dançou para plateias que tinham milhares de pessoas, mas também transita pela dança contemporânea com performances para 30 pessoas", diz Alice Ripoll, a diretora do espetáculo. "É um tipo de interpretação muito diferente. Não é tão comum que os dançarinos transitem com tanta facilidade entre esses tipos de performance." Ao assistir ao espetáculo, chama a atenção também a intensidade dele sobre o palco. Apesar do semblante introspectivo, muitos movimentos de Hiltinho carregam grandes doses de energia. Essa, aliás, é uma das características do passinho —estilo conhecido pela agilidade com que seus adeptos movimentam os pés. Não à toa, o bailarino transpira bastante ao longo do espetáculo em razão do esforço físico, característica que se tornou um elemento cênico. Durante a performance, o artista começa a lamber o próprio braço, tentando sorver o suor que se espalha por sua pele. "É como se ele estivesse se alimentando de si mesmo", diz Ripoll. A rapidez quase fugidia do passinho inspirou também o nome do espetáculo. "Puff", afinal, é uma onomatopeia que faz alusão ao ruído de algo desaparecendo como num passe de mágica. "Você não consegue olhar aquela movimentação veloz de perna e aprendê-la rapidamente", diz a diretora. "Ela tem alguma coisa de mistério e ilusionismo."

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