Líder religioso não precisa subir ao púlpito para pedir voto para um candidato. Em muitas igrejas, fazer isso abertamente pode até causar desconforto. Segundo o Datafolha, os líderes religiosos têm a menor influência declarada sobre o voto para presidente: 23% dizem sofrer muita ou alguma interferência. Ficam atrás da família, do cônjuge, dos jornalistas, dos amigos e até das pessoas seguidas nas redes sociais. Mas o dado, sozinho, engana. Ele mede a influência mais explícita, aquela que se manifesta como apoio direto a um candidato ou rejeição aberta a outro. Só que a influência religiosa quase nunca é tão frontal. Ela age de modo mais discreto, mais contínuo e, por isso mesmo, mais eficiente. Pastor ou padre nunca influenciaram voto sozinhos. Quando influenciam, é porque estão inseridos em um ambiente maior de formação moral, doutrinária e afetiva. O púlpito importa, mas não atua isoladamente. Ele conversa com a escola dominical, com a música, com os livros, com os cursos internos, com as redes de amizade e com o vocabulário cotidiano que define o que é certo, errado, ameaçador ou desejável. É nesse terreno que o voto começa a ser preparado, muito antes da eleição. A repetição de certos textos bíblicos, a escolha de temas específicos para pregações e estudos e a ênfase permanente em valores como ordem, autoridade, família e disciplina vão organizando uma visão de mundo. Quando a campanha chega, ela encontra uma consciência já moldada. Por isso, a imagem do pastor que "manda" o fiel votar em alguém é simplificadora. Em alguns casos, isso existe, mas não explica o essencial. O mais comum é algo menos espetacular e mais profundo: a formação de afinidades entre o repertório religioso e um campo político específico. A influência acontece menos pela ordem direta e mais pela formação de uma sensibilidade. Um exemplo está na seleção dos temas ensinados nas igrejas. Quando se insiste em certos assuntos e se evita outros, a própria comunidade aprende a olhar a vida social por um filtro determinado. O mesmo vale para o modo como se fala de família, sexualidade, trabalho, autoridade e papel do Estado. Isso não é neutralidade; é formação política. A influência religiosa sobre o voto não é só pastoral. Há um ecossistema inteiro em funcionamento: música gospel, literatura, seminários teológicos, ministérios especializados, cursos para casais, materiais para criação de filhos e uma circulação constante de mensagens nas redes. A voz do pastor é importante, mas está longe de ser a única. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha É nesse sentido que a hipótese da afinidade conservadora, formulada por Jairo Nicolau em "O País Dividido" (Zahar), ajuda a entender o cenário. Evangélicos são, em média, mais conservadores do que outros grupos da população, e conservadores tendem a se alinhar mais facilmente com a direita. A eleição, nesse caso, não cria a afinidade; apenas a revela. Há, inclusive, situações em que o pastor é moderado ou progressista, mas a denominação e os fiéis já são conservadores. Nesses casos, o espaço para influenciar a escolha eleitoral é quase nulo. O voto já chega à igreja parcialmente organizado por uma matriz anterior de valores e identidades. A pergunta, portanto, não é se o líder influencia ou não o voto. A pergunta é como a igreja, em seu conjunto, fabrica disposições que depois viram preferência eleitoral. A resposta não está no palanque ou no púlpito. Está no trabalho lento, cotidiano e silencioso de formação de consciência dentro da comunidade religiosa. E é justamente aí que a influência se torna mais forte: quando deixa de parecer influência.
Pastor nunca influenciou voto sozinho
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