A avalanche de lama e gelo que devastou a região central do Nepal na última quarta-feira (26) se soma à crescente lista de desastres possivelmente influenciados pelas mudanças climáticas ao redor do mundo. A imprensa local já classifica a tragédia como a de maior impacto econômico da história do país. O Nepal, no entanto, pouco tem a ver com a causa do aquecimento global: emitiu historicamente apenas 0,05% dos gases de efeito estufa que aquecem o planeta. "Países que não contribuíram em praticamente nada, ou cuja contribuição foi mínima [para a crise climática], estão pagando a maior parte da conta dos impactos climáticos. Essa desigualdade precisa ser enfrentada em âmbito global", afirma o especialista em diplomacia climática Manjeet Dhakal. O nepalês é negociador do grupo dos Países Menos Desenvolvidos nas conferências sobre mudança do clima das Nações Unidas. Com 46 nações, o bloco reúne algumas das nações mais pobres do mundo. Em entrevista à Folha, Dhakal ressaltou como o descumprimento de promessas de financiamento pelos países ricos diminui a capacidade de adaptação aos eventos climáticos extremos e amplia desigualdades. "Como essa resposta global não tem sido tão eficaz, apesar dos acordos firmados no processo multilateral, muitos dos países vulneráveis são obrigados a redirecionar [ao clima] recursos destinados a necessidades básicas, como saúde, educação e construção de outras infraestruturas, o que torna esses países mais pobres", diz ele, acrescentando que esse processo leva também a mais endividamento. A dimensão exata do papel da crise climática no desastre do Nepal ainda está sendo estudada. Mas o colapso de geleiras é uma consequência conhecida do aquecimento global. Além disso, o aumento das temperaturas provoca o degelo do permafrost (tipo de solo congelado), fazendo com que o gelo em grandes altitudes seja perigosamente instável. Esses impactos vêm atingindo o país ano após ano: o rompimento de um lago glacial causou inundações no rio Barun em 2017; chuvas de monção e derretimento de neve alagaram o vale do rio Melamchi em 2021; uma enchente relâmpago em julho do ano passado atingiu o rio montanhoso Bhotekoshi, também afetado no desastre desta semana. "Sempre que ocorrem eventos extremos como esses, todos voltam a atenção para o país afetado, mas, depois de algum tempo, o assunto sai de cena", afirma o diplomata. "Os países com maior responsabilidade pelas emissões, tanto historicamente quanto atualmente, precisam reconhecer essa responsabilidade e transformá-la em ações concretas." A resposta global à mudança climática deveria funcionar sem a necessidade de 'lembretes' constantes como esses Atualmente, a meta global é que os países ricos precisam financiar US$ 300 bilhões anuais em recursos climáticos para nações em desenvolvimento até 2035, tanto de fontes públicas como privadas. O valor pedido pelos países mais pobres, porém, era de US$ 1,3 trilhão. O compromisso pouco ambicioso foi firmado em 2024, renovando uma promessa anterior, de 2009: a de que fossem destinados US$ 100 bilhões anualmente para esse fim até 2020. Mas o montante só foi atingido em 2023. "E não é que faltem recursos no âmbito global. Quando se trata de guerra, há recursos", diz Dhakal. Planeta em Transe Uma newsletter com o que você precisa saber sobre mudanças climáticas Ele espera que o desastre nepalês possa servir como instrumento de pressão para a impulsionar a ação climática e os fluxos de financiamento para países montanhosos e influenciados por geleiras, a exemplo do que aconteceu após as inundações que varreram o Paquistão em 2022. Naquele ano, a tragédia foi usada na COP27, conferência do clima da ONU, para fortalecer a demanda por um fundo para reparação de perdas e danos climáticos, destinado apenas aos países "particularmente vulneráveis". O mecanismo foi criado, mas, até o momento, foram prometidos apenas US$ 822 milhões em repasses. "A resposta global à mudança climática deveria funcionar sem a necessidade de 'lembretes' constantes como esses", diz o especialista. Além de obras de infraestrutura e outros tipos de adaptações aos eventos extremos, o financiamento climático pode ser destinado à criação de sistemas de monitoramento e alerta precoce que salvam vidas. Estamos falando de uma cadeia montanhosa que se estende por mil quilômetros Dhakal afirma que esse tipo de mecanismo foi instalado em muitos lagos glaciais e, principalmente, em rios do Nepal. Assim, quando o nível da água começa a subir, o alerta é acionado. "Desta vez, esse tipo de sistema automatizado de alerta precoce não funcionou, mas havia mecanismos de alerta por meio dos quais as pessoas conseguiram se comunicar. O tempo, porém, foi muito curto: houve apenas cerca de 15 minutos de aviso prévio", conta ele. "Em um dos locais que recebeu esse aviso, havia uma escola e a direção conseguiu levar todos os alunos para uma área mais elevada. Todas as vidas foram salvas, ainda que a estrutura da escola tenha se perdido", relata o especialista. "Portanto, se o aviso tivesse chegado com mais de 15 minutos de antecedência, se as informações tivessem sido fornecidas antes, seria possível salvar mais vidas, mesmo que não fosse possível preservar os bens materiais." Contudo, ele ressalta a complexidade do problema. "Estamos falando de uma cadeia montanhosa que se estende por mil quilômetros", lembra Dhakal. "No caso das geleiras e dos sistemas de alerta precoce nas montanhas, a tecnologia ainda precisa avançar muito —e é extremamente cara, porque são sistemas que precisam operar em temperaturas muito abaixo de zero. Isso também exige apoio e cooperação da comunidade internacional."
Pa�ses que n�o provocaram mudan�a do clima est�o pagando a conta, diz especialista nepal�s
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