Pa�s pagar� o pre�o do debate eleitoral indigente

Pa�s pagar� o pre�o do debate eleitoral indigente

A decisão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de não participar do derradeiro debate televisivo da campanha presidencial deste ano —e, assim, de nenhum confronto aberto de ideias antes do primeiro turno— evidencia o descaso com o eleitor. Não se pode dizer, infelizmente, que essa seja a única, ou mesmo a maior, mostra da degradação da disputa política nacional. Flávio Bolsonaro (PL), que na condição de principal postulante oposicionista teria a obrigação de ser mais propositivo, passou a campanha ora fazendo críticas demagógicas ao custo de vida, como se tivesse o poder de fazer os preços baixarem, ora inventando desculpas esfarrapadas para a revelação de suas relações de afeto com o corruptor Daniel Vorcaro. A indigência do cotejo de programas é o efeito nefasto de uma corrida em que a estratégia mais relevante de cada um dos candidatos competitivos consiste em explorar a enorme rejeição ao adversário. É fato que, em pleitos passados, temas incômodos já foram tratados à base de platitudes e tergiversações; hoje, porém, são quase ignorados. Isso ocorre devido à conjugação de um cenário de forte polarização ideológica afetiva com o virtual empate entre os dois favoritos nesta reta final, tanto em intenções de voto como em repulsa do eleitorado. Sem ter muito espaço para crescer, eles optam por táticas de guerrilha. Qualquer pessoa minimamente bem informada sabe que o país está diante de uma escolha difícil entre um duro ajuste dos gastos públicos, que envolverá medidas potencialmente impopulares, e o risco de agravamento do estresse financeiro que já sufoca famílias, empresas e o próprio governo, podendo levar a uma recessão. Lula, além de não dar sinal de que pretende fazer uma correção de rumos, esmera-se em criar novos gastos às vésperas do pleito acirrado; Flávio promete um grande ajuste que, no mundo de fantasia das campanhas, será feito sem sacrifícios. O que pode parecer uma estratégia eleitoral sagaz torna, depois, muito mais difícil a tarefa de governar —em prejuízo dos cidadãos. Candidatos fazem compromissos públicos com a finalidade de mitigar o risco de surpresas amargas à frente, expondo-se à responsabilização política em caso de descumprimento. Isso nada tem de abstrato. Para não ir muito longe na história, o grande estelionato eleitoral perpetrado por Dilma Rousseff (PT) depois da eleição de 2014, quando se tentaram reformas orçamentárias renegadas na campanha, foi um dos elementos que contribuíram decisivamente para o impeachment da ex-presidente. Em poucas semanas estará esquecido todo o ridículo alarido criado em torno do estatuto de padroeira de Nossa Senhora Aparecida —uma ficção que hoje mobiliza até ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Restarão problemas graves e reais para o eleitorado, que os principais candidatos trataram de ignorar por oportunismo ou covardia. editoriais@grupofolha.com.br

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