Paris � uma sauna

Paris � uma sauna

Para Hemingway e outros escritores de sua época, Paris era uma festa. Para a Giovana Madalosso e seus contemporâneos, Paris é uma sauna. Falo de cadeira, a do meu hotel, onde estou sentada tentando escrever uma coluna enquanto gotas de suor descem pela minha testa. Quem dera fosse resultado de ginástica mental. Meu cérebro mal consegue funcionar, minha massa cinzenta parecendo uma porção de escargots gelatinosos recém tirados do forno. Os termômetros hoje em Paris marcam 35 graus e a qualidade do ar é descrita como "deteriorada". Meu hotel, como tantos outros, construído há séculos, não tem ar-condicionado nem está preparado para essa temperatura. Pelo contrário, sua estrutura foi arquitetada para reter o calor —quando os engenheiros do século 19 imaginariam que o ser humano seria estúpido a ponto de colocar mais fósseis na fogueira? Como não tenho mais prazo —preciso entregar o texto da coluna—, resolvo sair para arejar a cabeça. Ao pisar na rua, arejo: tal qual uma carne na grelha. Ao contrário do Brasil, em que a temperatura atinge seu pico no meio do dia e depois vai caindo, aqui o calor vai se acumulando: são cinco da tarde e nunca esteve tão quente. Resolvo buscar refúgio em um estabelecimento comercial. Por sorte, estou perto do Café de Flore, onde Simone de Beauvoir escreveu alguns de seus livros. Acho a escolha conveniente: quem sabe o espírito da francesa, que deve vagar por aqui, baixe no meu corpo para que eu psicografe algo decente para o maior jornal do Brasil. O lugar está lotado. Franceses e turistas disputam a tapa um lugar à sombra. Ou, ainda mais exclusivo: ao ventilador. Executivos, sufocados em ternos e gravatas, olham para as pás girando com a mesma adoração que os maias olhavam para o Sol. Obviamente, mesmo que a custo de muito champanhe, ninguém abandona uma mesa. Me encosto no balcão e tento invocar a sororidade de Simone —vem pra mim, feminista—, mas imagino que ela se recuse a entrar em uma pele tão pegajosa, com rodelas úmidas sob o braços e um bigodinho de suor de fazer inveja a Dalí. A fim de me abanar, pego o jornal Le Monde, gentilmente disponibilizado pelo café. Nas páginas, os tristes incêndios que estão assolando diversas regiões da França e obrigando milhares a evacuarem suas casas. As mortes provocadas pelo calor. A charge de um homenzinho segurando um ventilador precário contra uma imensa onda de fogo. Ainda sem conseguir escrever, volto para a rua. Sob as marquises, vejo parisienses bem-vestidos deitados em colchões, moradores que não suportaram ficar debaixo de seus tetos de zinco. Também vejo o rio Sena lotado de banhistas. Paris é uma sauna, mas pelo menos uma sauna que vem reduzindo a circulação de carros, aumentando o número de espaços verdes, ciclovias e ruas para pedestres, além de habilitar parte do Sena para banho. Ao contrário de São Paulo, que segue refém na carrocracia, ignorando o potencial do Tietê no enfrentamento climático e com pouca e má distribuição de área verde por habitante. Sento-me debaixo de uma árvore. Não sei se é o súbito frescor na moleira ou a crise climática, que sempre rende assunto, mas, de repente, já sei o que vou escrever nesta suada coluna. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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